ARTE Um novo posicionamento do Sul

A Academia Temporária das Artes (PAT), fundada em 2013 em Atenas por Elpida Karaba, propôs-se a tarefa de apresentar aspectos selecionados da arte e da história gregas que se colocam contra a prerrogativa de opinião dominante. A narrativa alternativa quer também reformular aquilo que, como estereótipo da “criatividade da crise”, escapa facilmente dos lábios. Com ajuda das Soft Power Lectures, a PAT reconstrói partes de uma evolução da arte e da cultura que, não fosse isso, passariam despercebidas.

A equipe da Academia Temporária das Artes parte da experiência de que o capital simbólico da Grécia moderna não vem sendo ignorado apenas no país, mas também para além de suas fronteiras. O que aqui soa demasiado teórico, tem, porém, dimensões políticas e práticas muito sólidas.

Sul como sinônimo de impotência

Para Karaba, o Sul não é apenas um conceito geográfico nem a tentativa de polarização, mas sim uma convenção que descreve relações de poder. O Sul, de acordo com a curadora ateniense, representa tudo e todos aos quais cabe a conotação de “baixo” – como por exemplo as mulheres, os menores desacompanhados, pessoas de orientação sexual não normativa.
 
Muitas vezes, os sujeitos do Sul não dispõem de instrumentos adequados ou não participam de contextos institucionais imprescindíveis. Assim, eles acabam sendo facilmente instrumentalizados, entre outros motivos porque, hoje em dia, as condições precárias de vida, sobretudo das novas gerações no Sul, são apresentadas como exóticas, sendo rotuladas de vantajosas em função de sua flexibilidade, espontaneidade, vitalidade e liberdade.

Karaba está convencida de que as narrativas correntes sobre o Sul e seus sujeitos não conseguem estabelecer nem manter um equilíbrio, mas acabam até mesmo polarizando. É exatamente aqui que entram as ações da PAT: elas oferecem instrumentos alternativos de saber e criam um clima de confiança com relação a processos de pensamento e percepção da arte, tendo sempre em vista o enfrentamento das narrativas dominantes de igual para igual. Ao mesmo tempo, a PAT remete a componentes contraditórios, estereotipados e autoritários, que existem em todo lugar – tanto no Sul quanto no Norte.

Para isso, recorre a um método oriundo da diplomacia: o soft power, um conceito que visa influenciar os tomadores de decisão e outros envolvidos sem o uso de meios militares ou econômicos de pressão. Mas a PAT se apropriou desse procedimento também com intenção crítica, pretendendo se contrapor, a seu modo, ao fato de ele ser utilizado convencionalmente com o fim de impor metas hegemônicas.

Aura sagrada contra a banalização

Um exemplo de contranarrativa é o perfil cinematográfico, assinado pelo artista Konstantinos Hatzinikolaou, da performer e artista conceitual Aspa Stassinopoulou, que tem hoje mais de 80 anos de idade. As reações à sua pessoa e seu trabalho são, segundo Karaba, típicas da ignorância frente à versão grega da Modernidade apresentada por uma mulher artista. Ainda que Stassinopoulou tenha feito parte da vanguarda, nunca lhe foi concedida a aura de renovação da arte, como ocorreu com vários de seus colegas de outros países. Pelo contrário, ela está, como muitos artistas do Sul, desproporcionalmente ameaçada pelo ostracismo e pela banalização.

A história oficial da arte e da cultura conhece apenas alguns nomes específicos e ignora outros, que certamente também atuaram na assimilação e transmissão de ideias. O fato de Stassinopoulou, como artista atuante na Grécia, ter tido à sua disposição somente um raio limitado de ação, não implica que suas ações e obras não possam ecoar ou gerar retornos em outros lugares, inclusive no Norte. As pequenas e as grandes dimensões têm seus significados muito próprios e um peso específico. Por isso a PAT, como “parainstituição”, quer escrever diferentes capítulos da história da arte e da cultura, e assim requisitar a participação dos mesmos em uma narrativa mais ampla sobre a arte e os artistas.

Redesenhando as instituições

Em uma fase na qual instituições políticas e sociais estão sendo duramente criticadas em toda a Europa, não é o propósito da PAT contribuir para a dissolução ou para o desmantelamento das mesmas. Pelo contrário, segundo Karaba, o que convém, na verdade, é a reconstrução, o redesenho dessas instituições, a fim de conduzir um processo no qual surjam e sejam organizados novos modelos, concentrações e interseções.

Sem contextos institucionais ou estruturas, continua Karaba, mal se pode enfrentar o neoliberalismo onipresente. Pois, afinal, esse neoliberalismo faz com que a satisfação das necessidades básicas, como por exemplo a saúde e a educação, dependam da vontade filantrópica de poucos privilegiados. Desta forma, de acordo com Karaba, o coletivo acaba por se autodeclarar fracassado.

Com o auxílio de novas táticas e estratégias, é preciso reaver o que a Europa de início tentou e agora notoriamente perdeu de vista: a insistência na “governabilidade”, ou seja, a dirigibilidade do coletivo por instituições capazes de atos regulatórios elementares. A PAT apoia esse processo ao exercitar a si própria e a outros em narrativas educacionais bem como em formas de identidade nacionais e culturais alternativas.
 
Uma missão impossível? Karaba revida e desarma o interlocutor de imediato: “Faço simplesmente aquilo de que estou convencida, sem entender isso como ‘missão’. Acredito em pequenos empurrões e deslocamentos, em mim mesma e nos outros. Talvez assim, nestes tempos difíceis, apareça uma saída para nós. Às vezes penso que considerar as grandes dimensões pode dar vertigens. Aí vou passo a passo, tateando em frente, e fico satisfeita quando algumas portas se abrem. Muitas vezes fico naturalmente decepcionada e tenho medo, embora tenha clareza do quão inoportuno isso é, e então simplesmente continuo”.