Future Perfect Literatura na periferia

Foto: Tânia Caliari

A Cooperativa de Cultura da Periferia começou suas atividades há 14 anos, levando poesia a uma das regiões mais violentas de São Paulo.

Em um cruzamento de ruas do bairro Chácara Santana, um dos mais pobres da zona sul de São Paulo, o bar do Zé Batidão se destaca na paisagem. O lugar salta aos olhos por estar num terreno elevado de esquina e, sobretudo, por ser sede das atividades poéticas da Cooperifa – Cooperativa de Cultura da Periferia. É noite de terça-feira e, desde o final da tarde, o bar começa a se tornar uma espécie de centro cultural, com gente ajustando o som, arrumando decoração, se inscrevendo para declamar poesias e textos. É o “Sarau da Cooperifa”.

A voz grave de Sergio Vaz, poeta e agitador cultural, abre os trabalhos. Ele avisa que, durante as declamações, o silêncio é essencial, e chama o primeiro poeta. Luciana Silva declama um poema sobre chuva e infância. Kennyaata solta uma poesia social ritmada em rap sobre quilombos e cheia de referências à África. Casulo começa narrando futebol de maneira poética e termina com uma mistura de autores consagrados com literatura marginal. São mais de 30 inscritos na noite.

Trabalho de muitos anos

Vendo o sarau fluir entre as mesas, ouvindo o vigor dos poemas, parece que tal iniciativa cultural é coisa simples de se realizar. No entanto, o trabalho da Cooperifa é uma construção de 14 anos, erguido numa das periferias mais pobres, violentas e iletradas de São Paulo. O abandono da escola por alunos do ensino médio chega a 10,5% na região. “Colocamos a poesia e o sarau de novo na pauta de São Paulo e fizemos isso a partir da periferia, de um bar, já que aqui não tinha cinema, teatro ou biblioteca”, diz Sérgio Vaz, que fundou a Cooperifa com um grupo de amigos em Taboão da Serra, cidade da Grande São Paulo, a partir de uma série de eventos com música, pintura, teatro, literatura organizados inicalmente num galpão de fábrica abandonado.

Depois de quatro apresentações, eles foram expulsos do local. “Fomos então para um bar lá em Taboão. Aí percebi que onde tem um microfone aberto, o pessoal acaba chegando para participar”, diz ele. O bar foi vendido e, sem lugar para declamar suas poesias, Vaz se lembrou do boteco que tinha sido de seu pai, na Chácara Santana, agora propriedade do amigo Zé Batidão. Vaz carregou seu projeto para lá e a Cooperifa cresceu. O grupo passou a exibir filmes na laje do bar, o “Cine na Laje”, estabeleceu contatos com escolas onde apresenta seus saraus, criou o projeto “Chuva de Livros”, que busca parceiros para doação de edições, e criou uma Mostra Cultural Anual de grande repercussão.

Contraponto à violência

Em 1996, a Organização das Nações Unidas (ONU) havia considerado o Jardim Angela, bairro vizinho à Chácara Santana, a área urbana mais violenta do mundo, com 98 homicídios por 100 mil habitantes – taxa que chegou a 123 em 2001, mas tem tido nos últimos anos uma queda acentuada, ainda que a região continue de perfil extremamente violento.

O rapper Cocão tem o nome Cooperifa tatuado no braço. “Não consigo nem dizer os progressos que fiz desde que cheguei aqui”, diz o músico que, nos violentos anos 1990 já criava seus raps usando fita cassete e gravador. Seus temas eram os da rua: mortes e gangues. Um amigo avisou sobre o sarau da Cooperifa. “Sarau? Poesia?”, estranhou. Foi conferir. “Fiquei impressionado. Vi que tinha outros assuntos: uns falavam do trabalhador, outros de amor, de sonhos, do cotidiano difícil, e de violência também,”, diz o rapper, que hoje está na linha de frente da Cooperifa, “carregando o piano”. Não parou um segundo antes de o sarau começar, ajustando o som, luz, montando mesas e cadeiras.

Espaço aberto a todos os gostos

Lu Sousa também é liderança da Cooperifa. Professora, poeta, já levou o sarau para presídios e abrigos para menores infratores. “Nesses locais, acredite, as pessoas leem e escrevem muito”, diz ela. “É uma forma de encontrar a liberdade”, completa. “No início, tive vergonha de minha poesia, muito água com açúcar diante dos poemas fortes que falavam aqui. Mas o espaço é tão democrático, que tomei coragem de me apresentar”, diz ela.

Lu Sousa esteve ao lado de Cocão, Sergio Vaz e de outros militantes da Cooperifa em Buenos Aires, para participar da 40ª Feira Internacional do Livro, em abril do ano passado. A Cooperifa participou ainda da Semana de Literatura Marginal em Berlim [Über den (Stadt-)Rand. Woche der Marginalen Literatur in Berlin], evento organizado pelo coletivo Urban Atitude. E o sarau no bar Zé Batidão foi filmado pelo ex-eurodeputado franco-alemão Daniel Cohn-Bendit, líder do movimento estudantil de Maio de 1968, que esteve no Brasil durante a Copa do Mundo do ano passado gravando um documentário sobre o país.

“Temos esse reconhecimento de fora, mas muitas vezes chocamos os acadêmicos e os literatos daqui. Já nos falaram que isso que fazemos não é literatura. Mas não precisamos pedir licença a ninguém para fazer poesia”, avisa Vaz.