Pós-racial Novas formas de articulação em debate

Pós-racial
Pós-racial | Foto: Pressefoto

Workshop realizado em São Paulo reuniu especialistas de três países (Brasil, África do Sul e EUA) em discussões sobre a percepção do racismo e as fissuras provocadas por ele em cada uma destas sociedades. 

Quando Barack Obama foi eleito presidente, em 2008, começou a se espalhar pelos Estados Unidos uma espécie de slogan que, segundo alguns políticos e ativistas de lá, representava a inauguração de uma nova era concomitante à tomada de posse do primeiro presidente negro da história do país: a post racial America (uma nação pós-racial).

O termo, ainda estranho para a maioria dos brasileiros, refere-se a “uma sociedade ou período de tempo, em que discussões sobre raça deixam de ser consideradas relevantes para a dinâmica social em curso”. Para os defensores desta teoria, os jovens norte-americanos das gerações conhecidas como millennials e Z – nascidos a partir dos anos 1980 – já estariam crescendo em uma sociedade “que não enxerga cores” (colorblind), no sentido das distinções étnicas.

Em 24 de fevereiro deste ano, porém, o New York Times publicou em seu site o artigo Colorblind notion aside, colleges grapple with racial tension (Ignorando o pressuposto de que não se dá atenção à cor da pele, escolas superiores se deparam com a tensão racial), no qual a colunista Tanzina Vega apontava o recente aumento da percepção das diferenças raciais em universidades dos Estados Unidos. A tese é alvo de críticas.

O conceito de pós-racial

Para David Theo Goldbergh, diretor do Instituto de Pesquisas em Humanidades da Universidade da Califórnia e especialista em questões raciais, nenhuma sociedade hoje pode afirmar ter superado o racismo e a diferença racial. “O pós-racial é a articulação contemporânea do racismo. Nesse sentido, o pós-racial é para a história da raça o que o pós-colonial é para a história do colonialismo – seu modo contemporâneo de articulação”, compara.

Em janeiro deste ano, Goldbergh e outros 18 pesquisadores brasileiros e sul-africanos se reuniram em São Paulo durante o workshop Summer Conversations, organizado pelo Goethe-Institut para expor e discutir os diferentes panoramas sócio-raciais envolvendo três países (Brasil, EUA e África do Sul). São diferenças que chegam a soar como abismos, tamanha a distância entre o foco do debate nas três arestas deste triângulo.

Para ficar apenas num exemplo: enquanto a Comissão de Direitos Humanos do Senado brasileiro acaba de aprovar a cota de 20% para negros ou pardos em cargos da administração federal, a Suprema Corte dos Estados Unidos se prepara para regulamentar a Proposição 2, votada em 2006 pela população do estado do Michigan, que proíbe ações baseadas em raça e etnicidade como critério para admissão em instituições públicas. As cotas, implementadas no país em 1961, são hoje consideradas ilegais.

Diálogo Sul-Sul

Numa escala simplificada de avanços e atrasos com base nesse tipo de ação, a África do Sul representaria um meio-termo: distante da inauguração das políticas afirmativas (o sistema de cotas existe no país há décadas como medida para minimizar os efeitos do apartheid), mas ainda revendo suas consequências e analisando caso a caso sua extinção. Em alguns esportes, a reserva de vagas havia sido abolida em 2006, mas deve entrar novamente em vigor esse ano. Além disso, o país passou por uma revolução política que possibilitou a emergência de um governo democrático, há 20 anos, e a eleição de um presidente negro, embora o sistema econômico conserve as mesmas bases do regime do apartheid, como a remuneração dos trabalhadores chegando a ser seis vezes maior entre a população branca.

Para a antropóloga Kelly Gillespie, do Departamento de Antropologia da Universidade de Witwatersrand na África do Sul, que também participou do debate em São Paulo, o diálogo com o Brasil e com a América do Sul é importante não apenas porque a história de ambos os países é marcada pela relação entre raça e capitalismo, mas particularmente porque a realidade brasileira é um exemplo de que fechar os olhos para a diferença não faz com que ela desapareça.

“O Brasil é um importante lembrete para o debate na África do Sul de que simplesmente evitando categorias de raça você não cria uma sociedade livre do racismo. De fato, o Brasil é um exemplo pontual de que evitar a categoria racial, fazendo de conta que ela não existe, pode às vezes permitir que o racismo continue com força total sem os termos de sua crítica.”, destaca.

Na opinião da pesquisadora sul-africana, uma das principais dificuldades no diálogo com o Brasil em termos de raça e dinâmica social é a relevância que o país dá hoje às ações afirmativas – também conhecidas como discriminação positiva – colocando as cotas no centro do debate. Já na África do Sul e de forma semelhante nos Estados Unidos, elas permanecem como políticas marginais de correção em um contexto de racismo histórico e profundamente enraizado.

Utopia?

Apesar da crítica à eficácia das ações afirmativas como principal estratégia para reverter a desigualdade racial, uma vez que elas mantêm a dinâmica social atada à lógica da diferenciação, é consenso entre pesquisadores e ativistas que tais medidas são intervenções políticas de grande importância, principalmente em contextos onde a percepção do racismo e das fissuras provocadas por ele na sociedade ainda engatinham, como é o caso do Brasil.

Para o cineasta Joel Zito Araújo, cuja filmografia se concentra sobre o tema do racismo no Brasil, não é possível ignorar as cotas como um movimento natural e necessário, apesar das imperfeições no processo. “Diante da revolta contra sua condição de grupos populacionais excluídos, negros e indígenas lutam por uma reparação histórica e por seus direitos. Hoje, por trás da emergência identitária destes grupos está a busca pelo reconhecimento dos direitos de partilha das riquezas materiais do país, partilha do direito à educação, à terra, à liberdade religiosa”, pontua Araújo.

Se por um lado brasileiros e sul-africanos ainda dependem de políticas afirmativas para promover a inserção e a igualdade social das raças, exemplos não faltam de que o fim de tais ações, e mesmo a eleição de um presidente negro, não bastam para banir definitivamente o racismo de uma sociedade. O ponto comum às três nações representadas na Summer Conversations é o projeto de uma sociedade onde a percepção de raça seja eliminada.

“O mundo pós-racial é uma utopia que todos nós almejamos. O ideal é uma sociedade em que diferenciações raciais ou culturais ligadas a pertencimento étnico deixem de ser reconhecidas socialmente e discriminadas, ” observa a professora da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP, Maria Helena Toledo Machado, especialista em história social da escravidão, abolição e pós-emancipação. Ainda não é possível saber, contudo, o que cada sociedade fará a fim de possibilitar de fato essa transformação.