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Performance
A sonoridade de vozes silenciadas

Performance de Carol Barreto
© Taylla de Paula

As temáticas que nascem de povos classificados como “minorias” por uma história editada e eurocêntrica, como aquelas de matrizes africanas e indígenas, evidenciam  tensões sociais, raciais e o preconceito.
 

Os trabalhos performáticos da segunda noite da conferência materializam a complexidade de pessoas com histórias de vidas pulsantes e plurais.  

O PERTENCIMENTO DE ROUPAS E MÚSICAS

Uma mulher negra, vestida de branco, parada no meio do pátio do Goethe-Institut, desperta a curiosidade do público. O início da performance “Coleção Asè”, da artista-ativista e designer de moda Carol Barreto, gera curiosidade e inquietação. A performer Val Souza (Instituto Sacatar), usa trajes rendados que remetem às vestimentas de religiões afro-brasileiras, além de tranças que cruzam seu rosto, compondo uma espécie de máscara.

Passeando pelos corredores da galeria, ela conduz o grupo para dentro do teatro. Num ambiente escuro, uma luz quadrada foca um par de chinelos brancos de pano, enquanto uma projeção de fotos editoriais passa ao fundo de atabaques e outros instrumentos percussivos. Problematizando o lugar da aparência e das roupas no processo histórico e na constituição das subjetividades negras, Barreto lê trechos do livro “Um Defeito de Cor”, da escritora Ana Maria Gonçalves.

No detalhamento das “roupas que a sinhá comprou para Antônia”, o texto fala de colares e pulseiras de ouro, além de “um bonito pano da costa jogado no ombro direito” da escrava. Enquanto isso, Val continua seu trajeto pelo teatro até calçar os sapatos e, então, passar o protagonismo da cena para a banda. Os músicos Laila Rosa e Iuri Passos, ao lado das percussionistas do Grupo Rum-Alagbé-Terreiro do Gantois, misturam sonoridades afro-brasileiras com a musicalidade do violino.

Os sons ecoam pelo teatro e provocam aquele lugar, enquanto imagens editoriais de mulheres negras continuam projetadas em um telão ao fundo do palco, saudadas em cada batida. Barreto lembra que há dois anos a “Coleção Asè” gera debates raciais e sociais, que perpassam a ideia da aparência.

Derramam o sangue do nosso povo 

“Quando andamos na terra, estamos pisando no corpo de uma mulher”. A frase da indígena Guarani Sandra Benites, presente no vídeo que inicia a performance “Tupi-Valongo– Cemitério dos Pretos Novos e Velhos Índios”, de Anita Ekman, oferece pistas da abordagem artístico-cultural da paulista. Ao sair de um grande cesto de palha Guarani, Ekman passeia com um rolo-carimbo pelo próprio rosto, seios, pernas, braços.

Símbolos e desenhos da artista são revelados num corpo agora coberto de sentidos. “Os europeus disseram que estávamos nuas, mas nossos corpos estavam vestidos de pinturas”, declara uma voz feminina em off. As imagens do Parque Nacional Serra da Capivara (Piauí), projetadas ao fundo, são ritmadas por um canto da etnia Pankararu cantado por Lidia Pankararu e criam um ambiente de imersão na plateia. Essa mesma voz questiona, a partir de fatos históricos, o lugar da mulher indígena na história e nos violentos processos de colonização que marcaram a América Latina e, nesse caso específico, o Brasil.

“Setenta por cento da população trazida nos tumbeiros eram homens. Fomos nós, as mulheres, que escondemos eles nas nossas matas quando precisaram de abrigo”, continua a voz em off. Com a participação do ator Hugo Germano, novas inquietações são evidenciadas. Numa dinâmica teatral, o público é informado que 30 mil jovens negros e pobres foram assassinados por ano nos últimos dois anos no território brasileiro. Está posto, então, o paralelo com o Cais do Valongo, porto do Rio de Janeiro onde desembarcaram dois milhões de africanos, violentamente escravizados. O lugar, maior porta de entrada de seres humanos em situação de escravidão no País, tornou-se símbolo da violência contra a humanidade.

Nesse contexto, a memória da vereadora Marielle Franco é acionada. Brutalmente assassinada na capital carioca, o crime contra Marielle permanece sem solução. Ao exibir o último depoimento dela na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, quando ressalta seu lugar como mulher eleita na política brasileira, a potência da performance expande limites do aqui-agora, dialogando com o passado e colocando as interrogações da vereadora no futuro: “Nós, mulheres, somos violadas e violentadas há muito tempo, em muitos momentos”.

por Luis Fernando Lisboa

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