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DESCONFERÊNCIA
É preciso desconstruir para ressignificar

Barcamp
© Taylla de Paula

Descolonização, conexão e preservação são as palavras-chave do debate entre 16 especialistas de várias partes do mundo em torno do tema “A arte como uma forma de união”, durante a Conferência Ecos do Atlântico Sul, no Goethe-Institut Salvador.
 

A discussão envolve formas de desconstruir o papel de dominância (política, econômica e cultural) das nações colonizadoras. Os participantes consideram fundamental a construção de uma rede de conexões entre as nações do Sul, assim como a preservação de seus locais simbólicos.
 

“É preciso instigar novas formas de arte promovendo a ancestralidade e a emancipação dos artistas”, ressalta a arquiteta angolana Filomena Carvalho.

A reflexão é inspirada por exemplos práticos do que isso significa, como a história contada pela princesa nigeriana Iya Adedoyin Talabi Faniyi, sobre a Floresta Sagrada Oshogo, na qual artistas vivem e expõem suas esculturas de madeira, pedra e concreto em meio à natureza, em um local de relevância cultural e religiosa. As obras de arte atraem milhares de pessoas para a floresta. ​“A iniciativa não só valoriza a arte local como também preserva a Floresta Sagrada, que é tão importante para o meio ambiente quanto para a nossa identidade e cultura” afirma a princesa.
 
Outra ação de preservação faz parte da história pessoal do músico, professor e pesquisador cultural Manuel Monestel. Ele integra um movimento de valorização do calypso na Costa Rica, que culminou no Festival Internacional de Calypso. “Antes considerado uma forma de expressão cultural marginalizada pela elite local, hoje o ritmo atrai milhares de pessoas para a capital San José durante o evento, sendo de extrema importância na identidade e economia local”, comenta o compositor.
 
Como contraponto, a artista e investigadora de culturas ameríndias e afro-brasileiras Anita Ekman conta sobre o sambista Waldir 59, que, apesar de pouco conhecido, foi um dos fundadores da Portela. “Ele morreu sem o reconhecimento que merecia, apesar de ter sido criador de uma das escolas de samba mais famosas do Brasil”, lamenta Ekman, que trabalhou para divulgar a obra do compositor.
 
É consenso entre o grupo que essas iniciativas são viabilizadas quando há uma rede atuando em conjunto. Dessa forma, as pessoas e instituições do Sul precisam se conectar e apoiar os artistas locais, sem os conceitos impostos pelas nações colonizadoras a respeito do que é arte e curadoria, do papel do museu e do artista. Para todos, isso deve ser feito de forma harmônica e igualitária, a fim de desenvolver e valorizar as culturas locais - e, acima de tudo, sem os padrões opressores do sistema capitalista.
 

“Precisamos recuperar a memória e rastrear as origens das diferentes expressões artísticas de nossos países, as artes folclóricas, nativas, indígenas, africanas, que não estão nos museus”, reforça Manuel Monestel.

Há uma tendência das nações colonizadas perderem o seu sentimento de pertencer, em decorrência dos impactos da violência cultural colonizadora, tornando o próprio diálogo interno mais difícil, segundo o escritor de Guiné-Bissau Adbulai Sila.  “Certamente, esse é um obstáculo, além do sistema capitalista opressor, que dificulta o entendimento”. Para ele, o processo de descolonização e organização precisa ser feito de uma forma mais humana.
 
Há ainda outro desafio que deve ser levado em conta, segundo Emi Koide. “A descolonização está na moda. Em busca de novidades, a Europa recorre aos artistas do sul. Além disso, o próprio conceito de arte é ocidental. Precisamos lidar com isso. Senão, tudo permanece igual”, reflete.  

Participaram da desconferência: Amanda Abi Khalil, Anita Ekman, Iya Adedoyin Talabi Faniyi, Marie-Christine Gay, Emi Koide, Filomena Carvalho, Manfred Stoffl, Manuel Monestel Ramírez, Patrick Pessoa, Jane de Hohenstein, Mona Suhrbier, Wolfgang Schneider, Tatewaki Nio, Ana Hupe. 

por Iara Crepaldi

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