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Performance
Rituais como fragmentos de vidas

Candomblé Terreiro Oxumaré
Candomblé Terreiro Oxumaré | © Taylla de Paula

Deslizamentos e fricções marcam os encontros e percursos de artistas, performers, curadores e pesquisadores nos corredores do Goethe-Institut, mas também vão além de suas paredes. 

Na conferência Ecos do Atlântico Sul, painéis e conferências formais dividem espaço com expressões artísticas e ritos religiosos.

(Re)significados 

Jota Mombaça Jota Mombaça | © Taylla de Paula O público assiste atento a todos os movimentos de Jota Mombaça. Depois de cortar pedaços de linha vermelha, escolhe e separa cacos das garrafas de vidro que acabou de quebrar com um martelo. Aos poucos, com cuidado, pensando em cada movimento, amarra os estilhaços mais afiados nas pontas de sete grossos gravetos. A performance "A gente combinamos de não morrer", inspirada no obra homônima da escritora Conceição Evaristo, traz à tona debates caros ao performer: questões raciais e de sexualidade, além de abordagens decoloniais. X artista define seu trabalho como uma “performance-homenagem-comentário”.

Sentidos de sobrevivência e violência são postos em cena para uma plateia silenciosa, num corpo que, vivo no mundo, fala por si e tensiona categorias sociais. Ao fim de cada processo, nascem objetos de significados variados: armas, ferramentas ou símbolos sagrados? Como seja, Jota Mombaça empunha cada um deles e aponta para os espectadores, olhando firme, sempre em frente. 

Mulheres, amores e mapas 

Sarojini Lewis Sarojini Lewis | © Taylla de Paula No teatro, mapas do Google são projetados em grande escala no fundo do palco. O centro é ocupado pela artista holandesa Sarojini Lewis, com apenas um microfone e notebook, de onde controla os passeios pela projeção. Ela é iluminada por uma lâmpada fraca, vinda do teto, e um colar de flores envolve seu pescoço. A performance "Fernanda Romero: Searching for Madame Janette" põe em cena uma história de amores, términos e abandonos.

Enquanto lê a narrativa sobre uma mulher desaparecida, Sarojini conduz a plateia por uma jornada geográfica no mapa do Brasil e da América do Sul, tematizando aspectos sexuais e femininos. Esse corpo em trânsito também explora a prostituição. Por fim, a performer pede licença para ler uma carta de amor com “pensamentos inflamáveis”. De pé, assumindo o papel do eu-lírico que some no mundo, a artista diz que lhe foram impostas “regras de borboleta”. 

Encontros de uma diáspora atlântica 

A chegada de visitantes num ambiente religioso sempre envolve, inicialmente, um momento de reconhecimento mútuo. Na Casa de Oxumarê (Ilê Axé Oxumarê), a expectativa também é uma das energias compartilhadas pelas irmãs e mães do terreiro. A presença da princesa nigeriana Iya Adedoyin Talabi Faniyi (nascida Olayiwola-Olosun), da cidade de Osogbo, catalisa trocas transatlânticas na Casa.

Recebida com festejo e respeito pelas mais antigas mães da Casa, Iya Adedoyin lidera a saudação e pedido de licença a todos orixás assentados por ali. A mestra em estudos africanos também é alta sacerdotisa da religião tradicional yorubá em Osun, Obatalá, Ifá, Egbe, Obaluaye, Ogboni, Aje, Baayanni. Os atabaques, conduzidos pelos filhos da família Oxumaré, entoam um canto especial em homenagem a Oxum. Ao redor de objetos sagrados, a princesa dança em roda com filhas do Ilê Axé, em saudação à mãe das águas doces.

Para a yakekerê Sandra (sucessora eventual da mãe de santo), o momento teve tom de grande festa e comemoração na Casa. “Recebê-los aqui é um presente. Cada irmão e irmã é mais um na luta para desmistificar o olhar racista e discriminatório dirigido às religiões de matrizes africanas. A resistência e a tentativa de quebrar as correntes ainda persistem”.

por Luis Fernando Lisboa

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