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Entrevista
“HÁ APENAS UM SUL POSSÍVEL PARA AS TEORIAS?”

Moises Lino
Moises Lino | © Taylla de Paula

O antropólogo e professor Moises Lino e Silva, mediador da desconferência sobre os conceitos de sul da teoria e desobjetificação, critica a antropofagia e a insuficiência da linguagem simbólica e da semântica.
 

Cadu: DE ONDE SURGIU O TEMA “SOUTH OF THEORY” (“SUL DA TEORIA”)?

Moises: O esforço de organizar uma conferência desse tipo, que tenta repensar formas de conhecimento e a importância dessa relação que é muito mais do Atlântico Sul e não do modo europeu de fazer as coisas, foi necessariamente o que nos perguntarmos se decidiríamos os temas e o formato, como geralmente é feito em conferências acadêmicas tradicionais. Desde o início, quando estávamos organizando as conferências, tentamos fazer um formato que não fosse restritivo. Assim, o tema foi decidido meia hora antes do início, em um processo de participação em que as pessoas puderam sugerir temas, um tipo de brainstorming, e votar neles. Os quatro temas mais votos foram debatidos nos barcamps.

Cadu: QUAL A PROPOSTA DE TRABALHO SUGERIDA PELO GRUPO?

Moises: O formato foi aberto, o que chamamos de desconferência. Apenas estabelecemos regras mínimas de convivência no início, para as pessoas se sentirem confortáveis, e tudo fluiu naturalmente. Ao fim de tudo, o exercício foi de registrar e criar uma memória do que foi debatido para que essa informação seja usada nos laboratórios, que serão definidos por formato de intervenção e não por tema. Nos laboratórios, é possível discutir qualquer tema por meio de uma intervenção educacional, artística, social ou escrita.

Cadu: O QUE O GRUPO ENTENDEU POR “SOUTH OF THEORY”?

Moises: A discussão partiu da definição do tema como “o sul da teoria” e não “a teoria do sul”. Foi um ponto de partida pensar não geograficamente, porque pode parecer que a gente já sabe onde é o sul e só nos restaria pensar a teoria. O sul da teoria já abre uma questão: será que há só um sul possível para as teorias? O que é teoria em si e o que é o sul? As duas categorias [teoria e sul] foram colocadas em debate. Por outro lado, há um consenso de que esse tema não é novo, não é uma discussão recente. Perguntas como: a antropofagia já era um movimento que colocava isso em questão? A ideia de pegar algo que parece ser do norte, estrangeiro, e de alguma maneira incorporar, modificar e reaproveitar isso? Apesar de não haver consenso de que a antropofagia deva realmente sempre retornar à discussão - pois pode parecer que foi ela foi a única coisa significativa que se produziu no movimento artístico -, ela sempre reaparece nas discussões. Katharina von Ruckteschell [diretora executiva do Goethe-Institut São Paulo] questionou ao grupo: “Mas a gente tem mesmo que falar de antropofagia de novo?” Outro debate interessante foi o de pensar não só as teorias da prática, que já é um debate teórico formulado e conhecido, mas diferentes práticas de teorias. Será que narrar uma história pode ser considerado uma prática de teoria e, se for, pode ser um exemplo desse sul da teoria?
 

Cadu: QUAIS AS TENSÕES PRESENTES NAS DISCUSSÕES DO GRUPO?

Moises: A maior tensão foi pensar o lugar do norte. A gente está discutindo o sul, mas isso é uma categoria relacional. Precisa ser uma relação de oposição? Me parece que antropofagia não é necessariamente opositiva, não é negar o norte e o estrangeiro, mas incorporá-lo. Isso é significativo, afinal a gente está no Goethe-Institut e esse debate foi possível por um convite que veio do norte, digamos assim. Que lugar o norte pode ocupar nessa discussão sobre o sul da teoria? Katharina novamente levantou outro ponto: o sul da teoria é um lugar que ainda é teórico ou será ele um lugar fora da teoria? Há outros modos de conhecimento que não são necessariamente teóricos. A questão está aberta.
 

Cadu: FALE MAIS SOBRE A CONTROVÉRSIA SOBRE A ANTROPOFAGIA.

Moises: Discutimos a  importância da antropofagia enquanto categoria. Será que a gente não fica preso a essa e a outras categorias? O que é teoria, o que é antropofagia, será que não dá para explicar as coisas com outro vocabulário? A maior tensão foi se incluiríamos ou não o termo antropofagia na nossa memória.
 

Cadu: POR SE TRATAR DE UM TERMO BRASILEIRO, HOUVE UMA DIFICULDADE DE COMPREENSÃO POR PARTE DOS MEMBROS ESTRANGEIROS?

Moises: Não, os participantes estrangeiros estavam até mais interessados no tema. Para eles, antropofagia tem um significado interessante. As pessoas que conhecem mais profundamente a área, a discussão artística, a história da arte, são elas as mais críticas. Elas se perguntam até que ponto a antropofagia é um conceito realmente brasileiro ou não. Até que ponto é um conceito com espírito colonialista ou não? Até que ponto ele domina o cenário do que pode ser dito quando existem outras maneiras de pensar, outros movimentos? Nós debatemos sobre o manifesto antropofágico, a própria ideia de manifesto em si, que é também uma forma de fazer teoria, mas no sentido de conclamar à ação.

Cadu: A QUE RESULTADOS VOCÊS CHEGARAM?

Moises: Nós fizemos um registro das ideias, uma memória que deverá ser apresentada nos laboratórios. Construímos uma coleção de sugestões sobre o uso da linguagem e nos perguntamos: será que a gente pode ir além da linguagem simbólica? Tocamos na questão da insuficiência da linguagem simbólica. As pessoas não estão satisfeitas de terem que se comunicar apenas com a linguagem simbólica, querem ir além desse simbolismo. Isso não é uma discussão recente. É a chamada virada ontológica. Se a gente não está satisfeito só com o simbólico, talvez a semântica não seja suficiente para lidar com nossos problemas. Outro termo importante foi deobjetification. O que seria “desobjetificar”?  No primeiro dia de conferência, quando uma palestrante alemã falou sobre o significado de repatriar objetos de museus, alguém da audiência mencionou que, para os povos africanos ou mesmo os indígenas brasileiros, o que chamamos de objetos são sujeitos. Essa discussão de mudar o status de objetos para sujeitos não é uma questão só de sentido, mas de existência mesmo. Não é que eles estão atribuindo sentidos diferentes, mas eles sentem o mundo de formas diferentes. Então, o que se abriu na discussão foi a possibilidade de explorar esse sul da teoria, um possível sul. A gente chegou à ideia de que pode haver mais de um sul e isso é muito interessante. A ideia é de que nos laboratórios, com quatro possibilidades de expressão (escrita criativa, intervenção artística, ação social e educativa), a gente implemente alguns desses problemas, conceitos e discussões. Eu estou muito curioso para ver como vai funcionar isso. 

por Cadu Oliveira

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