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Painel 4
Pluralidade líquida

Painel 4
Painel 4 | © Taylla de Paula

O Atlântico Sul sugere múltiplas abordagens, que vão da poética entre a morte e a força materna ao humanismo, passando pelo poder transformador das artes e pelo genocídio das populações negras no Brasil. 

Mediada pela estilista e ativista Carol Barreto, essa discussão parte da pluralidade para chegar à ideia de “Memória e Solidariedade nas águas do Atlântico”.

A mãe da água

Dezenas de homens negros estão empilhados como mercadorias na ilustração de um dos navios que deixaram a África com populações inteiras em seus porões, séculos atrás. Uma embarcação menor, também superlotada, exibe refugiados eritreus e somalis, fotografados em Lampedusa, na Itália, onde um naufrágio vitimou 360 pessoas, em 2013. Dispostas lado a lado, as duas cenas apontam para a dialética de Black Atlantis (Atlântico Negro), série de performances experimentais de Ayesha Hameed.
 
Líder do programa de mestrado em teoria da arte contemporânea em Goldsmiths, a Universidade de Londres, na Inglaterra, Hameed traz para o Goethe-Institut Salvador um fragmento do projeto no qual explora o som e a imagem em movimento ao sugerir pós-vidas no Atlântico negro. Para isso, ela adota como referências a migração contemporânea no Mediterrâneo, sistemas de som afrofuturistas, a ideia de antropocentrismo e conceitos imagéticos de Walter Benjamin.
 
“Busco pensar sobre o som, a imagem, a água, a violência e a história como elementos de um arquivo vivo”, explica e completa: “Também uso a viagem no tempo como uma metodologia histórica”. O olhar de Ayesha Hameed deixa a superfície e desloca-se para o fundo do oceano, valorizando menos as viagens do que as vidas perdidas no mar. Sua narrativa explora uma cidade submersa, a imaginária Drexciya, fundada por crianças expulsas de suas mães, grávidas e prisioneiras naqueles navios.
 
Na ficção, a vida se impõe. “Jogados ao mar, esses bebês adaptaram-se a viver debaixo d’água, já que saíram do líquido amniótico direto para o fundo do Atlântico”, situa a pesquisadora. Aí está a origem de uma comunidade negra que simboliza, segundo Hameed, “a materialidade do espaço oceânico”.  Durante o evento no Icba, ela apresentou um trecho do vídeo inédito “In the Shadows of our Ghosts” (Na sombra de nossos fantasmas, 2018), que será exibido em Londres, no final de abril.
 
No vídeo, imagens sobrepostas de terra e mar contam a tragédia real de um barco encontrado em 2006, em Barbados, com 11 corpos intoxicados pelo sol e pela água salgada. Eram migrantes do Senegal, Guiné Bissau e Gâmbia, que pagaram 880 libras para deixar a cidade de Praia, capital do Cabo Verde, mas não chegaram ao destino final. O barco, que acabou a deriva, viajou por quase três mil milhas, seguindo a mesma rota de tantos séculos antes e experimentando um horror semelhante.  “Corpos e barco são como um amálgama futurista, que carrega traços da vida e da morte”, observa a artista.

Humanismo no centro

Abdulai Sila talking in Panel 4 © Taylla de Paula Depois de correr o mundo e de viver 16 anos fora da Guiné-Bissau, o engenheiro e escritor Abdulai Sila entendeu que seria preciso “recriar a humanidade com humanismo, tendo a África como berço”.  Quando Sila nasceu, seu país ainda não era livre. Ele acredita, porém, que abordar as questões contemporâneas é mais difícil do que foi conquistar a independência. “Derrotamos o colonialismo e eu sobrevivi a isso. Agora sinto que estou travando a minha última batalha”.
 
O trabalho de Sila é vanguardista no uso de tecnologias emergentes para acelerar o desenvolvimento do seu país.  Ele é co-fundador do Eguitel Communications, primeiro servidor de internet da Guiné Bissau, e também do INEP, Instituto Nacional de Pesquisas. Mas a batalha a qual refere tem um sentido mais profundo, de assumir uma negritude global.  “Cinco séculos após uma das formas mais cruéis de subjugação de todos os africanos, incluindo os da diáspora, partilhamos esse sentimento, essa espécie de essência, onde está a nossa história”, explica.
 
