Geopolítica da arte O lugar do Sul na cena mundial

If You Don't Know What the South Is, It's Simply Because You Are From the North, Runo Lagomarsino (versão para poster), 2009
If You Don't Know What the South Is, It's Simply Because You Are From the North, Runo Lagomarsino (versão para poster), 2009 | Cortesia do artista, Mendes Wood DM, São Paulo e Nils Staerk, Copenhage

Fruto da necessidade econômica de um mercado saturado no Hemisfério Norte ou resultado de um interesse real pelo genuíno, a arte do Sul vem ocupando cada vez mais espaço na cena internacional. Mas até que ponto essa inserção em um curcuito hegemônico significa de fato autonomia e independência?

A partir dos anos 1980, no bojo dos estudos multiculturalistas e pós-colonialistas, assistimos a uma revisão da história da arte, na qual foi iniciado um processo de reescrita de narrativas incorporando atores antes eclipsados, ou seja, aqueles provenientes do chamado mundo periférico – Ásia, África e América Latina. A mostra Les magiciens de la terre (realizada em 1989, no Centro Georges Pompidou, em Paris), ao abrigar artistas de fora do eixo hegemônico Europa-Estados Unidos, tornou-se um marco dessa revisão histórica, política e crítica, que iria se adensar ano após ano.

Essa nova conformação geopolítica da arte, que passa a incluir a produção de regiões que viviam, e vivem ainda em alguma medida, às margens, se dá por um genuíno empenho teórico reflexivo por um lado, mas também, por outro lado, pela necessidade de um mercado saturado de ampliar seus dividendos em outras latitudes.

Singularidade brasileira

Olhando com atenção o caso brasileiro, iremos nos deparar com um debate instigante. Se no que toca a cultura num âmbito alargado, os clichês samba e futebol ainda reinam, no registro da arte contemporânea nos sentimos “quase europeus”. E por que isso? Entre outros fatores, porque o Modernismo brasileiro teve sua formação calcada em uma forte influência europeia. E ainda, quando se fala de artes visuais, sempre fomos, para o bem e para o mal, mais europeus e formalistas do que nossos vizinhos latinos.

No entanto, se por um lado a Modernidade brasileira bebeu e muito em fontes europeias, isso não quer dizer que passamos a mimetizar tal cartilha. O que existe desde então, e até hoje pode ser lido como um traço “original” em nossa produção, é justamente essa deglutição de referências do chamado Norte (ou Ocidente) e a colocação no mundo de algo diverso: trata-se da famosa antropofagia brasileira.

Periferias internas

Entretanto, de alguma maneira, dentro do Brasil existe ainda um autismo muito grande quanto às próprias periferias internas. Em um país de dimensões continentais, o Norte brasileiro é o nosso Sul interno, enquanto Rio e São Paulo seriam o Norte dentro do Brasil. Entendendo tais latitudes como parâmetros de relações de poder e hegemonia.

Se falamos que desde a década de 1980 assistimos a uma revisão histórica no campo da arte, o Brasil em poucos momentos contribuiu ativamente para essa revisão. Talvez ainda sequer conheçamos a totalidade de que somos parte no que toca a cartografia interna brasileira. A produção artística da Amazônia, por exemplo, ainda é uma cena insipidamente conhecida. Somente nos últimos anos chegaram ao eixo Rio-São Paulo conteúdos maiores daquela região e mais e mais realizam-se viagens e debates lá mesmo.

Construção das próprias narrativas

Mas a despeito desse autismo interno, o Brasil se tornou sem dúvida um caso de sucesso na arte ao longo dos últimos 20 anos. E passou a ser uma espécie de label apresentado como case de sucesso: nação emergente que chegou a ser capa da revista The Economist com o título Brazil takes off (O Brasil decola). Uma nação que faz parte dos BRICs e um país cuja produção artística contemporânea tem forte inserção internacional.

Ou seja, as artes visuais surfaram bem essa onda. Hélio Oiticica e Lygia Clark tornam-se referências para artistas e curadores em todo o mundo, com mostras na Tate londrina e no MoMA de Nova York. Um nome como o de Lina Bo Bardi passou a fazer parte de curadorias e textos de grandes nomes do Norte/Ocidente. Mas a pergunta que paira é: essa inserção em um circuito hegemônico significa que estamos ocupando de fato um lugar mais ativo e independente na cena artística mundial?

Tendo a achar que não. Por mais antropofágicos que sejamos, acabamos sendo por vezes somente canibalizados. Oiticica, Clark, Oscar Niemeyer e Bo Bardi são algumas das mais conhecidas commodities da arte brasileira que estão em jogo em obras, textos e curadorias mundo afora atualmente. Claro que muitas vezes de forma rigorosa, séria, fruto de pesquisas aprofundadas, mas também em outras de maneira míope, com uma superficialidade a respeito da história da arte brasileira, da sua produção e do seu circuito.

O que está em jogo, de fato, é a capacidade do Sul de construir suas próprias narrativas, e não deixar que as contruam por nós. Não temos respostas prontas, mas está claro que, mais do que nunca, é necessária uma postura crítica, de constante questionamento, que indague o lugar do Sul na cena mundial, desconfiando de sua ascensão e olhando antes para dentro do que para fora. O Sul do Sul ainda está por ser descoberto.