Sebastian Schoepp em entrevista Arriscando ser mais como o Sul?

Sebastian Schoepp
Sebastian Schoepp | © Sebastian Schoepp

Quando os alemães ou outros habitantes do Norte da Europa falam em Sul, eles normalmente estão se referindo ao Sul da Europa. E vislumbram sobretudo a crise que assola esta região. Esse reducionismo de pensamento aos mercados financeiros dificulta entender o que o Norte pode de fato aprender com o Sul.

Como jornalista especializado em política externa do jornal “Süddeutsche Zeitung”, você escreveu durante anos sobre a crise do Sul. Em seu novo livro, você convida as pessoas a aprenderem com o Sul. Como isso é possível?

A princípio o importante para mim foi questionar os clichês. Eu simplesmente tentei relativizar a imagem ruim e pejorativa do habitante preguiçoso do Sul, que só fica deitado em sua rede. Isso nunca teve a ver com a realidade, nem no passado. A vida no Sul nunca foi fácil. A agricultura em terreno árido, o mar de pouca abundância – tudo isso é parte de um ambiente que exige e não de um que convida a não fazer nada.

Qual é sua opinião sobre o Sul?

Acredito que os diferentes países do Sul desenvolveram-se de uma maneira que apresenta paralelos. Isso pode ser explicado em função dos efeitos econômicos, mas não apenas deles. Eu quis saber o que estar por trás disso. Nos países do Sul, as redes familiares são muito mais sólidas do que nas nossas latitudes, por exemplo. E essa organização familiar é uma característica que pode ser avaliada como positiva.

Estruturas sociais familiares podem significar oportunidade

Mas o familismo tem desvantagens extremas, não tem?

É claro. Ele quase não possibilita transparência nos processos e tende à corrupção, levando ao nepotismo e em sua forma extrema até ao crime organizado. Para mim só foi importante apontar que poderia ser interessante não ver apenas o lado negativo. Uma família unida é também algo que em tempos de crise dá uma certa segurança e estabilidade. Nós vemos isso hoje em dia: na minha opinião, só não acontecem insurreições no Sul da Europa porque o sistema familiar funciona tão bem lá e evita efeitos mais devastadores da crise.

E nosso individualismo “nórdico” não funciona mais?

Ele funciona enquanto podemos contar com o Estado. Mas me parece que podemos contar cada vez menos com ele. O Estado do bem-estar social é infelizmente um modelo em extinção – acredito que precisamos aceitar isso, seja de bom grado ou não. Penso que nesta situação pode ser útil resgatar a função protetora das famílias, como é o caso no Sul da Europa, por exemplo. Isso você pode perceber quando conversa com jovens espanhóis, gregos ou italianos. A ligação familiar é para eles um porto seguro, de tal forma que eles adquirem confiança em si mesmos. Saber que você pertence a um lugar, no qual será acolhido de qualquer forma, dá uma estabilidade enorme às pessoas, entre outros quando elas se mudam para o exterior.

Cultura de protesto na América Latina

Quando você fala a respeito do Sul, não está se referindo somente ao Sul da Europa. Você observa também há anos o contexto na América Latina. Como você avalia a situação lá neste momento?

Há quem diga que, diante dos acontecimentos recentes, como por exemplo no Brasil, seja possível que tenhamos esperado demais desses países. Sendo assim, nossas esperanças de que esses países saiam de fato fortalecidos de suas crises econômicas seriam injustificadas. Tenho uma opinião totalmente diferente. Tomemos o Brasil como exemplo. Até há poucos anos, era completamente impensável que naquele país que talvez seja o mais entusiasmado pelo futebol no mundo, acontecessem protestos tão veementes contra a construção de estádios dos quais se tinha tanto orgulho até pouco tempo atrás. Essa cultura do protesto foi realmente surpreendente.

Em que sentido?

Sabemos que a América Latina estabilizou-se absurdamente na primeira década do século 21, tendo se desenvolvido muito. A pobreza diminuiu de maneira significante e uma nova classe média foi sendo gradualmente formada. Essa classe tem agora evidentemente o poder de questionar coisas que eram tidas como imutáveis, de questionar a ideia de que a sociedade brasileira pode ser alimentada, digamos, com futebol. Para mim esse é um sinal de amadurecimento. As pessoas alcançaram um certo amadurecimento democrático. Isso as leva a reivindicar com mais precisão.

Reivindicar o quê?

Um exemplo é a exigência de combate à corrupção, que até então era endêmica, ou seja, muito presente nessas sociedades. Pudemos observar isso também nos protestos na Turquia, onde também uma classe média, muito parecida com a nossa – no comportamento, no uso das mídias eletrônicas, na defesa de direitos que são importantes para nós também –, foi às ruas protestar. O mesmo a dizer da Espanha. Temos aqui a ver com formas de amadurecimento que se originam da crise. Há uma grande conscientização no que diz respeito à questão: como queremos viver?

Aprendendo com o Sul

Agora poderíamos dizer que, no Norte, já introjetamos esses valores. Ou seja, o Sul está aqui aprendendo de novo com o Norte? Ou não?

Sim, mas seria uma crença errônea pensar que não temos mais que defender esses valores. Nós também temos a ver com bolhas imobiliárias em nossas cidades. Mas nossa disposição em defender esses valores tem se mantido muito branda. Chiamos, mas aceitamos muita coisa. Em Barcelona, por exemplo, bairros inteiros vão às ruas protestar contra a turistificação da vizinhança. Acho que poderíamos aprender um pouco com o espírito de revolta do Sul da Europa.

O que mais a Alemanha poderia aprender com o Sul?

Acredito que o mais importante que o Sul pode nos ensinar é reconhecer que, ao contrário do que pensamos, há outras alternativas ao “nosso” princípio de austeridade, ao nosso anseio pelo individualismo e ao nosso liberalismo econômico. Essa é apenas uma posição política entre tantas outras. E é nessa constatação que está uma grande chance. Uma chance que vamos infelizmente perder se continuarmos nos comportando como se o Sul fosse burro demais para compreender princípios econômicos – princípios esses sob os quais nós mesmos sofremos cada vez mais.