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Entrevista
“O Atlântico sul não é um passado da Europa"

Crisanto Barros
© Taylla de Paula

Para Sociólogo Crisanto Barros, a democracia mundial deve ser repensada a partir de uma perspectiva africana.

Presente na mesa de encerramento dessa conferência, na Reitoria da Universidade Federal da Bahia, o professor da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV/Praia) fala do deslocamento do capitalismo do Atlântico para o pacífico e suas implicações nas práticas liberal-democráticas com o enfraquecimento dos ideais de esquerda.

Carla: O senhor sugere deslocar a análise da democracia, pensando não só a si mesma, mas observando a economia e a política. O que muda com essa outra perspectiva?

Crisanto: Nas últimas décadas, houve uma virada na análise do poder político pelo poder, de ver o campo político como se ele fosse autônomo. O movimento agora é o de retomar uma discussão feita no século 20, de que o poder político está condicionado a outras influências, que podem ser religiosas, culturais e que se politizam também. Eu quis trazer um pouco a discussão da economia política a partir desses processos de deslocamento. De um capitalismo que vicejou no Atlântico e de seu deslocamento para o Pacífico. Quais as implicações, quais as tensões que isso gera? Por exemplo, ao norte, você vê o caso dos Estados Unidos e mesmo ao sul, em países como o Brasil, essas tensões precisam ser compreendidas, não apenas na lógica interna da política, mas de um conjunto de elementos que condicionam movimentos políticos e que colocam a questão do trabalho e do emprego, do sistema produtivo. Esses aspectos têm que ser considerados e como os países reagem a eles, olhando para isso em longa duração.

Carla: Esse contexto relaciona a democracia ao capitalismo parasitário que o senhor citou?

Crisanto: Sim. O capitalismo se expandiu a partir de mecanismos de escravidão, de colonização e de exploração de recursos. Na verdade, toda a composição do Estado no ocidente se dá em cima de mecanismos de acumulação. A ordem que temos hoje não é a mesma que tivemos no século 19 nem no século 20. Esses mecanismos já não são tão fáceis assim. Os Estados Unidos não ditam regras para a China, para a Rússia nem para o Brasil como ditavam antes. O que aconteceu nas últimas décadas é uma economia baseada nas finanças, é o dinheiro gerando dinheiro sem processo produtivo. Eu me reportei a essa expressão de Bauman [o filósofo polonês Zygmunt Bauman, que viveu entre 1925-2017] para mostrar que a saída que o Ocidente encontrou foi aplicar essas regras a si próprio e assim criou um mecanismo, uma bolha de crédito, acumulando capital para compensar perdas, parasitando a si mesma. Esse mecanismo entrou em crise em 2008, com os EUA, e contagiou a Europa, a América Latina, a África. A situação da Grécia, por exemplo, é quase uma "bancocracia", em que os bancos decidem: se tem dinheiro, tem voz. Isso implicou no que eles chamam eufemisticamente de "flexibilização do trabalho", mas é a pauperização da classe média e a precarização dos jovens no mercado, o que por sua vez gera um quadro de grande insegurança.

Carla: Para o senhor, o fato de o capitalismo se tornar autorreferente e de utopias alternativas terem se enfraquecido resultou em uma guinada política à direita. Que outras consequências destacaria?

Crisanto: Eu lembro que, em 1989, quando caiu o muro de Berlim, estava todo mundo eufórico, achando que a expansão do mercado iria criar um paraíso na Europa e nos EUA, em particular, e no mundo em geral. Não foi bem assim. O avanço dos direitos sociais na Europa resulta um pouco da função fantasma do comunismo. O capitalismo se domesticou porque tinha medo de uma alternativa à esquerda. Uma das grandes contribuições de Hobsbawn [o historiador britânico Eric Hobsbawn, que viveu entre 1917- 2012] e Galbraith [o economista norte-americano John Kenneth Galbraith, que viveu entre 1908 e 2006] é terem demonstrado que a existência de alternativas ideológicas ao liberalismo e ao capitalismo, nos séculos 19 e 20, provocaram a sua domesticação. E que essa foi uma condição necessária para que a democracia fosse mais generosa, permitindo a expansão dos direitos sociais. Com o enfraquecimento dos diversos ideários à esquerda, esse proletariado diverso e precário se mobiliza não só em termos de luta de classes, mas também em termos outras oposições, tais como brancos/negros, cristãos/muçulmanos e nacionais/emigrantes. É o retorno do discurso nacionalista em seu pior, a França para os franceses, a Inglaterra para ingleses.  

Crisanto Barros © Tayilla de Paula

Carla: E aí que se encaixa sua ideia, de que a Europa se tornou duplamente uma sociedade de refugiados?

Crisanto: Sim. A Europa se refugia para evitar o contato e que está diante de uma crise de mitos: o mito de nação e o mito de raça. É a dificuldade em lidar com esses mitos que faz com que eles se refugiem dos seus pesadelos. Porque é uma sociedade que se fundou com base na ideia de que há um ser, o europeu, e outros seres, que seriam inferiores. Toda a cosmologia europeia se constitui nessa ideia que tem o europeu como se fosse um ponto zero e como se fosse incolor. É um processo de humanização e desumanização e a Europa se encontra ameaçada. As pessoas que vão à Europa não são refugiados, são pessoas que procuram vários ideais, sejam religiosos, culturais, econômicos. Na verdade, os europeus é que se refugiam em seus interiores, com mecanismos de separação e segregação. A França, país de egalité, fraternité e liberté, é o país se guetizou, que juntou nas periferias os pretos, pobres e árabes, que desenvolveu fronteiras e mecanismos de controle, vigilância, separação. Essa Europa é cada vez mais uma província, que se autorreferencia e não vê o mundo que passa ao lado.  

Carla: Para o senhor, a África não deve pensar a si mesma como um passado da Europa. Pode nos falar mais sobre isso?

Crisanto: Tomando um pouco o texto do Achille Mbembe [filósofo camaronês], ele falou que a Europa foi uma farmácia do mundo, no sentido de que projetou essa ideia de humanismo. Ao mesmo tempo, recusou esse humanismo, tornando-se, a meu ver, cada vez mais um hospital. Hoje, não há uma só farmácia no mundo, existem várias alternativas, várias epistemes. Quando a Europa vai procurar o seu mito fundador na Grécia, os gregos vão dizer que foi o Egito. Quando eles chegaram ao Egito, vão descobrir eram os negros africanos que construído aquilo. O Atlântico sul não é um passado da Europa. A África, como a América do sul, pode construir suas trajetórias olhando para o norte, mas sem a pretensão de um mimetismo.

Carla: Achille Mbembe fala na importância de reinventar a condição humana. Como isso seria possível sem que parecesse utópico?

Crisanto: O mundo foi sempre um mundo de muita mobilidade de pessoas, bens e capital. O que ele está dizendo é eu ser homem, não é uma questão de nascença, origem e raça, mas de trajetória, circulação e de transfiguração. Ele critica muito a ideia de um africanismo que vai reportar a esse essencialismo do negro. Mbembe mostra essa possibilidade de ir à África e ver que ela circulou, encontrar ali o hibridismo. Essa capacidade de contato permanente é que dá a possibilidade de transfigurar-se. Eu venho de Cabo Verde, que é um país de diáspora muito forte, aberto a múltiplas influências.

por Carla Bittencourt

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