Não se trata de redenção, reabilitação ou readaptação, situa o escritor. Ele defende a redefinição da identidade africana. Abdulai Sila acredita que, assim como o centro das decisões políticas passa pela Europa, Estados Unidos e, atualmente, Ásia, o continente africano será o próximo.  “Por enquanto, ainda não é normal que países de fora da África queiram ser membros da sociedade africana. Mas essa nova identidade está crescendo”, aposta.

Sobre o risco de que esse protagonismo internacional repita “os desastres do passado”, ele pondera estar “fora de questão”. Para Sila, que atualmente preside a Associação de Escritores da Guiné-Bissau, isso será equacionado pelo humanismo.  “As sociedades podem coexistir e lutar juntas por questões atuais, seja o meio ambiente, a pobreza ou a injustiça”.

Nova política cultural

Elisa Nascimento Elisa Nascimento | © Taylla de Paula
Um processo de revisão também é proposto por Wolfgang Schneider, diretor do departamento de política cultural da Universidade de Hildesheim, na Alemanha. Schneider reforça a importância de “reescrever a política cultural para o futuro das relações transatlânticas”.  O membro da UNESCO em política cultural para as artes em desenvolvimento usa um tom mais acadêmico e prefere levantar questionamentos e deixar sugestões em vez de teorizar sobre tópicos fechados.
 
A pluralidade de pessoas envolvidas no debate é destacada pelo professor, lembrando que as questões culturais são políticas, mas não devem limitar-se ao governo e sim incluir as ONGs, os artistas e os gerentes culturais de todo o mundo. Nesse contexto, Schneider deixa uma provocação ao Icba: “Onde estão os portugueses nessa desconferência?”, questiona, diante da ausência de representantes de Portugal no evento.
 
Schneider desenvolve um pensamento no qual é fundamental saber para quê essas discussões estão acontecendo e o que significa usar a cultura como referência e como “poder suave”. A descolonização, “essa palavra tão difícil de ser pronunciada e compreendida”, deve ser vista igualmente como um dos tópicos mais relevantes para a agenda do Sul global pelo menos nos próximos dez anos, defende o professor.
 
Para ele, seria interessante saber se esses mesmos temas, levantados 15 anos atrás no Fórum Mundial Cultural, em Salvador, foram implementados. “Trabalhei muito do que estamos vendo ao lado de Gilberto Gil e queria ver o que encontrou um caminho sustentável”.  Schneider aponta a educação para as artes como um dos movimentos mais importantes na concretização de demandas. É no currículo das escolas que ele vê possibilidades de reais transformação.

Sobre a morte e a origem

As estatísticas apresentadas por Elisa Nascimento são diretas e ligam a experiência atlântica do Brasil ao genocídio da população negra. Doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo e diretora do Ipeafro (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro Brasileiros), no Rio de Janeiro, Nascimento lembra à plateia que quase cinco milhões dos africanos levados para outros continentes chegaram ao Brasil –45% do total das populações escravizadas.
 
A pesquisadora reforça que é preciso pensar as relações entre a diáspora, o genocídio do povo negro e o processo de racismo mascarado. O tema, inclusive, é tratado em livro, escrito por Abdias Nascimento (1914-2011),  fundador do Ipeafro e um dos principais representantes na luta pelos direitos das populações negras no Brasil. Numa autodefinição, o instituto pode ser resumido em “ubuntu”, palavra zulu que carrega múltiplos significados humanísticos como a ideia “sou o que sou pelo que nós somos”.
 
Em sua fala, Elisa Nascimento situa o Brasil como o país com maiores índices de homicídio no mundo. A diretora do Ipeafro ilustra com dados da Anistia Internacional a realidade brasileira que supera a de muitos países em guerra.  São 30 mil mortes por ano, 7 a cada duas horas, vitimando em sua maioria jovens negros. A indiferença diante do fato também é assustadora, como colocou Elisa Nascimento: apenas 5% dos homicídios são investigados no Brasil.
 
Além da morte física, Nascimento destaca a morte cultural a qual a população negra está submetida no Brasil. Ela destaca o Teatro Experimental do Negro, projeto de Abdias do Nascimento para a afirmação da identidade como um símbolo de resistência. Durante o evento no Goethe, Elisa também aproveita o encontro de ativistas e pensadores de diversos países e os convoca a se unir à causa do quilombo Rio dos Macacos, em Simões Filho, que há anos enfrenta restrições para continuar existindo. 

por Carla Bittencourt

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