Debate atual Culturas não-europeias em museu alemão

Humboldt Forum
Humboldt Forum | Foto: Ramón Castillo

Conferência que discutiu representação sul-americana no centro de culturas não europeias Fórum Humboldt, em fase de construção em Berlim, lança bases para maior articulação entre instâncias culturais dentro do Brasil, com a América do Sul e o resto do mundo. 

No final de janeiro, 26 profissionais de diferentes áreas da cultura – antropólogos, sociólogos, historiadores, museólogos, curadores, linguistas – de nove países sul-americanos e da Alemanha se reuniram com designers e projetistas ao longo de dois dias em São Paulo, a fim de debater questões ligadas à representação das culturas sul-americanas. Tão relevante quanto os temas em pauta – entre eles, as diferenças em relação à Europa e de que maneira a porção sul da América é hoje culturalmente representada naquele continente – foi o contato que o encontro promoveu entre gestores e pesquisadores.

Boa parte dos especialistas presentes reconhece a escassez desse tipo de fórum e de outras formas institucionais de intercâmbio, tanto dentro do Brasil quanto entre os países da América do Sul. “Do ponto de vista prático, a reunião resultou em boas ideias para o desenvolvimento de programas e para a construção de contatos, que já resultam em parcerias. Para o Museu dos Direitos Humanos do Mercosul, já retomamos contatos para trabalhos em conjunto”, pontua o diretor do Memorial do Rio Grande do Sul (situdo em Porto Alegre), Márcio Tavares, que participou da conferência.

Em busca de outro discurso

O pano de fundo para o encontro, organizado pelo Goethe-Institut, foi a criação de uma plataforma de trabalho conjunta, que amplie o conceito de cultura e garanta a participação dos diferentes países e regiões no plano museológico do Fórum Humboldt – projeto que, além de um complexo de exposições dedicado às regiões da América, África, Ásia e Oceano Pacífico, a ser inaugurado na região central de Berlim, pretende formar uma rede mundial de especialistas em cultura. “Eu diria que o grande avanço prático da conferência foi sua própria existência. Um projeto como o Fórum Humboldt implica em procurar um outro modo, um outro discurso, e isso implica numa ideia de construção no tempo”, destaca o diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia (localizado em Salvador), Marcelo Rezende, que também participou da reunião.

O Fórum Humboldt é hoje um dos mais ousados e ambiciosos projetos culturais em desenvolvimento no mundo, não apenas do ponto de vista arquitetônico e conceitual – representar a cultura de mais da metade do planeta –, mas também em função das delicadas questões que permeiam a elaboração do seu plano museológico. Entre os pontos centrais da discussão, de acordo com participantes da conferência de janeiro, está a reflexão sobre o olhar que um museu alemão lançará sobre uma vasta gama de culturas e civilizações de fora da Europa. Nas palavras de Rezende: “De que modo pensar estratégias para um museu europeu (alemão), cujo acervo é formado por objetos de culturas não europeias, sem ser vítima das mesmas armadilhas dos discursos pós-coloniais, que têm se mostrado limitados diante das tensas relações entre Europa e civilizações não europeias ao longo da história?”

Em relação à América do Sul, é Ramón Castillo, diretor da Faculdade de Artes da Universidade Diego Portales, em Santiago do Chile, quem aponta a impossibilidade de se representar e de situar no espaço a convivência de lugares, identidades e temporalidades que constituem a cultura, não havendo portanto uma América do Sul, mas uma mistura de suas várias regiões. A partir disso, ele sugere para o Fórum “uma exposição que se desenvolva no tempo por etapas, como um políptico: que a primeira mostra esteja destinada a dar 'voz' à palavra oral e escrita contidas na América Latina. Recordando o poema Alturas de Macchu Picchu, de Pablo Neruda, quando escreve: 'Eu venho falar por vossa boca morta.”

Território desarticulado

Além de trazer a discussão sobre o Fórum Humboldt, o encontro em São Paulo colocou em evidência a atual incipiência das redes culturais existentes entre os países da América Latina e até dentro do próprio Brasil. Ao mesmo tempo, o encontro pode também ser visto como um ponto de partida para novas estratégias. “Existem algumas redes em nível museológico e acadêmico estabelecidas na América Latina, mas definitivamente não tem havido suficiente articulação e força para incidir em novos formatos de investigação, prática e produção de conhecimento”, aponta Castillo.

Entre os fatores que contribuem para a desintegração das instâncias culturais estão as diferenças sociais e econômicas encontradas entre os países, os movimentos históricos e a diferença idiomática. O resultado deste cenário é que a maior parte das redes de contato e intercâmbio não opera de forma sistemática ou por meio de programas efetivos entre instituições, ficando restritas a iniciativas individuais.

“Se poderia então potencializar esse tipo de rede pessoal e institucional, para que, impulsionadas pela convicção e vontade interior, tenham plataformas claras de financiamento e trabalho que facilitem a geração de projetos de residência, intercâmbio e investigação a médio e longo prazo”, sugere Castillo. Neste sentido, ao organizar a conferência, o Goethe-Institut se propôs a ser uma plataforma que coloca em contato diferentes segmentos e instituições culturais, de regiões e países distintos ou mesmo distantes.

Dentro do Brasil também é possível observar um cenário de precariedade, quando não de completa ausência, de sólidas articulações, acreditam os especialistas. O setor museológico, por exemplo, reconhece alguns recentes avanços com a criação de fóruns e o estabelecimento de políticas nacionais para o setor. “É um enorme avanço para o cenário desarticulado e conceitualmente pobre que existia há poucos anos, mas ainda estamos no começo. Em relação à formação de redes, ainda estamos no início de um processo, mas ano a ano vêm surgindo novas instâncias de discussão no país.”, conclui Tavares.