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Lab
Conhecimento atemporal

Lab: Detemporality
© Taylla de Paula

Algo interessante acontece em uma das sessões de fim de tarde, quando a conversa sai da teoria em direção a uma realidade prática.

“Aqui estamos nós. A maioria de nós foi convidada então isso já vem com um privilégio”, diz x artistx, Jota Mombaça. “Mas eu não me sinto confortável dando algo a esta instituição. Ela que precisa me dar algo”! Esse sentimento também é compartilhado por Koyo Kouoh, curadora, e essa linha de pensamento levanta uma discussão tópica, mas quase que nunca tida, sobre poder institucional e privilégio. Ela propõe uma quase que intangível reversão de poder e privilégio na qual, em vez de dos participantes criarem algo para ser usado pelo Goethe-Institut, eles demandam que o Instituto os ofereça algo.

Muito é dito e escrito sobre o custo monetário e logístico de criar conferências como essa. O trabalho é inegável, mas também tem o trabalho mental de engajar, destrinchar e talvez até recriar narrativas tradicionais do arquivamento histórico. Sem esses participantes, o que seria o Goethe-Institut se não mais uma instituição europeia em solo não-europeu? A política do espaço, poder e privilégio é muito visível durante eventos como este, em que os tópicos refletem as experiências dos marginalizados da sociedade, mas as conversas acontecem em espaços institucionais predominantemente europeus.

O tema deste grupo é "Destemporalidade", um estado de existência dentro de, ou havendo uma relação com o tempo. O tempo é fugaz, fazendo parecer que as experiências nunca vão terminar e que são interligadas. O passado e o futuro se cruzam e nós vemos isso nas imagens do século 18 exibidas por Lilia Schwarcz durante sua fala sobre o legado da escravidão; imagens da dor negra que podem ser encontradas hoje em variados formatos no Google se você simplesmente buscar a brutalidade policial ou a violência do Estado contra pessoas negras. A fluidez do tempo encontra o seu caminho a este painel com conversas se entrelaçando e se desfazendo uma da outra, sem nenhum formato concreto, exceto o intercâmbio de saberes que ocorrerá.
 
Ecos do Atlântico Sul é uma empreitada digna, mas algo me parece incrivelmente perturbador. Os mais velhos na minha vida, as minhas avós, avôs e tias eram pessoas diretamente afetadas por estruturas sociais discutidas durante a conferência; o racismo, o neo-colonialismo, os defeitos de museus etnográficos, do capitalismo e do legado da escravidão. O desequilíbrio de poderes nestes termos afeta suas vidas diárias, mas se eles houvessem escutado as discussões que foram tidas durante a conferência, eles não teriam entendido nada.

Não por causa de uma barreira linguística (eles todos falam inglês), mas pelo o discurso usado, tão incrivelmente inacessível e acadêmico. Se pessoas diretamente afetadas e que são as mais marginalizadas pelas instituições das quais nós falamos não podem entender o discurso, qual é o propósito de ponderar e reimaginar realidades diferentes? A não ser que o propósito seja o de mostrar o quanto você é mais intelectual do que a pessoa sentada ao seu lado….
 
As pessoas mais afetadas pelas discussões cobertas nesta conferência; os pobres, negros, indígenas, analfabetos, com deficiências físicas, queer, em situação de rua, que se identificam como mulheres, representam as estatísticas usadas para provar a existência da opressão. Mas se eles são excluídos da organização e recriação de narrativas por causa da academia, então talvez, como acadêmicos, devessem ter discussões sobre como parecer menos uma mercadoria  e mais como um ser humano.

por Tari Ngangura

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