O Sul na literatura O céu às avessas

O mar do sul (1744)
O mar do sul (1744) | Foto: dominio publico

O Sul literário é resultado de uma dialética colonialista, que opõe esclarecidos a selvagens, brancos a negros, civilização à barbárie?

A inferioridade geográfica do Sul é arbitrária: ao observar a Terra redonda, rodando no espaço, não há nada mais relativo que a noção de acima e abaixo. Como já dizia Astor Piazzolla: o Sul, essa “lua imensa, céu às avessas”. No entanto, o Sul, como o conhecemos, vem alimentando a imaginação literária com sua sensualidade e sua barbárie, com suas repúblicas de bananas e seus imperadores de operetas, seus ditadores e suas flechas. Aqueles que buscam uma prova literária de que o Sul talvez seja apenas um grande mal-entendido poderiam quem sabe recorrer ao relato clássico O Eclipse, do guatemalteco Augusto Monterroso. O conto começa com um frade espanhol, que corre risco de vida em plena selva americana, no que parece serem os primórdios do encontro entre dois mundos (o do Norte e o do Sul). No momento de ser sacrificado por uma (supomos) tribo de selvagens, o frade lembra de Aristóteles e apela para todo seu conhecimento ocidental para inventar um truque: como ele sabe que nesse dia haverá um eclipse, ele faz aos nativos uma ameaça de “apagar” o sol se eles o matarem. A cena seguinte é a do coração extirpado do frade nas mãos dos Maias, que recitam tranquilamente todas as datas dos eclipses que estavam por vir, perfeitamente registradas em seus códices. Fim da história.

Assim é, ou foi, a natureza do Sul literário quando imaginado por quem é de fora: em função do desconhecimento, que vê nesse Sul um exotismo e o enxerga a partir da suposta segurança de um Norte “superior”. Em outro relato célebre – desta vez de outro mestre, Jorge Luis Borges – que leva precisamente o título de O Sul, um descendente de alemães atravessa a geografia portenha (“como todo mundo sabe, o Sul começa do outro lado da Avenida Rivadavia”) para adentrar terras de gaúchos e compadritos. E ali é confrontado com o irracional, ao se ver envolvido numa briga praticamente sem razão de ser. São atos de violência sem sentido que balançam o Sul. A guerra dos de baixo. O relato de Borges, com seu final aberto que lembra a planície que circunda a capital argentina, exemplifica novamente o choque constante que definiria o continente frente ao Outro, frente aos outros: o duelo entre a razão e o instinto.

Do lado de cá

Ao contrário dessa dialética de perspectiva colonialista, a literatura do hemisfério Sul não se desenvolveu olhando o Sul, mas sim a partir do Sul. Desde a enraizada tradição oral das narrações dos Mapuches e Incas até a escritura de hieróglifos dos Maias e Astecas, o Sul das Américas narrava a respeito de si mesmo contando com um único destinatário, sua própria memória. Tão artística quanto utilitária, a função do códice e do relato oral era de arquivo e para fins de cerimônia. Foram os outros, os espanhóis, que esboçaram – com as crônicas das Índias e as narrativas sobre a conquista – os primeiros olhares ocidentais sobre esse território misterioso. Depois de acatarem a imposição da língua, como num fluxo de reconquista, os habitantes do Sul aprenderam a domesticá-la, num processo que teve menos de revanche do que de uma exploração genuína de seus limites. Dessa forma, depois da literatura da colônia, todavia dominada pelo Norte, é a poesia do peruano César Vallejo e do chileno Vicente Huidobro a que melhor lida com a língua.

Numa jogada de maestria no uso da linguagem, Huidobro define assim o eixo paradigmático no qual se desenvolverá grande parte de sua obra: “Os quatro pontos cardeais são três: o Sul e o Norte”, como diz o prefácio de seu Altazor. Tem-se aqui uma brevíssima denúncia do vazio de certas categorias, uma ponte absurda para a subversão da língua e o estabelecimento das coordenadas reais com as quais a literatura do Sul americano havia se debatido. Outros autores, como o mexicano Juan Rulfo e o peruano José María Arguedas, exploraram essas brechas (Arguedas, para voltar às coordenadas, escreveu um romance chamado El zorro de arriba y el zorro de abajo) de formas diversas.

O “boom” latino-americano

Foi com o boom da literatura sul-americana, no entanto, que começaram as narrativas do Sul como território mítico, apocalíptico e carnavalesco ao mesmo tempo. E até hoje, queiram ou não queiram, a estirpe macondiana criada por Gabriel García Márquez foi que definiu o sul-americano para o resto do planeta. Uma vertente que foi convenientemente explorada tanto pela crítica literária, quanto por outras disciplinas como o marketing e a publicidade. O outro eixo, mais real que maravilhoso, da literatura do boom é o romance de viés social, que expõe a região como um espaço dominado pela ânsia de poder. As ditaduras do século 20 serviram, neste sentido, como caldo de cultura para estear a ideia de uma espécie de ansiedade coletiva, messiânica e caudilhista, que contribuiu para reconfigurar imaginariamente o Sul. As literaturas posteriores ao boom definiram-se em muitos sentidos pela tentativa de se libertar dessa imagem. A pós-modernidade, com seu receituário pop e seus processos de reciclagem da tradição, é a prova definitiva de que o peso do Sul como conceito está ainda muito presente nas obras dos escritores da região. Afinal de contas, a busca por uma identidade comum parece ter deixado de ser uma prioridade para a literatura do Sul, mas em sua procura cada vez mais pulverizada, parece ecoar ainda a voz do uruguaio Mario Benedetti quando dizia, com uma solenidade hoje longínqua:

“perto das raízes

é onde a memória

nenhuma lembrança omite

e há quem se recuse a morrer

e há quem se esqueça de viver

e assim entre todos se consegue

o que era um impossível

o que era um impossível:

que todo o mundo saiba“ [1]


[1] Trecho do poema “El Sur también existe“ (O Sul também existe)