Acesso rápido:
Ir diretamente ao contéudo (Alt 1)Ir diretamente à navegação secundária (Alt 3)Ir diretamente à navegação principal (Alt 2)

Resultados
QUEM TEM O PODER?

Akinbode
© Akinbode Akinbiyi

A parte mais profunda das declarações de fechamento durante a conferência Ecos do Atlântico Sul é a conversa franca sobre autoria, autoridade e propriedade.
 

Nas repercussões das mortes recentes da vereadora e ativista brasileira Marielle Franco e a combatente pela liberdade e política sul africana Winnie Mandela, a ideia de uma “biografia" sobre as duas mulheres é sugerida. Uma biografia que ilustrasse as diferenças delas enquanto também prestasse atenção à interconexão de suas realidades como mulheres negras que estavam profundamente apaixonadas por sua negritude, e com aquela dos seus povos. Como mulheres que tocaram a linha entre o invisível e o hiper-visível, e que tiveram a realidade compartilhada de uma constante vigilância do Estado, assim como uma constante negligência do mesmo.

“Eu gostaria de saber o que te fez decidir que você tem autoridade para escrever essa biografia? Quero dizer, a Winnie acabou de morrer. Eu ainda estou de luto. O que te dá a autoridade de contar essa história?”, pergunta Ntone Edjabe, músico sul-africano. Palmas irrompem desde o outro lado da sala, e dá para sentir uma mudança no humor, evocando o primeiro momento genuíno durante esta conferência de três dias, que é uma conversa sobre os cruzamentos entre poder e privilégio (mesmo dentro de círculos com acadêmicos de boas intenções) que suscita respostas não atoladas de pedagogias sem sentido.

Um desvio de réplica segue sem nenhuma resposta clara, exceto em dizer que reações tão passionais são parte da razão pelas quais ideias (como escrever biografias) deveriam acontecer. Um membro da audiência levanta o ponto de que talvez isso seja uma questão de tempo, com a morte de ambas as mulheres sendo tão recente, não deixando tempo suficiente para um devido luto. Ntone esclarece: “Isso não é sobre tempo. Sim, é um problema, mas sobre autoridade.”

Por fim, enquanto esse grupo de intelectuais se engaja em um compartilhamento de respostas para lá e para cá, a questão continua no ar; muito presente, porém não respondida, porque como se diz a um grupo de intelectuais de boas intenções que até as melhores instituições podem te levar direto ao inferno? Quando se trata de biografias, a lente normalmente está focada em duas coisas óbvias: o escritor e o sujeito. O escritor é qualificado o suficiente para contar a história? O sujeito é merecedor de arquivamento? Em tempos recentes, a conversa toma mais camadas. Dezoito anos atrás, o falecido ícone musical Prince recusou-se a ser entrevistado para uma publicação popular mainstream até eles encontrarem uma escritora mulher negra. Como um artista fortemente investido em oferecer oportunidades e visibilidade aos mais marginalizados da sociedade, essa era a maneira de Prince tentar de alguma maneira “equilibrar as balanças”. É um segredo em aberto (naquela época e hoje em dia) que a indústria midiática é um “country club" dominado por homens hétero e brancos, então Prince fez a escolha internacional de dar a uma mulher negra a autoridade de contar sua história.

Para retornar à escrita de biografias, especialmente em contar a história de Winnie Mandela, a questão da autoridade é determinada, e não complicada, pelas camadas da identidade de Winnie Mandela. Ela foi uma figura pública, com uma missão de vida pública que implicava a liberação e autonomia de negros africanos do regime colonial. Sua história carrega a política da negritude, da identidade africana, da condição feminina, do anti-imperialismo e da brutalidade policial. O que costuma acontecer quando tais figuras são endeusadas ou etiquetadas em termos como “herói" ou “figura controversa” é que suas vidas são “pintadas de branco” para serem mais palatáveis para a experiência de opressão universal, como vista pelo olhar branco.

Não é nenhuma surpresa que a presença de um homem branco em uma instituição branca, aparentemente reivindicando a história de Winnie Mandela, tenha levantado pontos de dúvida e de desconforto. A verdadeira surpresa é que vários não tenham conseguido enxergar o real problema de autoridade, escolhendo, em vez de ressaltar a necessidade de uma narrativa coletiva como maneira de fomentar diferentes perspectivas—negligenciando completamente o fato de que, às vezes, certas perspectivas podem e precisam ser deixadas de fora da conversa. Como uma negra africana eu mesma, eu conseguiria viver sem ter um europeu recontando a história de Winnie Mandela.

Por que? 

Por que quando se trata de sua vida negra, africana, de mulher, essa perspectiva não importa tanto? Quando acadêmicos podem chegar ao ponto no qual eles percebem que o acesso à todas as histórias e experiências não é um direito, mas que algumas coisas precisam ser vistas pelas suas especificidades, então talvez o campo possa ser menos um ciclo de ideias intermináveis e mais um entendimento do verdadeiro impacto do privilégio e do poder na sociedade.

Por Tari Ngangura

LEIA MAIS ARTIGOS

Top