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Atemporalidade
​Um restaurante atemporal

Grupo que reflete sobre o tempo sugere a invenção de um restaurante que visite localidades em todo o mundo.

Nenhum dos laboratórios propostos para trabalhar as ideias surgidas nas desconferências serve ao grupo que discute "atemporalidade, fetiche, supremacia e fluxos". Isso não quer dizer que essas pessoas não tenham interesse em escrita criativa, experimentação artística, intervenção educacional e ação social. Mas elas decidem por em prática uma espécie de não-submissão simbólica aos modelos do evento, deixando o terreno livre para que outras expressões possam surgir. 
 
O resultado é um restaurante móvel, que atende as comunidades dos lugares por onde passa e valoriza a produção local. Um espaço onde as pessoas cozinhem juntas, circulem e tenham bons momentos. "Achamos que a comida pode ser vista como um componente futurista e que o restaurante trará sempre os conceitos de temporalidade e atemporalidade", sugere Koyo Kouoh, fundadora da RAW Material Company, centro de arte, conhecimento e sociedade em Dakar, no Senegal.  
 
A intenção do grupo, explica a historiadora Sabrina Moura, é produzir algo orgânico e que tenha o potencial de sobreviver à Conferência do Goethe-Institut Salvador, ecoando por mais tempo e em outras esferas. A curadora independente Maria Catarina Duncan situa o grupo como "agentes de experimentação" e o restaurante (ainda sem nome), como um modo de engajamento, que pode viajar oceanos e exercitar outras formas de economia e política.  

Viajantes no tempo

Para visualizar esse restaurante com mais clareza - e talvez até imaginar alguns de seus cardápios - é preciso fazer uma breve viagem ao passado, quando este grupo se encontra pela primeira vez, determinado a desempacotar a noção de temporalidade e a fraturá-la, como indica a performer e professora Ayesha Hameed. "Eu sou um viajante no tempo", brinca o músico e compositor Neo Muyanga, ao acomodar-se ao lado Hameed na mesa das discussões. 
 
Um dos primeiros pensamentos do grupo ao falar de atemporalidade é o de fugir da armadilha de olhar para a África apenas pelo viés da colonização. "Porque esse olhar não nos fornece uma compreesão múltipla, artística, social e política", observa Koyo Kouoh. Também é preciso desafiar a vitimização, ela diz, para desconstruir conceitos temporais. 
 
Esses conceitos estão ligados à noção de trabalho, "de fazer corpos movimentarem forças econômicas", ilustra o filósofo Amilcar Packer. Há um aspecto não-linear ao tratar de atemporalidade, pontua o escritor Patrick Mudekereza. Segundo ele, a história não é uma sucessão de datas, um período após o outro em que se pode, no caso da África, conectar escravidão e colonização: "O tempo é um processo que nunca acaba".
 
Também é preciso pensar que a era colonial representa apenas um frame na história da África, comparado a todo o período anterior a isso, em que o continente produziu cultura, riqueza e tecnologia, pondera a diretora do Ipeafro, Elisa Nascimento. Há um espírito circular que conecta terra e vida, por isso a ideia de um museu etnográfico, apresentada na palestra de Nanette Snoep, carrega uma violência. "Esses objetos, preservados ali sem contexto ou história, precisariam morrer, porque na verdade eles são sujeitos e a morte faz parte do ciclo da vida", provoca.

Colonização X colonialidade

Para além da escravidão, deve-se observar essa exploração no seu aspecto econômico, lembra Koyo Kouoh. "Pessoas foram comercializadas". No grupo, discutiu-se muito a diferença entre colonização e colonialidade por esse aspecto da produção econômica. "Por que estamos no Icba e não no Instituto da Nigéria falando sobre tudo isso?", questiona Amilcar Packer.
 
A editora Anna Jäger recupera outros temas dessa desconferência refletindo a ideia do progresso como uma fetichização do tempo. "O passado não é tão passado assim, especialmente se considerarmos que tantas partes da história foram silenciadas", pondera e acrescenta: "Vivemos um momento perigoso de não conseguir imaginar como será nosso futuro". 
 
Há um passado no futuro, defende Koyo Kouoh. "O futuro não pode ser Wakanda", provoca, referindo-se à nação africana inventada nas histórias em quadrinhos da Marvel e adaptada recentemente para o cinema, no filme Pantera Negra. O performer Jota Mombaça sugere quebrar a linha do tempo, recuperando uma ideia comum na América Central, de que o futuro é o que está lá atrás. "Precisamos nos mover em outros sistemas".  
 
Participaram das discussões: Anna Jäger, Ayesha Hameed, Amilcar Packer, Diane Lima, Elisa Nascimento, Jota Mombaça, Julia Grosse, Maria Catarina Duncan, Ute Fendler, Sabrina Moura, Yolanda Chois, Patrick Mudekereza e Neo Muyanga.
 

Por Carla Bittencourt

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