"O sagrado é a audácia"

Nesta discussão a respeito do documentário Austerlitz surgem várias perguntas sobre a função dos campos de extermínio e os memoriais nos tempos do turismo de massa.  

 
  • Documental 1 Foto: © Gustavo Correa/Goethe-Institut Buenos Aires
    A cineasta Albertina Carri; a diretora do Museu Espaço da Memória ESMA, Alejandra Naftal; a diretora do Parque da Memória, Nora Hochbaum, e o jornalista Julián Gorodischer.
  • Documental 2 Foto: © Gustavo Correa/Goethe-Institut Buenos Aires
    “Esse filme me remete a dois conceitos fundamentais: o silêncio e o sinistro – pontua uma mulher. As pessoas deste lugar viveram o sinistro, mas não se pode falar dele.”
  • Documental 3 Foto: © Gustavo Correa/Goethe-Institut Buenos Aires
    “Fico preocupada com como ele olha para as pessoas dentro do campo de concentração. Por momentos me pareceu um olhar desrespeitoso sobre o ser humano, como se fossem zumbis, mortos vivos caminhando por ali": Nora Hochbaum.
  • Documental 4 Foto: © Gustavo Correa/Goethe-Institut Buenos Aires
    "Essas pessoas estão a fim de quê? O que fazem com essas fotos? Colocam-nas no Facebook? O que se faz com as fotos tiradas em um campo de concentração? É estranhíssimo… Para que se tira uma foto num campo de concentração?”: Albertina Carri.


“Observar não é julgar”, penso, ao sentir o incômodo que aumenta de minuto a minuto, como se a câmera do cineasta ucraniano Sergei Loznitsa em Austerlitz (Alemanha, 2016) bisbilhotasse calmamente os comportamentos paradoxais das pessoas que visitam o campo de concentração Sachsenhausen, em Oranienburg, a 35 quilômetros de Berlim. Incomoda-me o som “militar” dos passos dos visitantes, que andam com suas garrafinhas de água, com seus telefones celulares, com seus chapéus e óculos escuros para se proteger de um sol onipresente. Há um ruído ambiente perturbador em que se une o burburinho em alemão, inglês, espanhol, em várias línguas; um murmúrio babélico que se mistura com o canto dos pássaros e o barulho do vento que agita os galhos das árvores. Quem se fotografa em um lugar como este, para além da necessidade imperiosa dos tempos de redes sociais de capturar uma imagem que expresse o “eu estive aqui”? Talvez a intenção de captar um vestígio, por mais ínfimo que seja, do horror vivido nesse campo, quando se tiram selfies com a frase “Arbeit macht frei” (“o trabalho liberta”) ao fundo ?
 
“Tomar banho era um luxo – diz uma das guias em espanhol. As pessoas entravam nesse lugar, ali havia um encanamento de água e também de gás. Por que usavam o chuveiro? Do chuveiro, as pessoas não têm medo, para que resistir se só me levam para tomar banho? Era ali que eles os assassinavam – indica um ponto fora do enquadramento da câmera – e os tiravam pela rampa.” A seguir, escuta-se a voz de uma outra guia, também em espanhol, que explica o que era feito com os restos dos corpos queimados: “As cinzas eram depositadas na última sala e logo espalhadas pelo campo como adubo”. O turismo nos alicerces do extermínio, algo terrivelmente normal, talvez ressignifique a “banalidade do mal”, expressão cunhada pela filósofa alemã Hannah Arendt. Alguns indivíduos – os turistas, os visitantes, os guias – parecem atuar dentro das regras do sistema a que pertencem sem refletir sobre seus atos.
 
Qual o significado de um espaço como este projetar um filme como o de Loznitsa?, pergunta o jornalista Julián Gorodischer a Haroldo Conti no pequeno cinema Raymundo Gleizer, do Centro Cultural da Memória, antes de iniciar o debate sobre “A poética artística e o futuro da memória” com a diretora do Parque da Memória, Nora Hochbaum, a diretora do Museu Espaço da Memória ESMA, Alejandra Naftal, e a cineasta Albertina Carri. Este é o segundo evento de “O futuro da memória”, projeto impulsionado pelo Goethe-Institut, que se propõe a abrir um espaço alternativo para refletir a respeito de questões urgentes sobre a memória das ditaduras, a violência e os conflitos armados que aconteceram nas últimas décadas na Argentina, no Brasil, Chile, na Colômbia, no Uruguai e Peru.
 
Nora, que assistiu ao filme pela primeira vez, não sabe se está indignada ou se gostou. “A única coisa que está clara para mim é que colocaria todos os guias na rua”, reconhece a diretora do Parque da Memória, e adverte que este é um filme que consegue cumprir seu objetivo de inquietar. “Fico preocupada com como ele olha para as pessoas dentro do campo de concentração. Por momentos me pareceu um olhar desrespeitoso sobre o ser humano, como se fossem zumbis, mortos vivos caminhando por ali. Ele quer que o espectador se inquiete a respeito da utilização dos espaços da memória que tenham correlações com a morte, com o terrorismo ou os holocaustos.”

Alejandra Naftal, diretora do Museu Espaço da Memória ESMA, destaca que o filme é “totalmente ardiloso”. “Não fornece informação sobre nada, porque não se sabe o que o público está vendo, o que ele está lendo. Muitos parecem zumbis, mas outros não. Há alguns closes de rostos onde se acha que a pessoa viu algo, que algo aconteceu com ela. A câmera nunca entra dentro de um espaço, está sempre fora. A informação está disponível, então, como se possui a informação, vê-se uma falta de respeito. O fato de o filme ser em preto e branco tem a ver com isso; imagine esse filme cheio de cores, com as camisetas, as mochilas, os gorros. Seria mais forte ainda”, opina Alejandra. “Para nós que trabalhamos nesses espaços o incômodo e o cômodo têm de ser permanentes, porque se o incômodo está presente o tempo todo, afasta-se a pessoa que vem viver uma experiência. Se se resolve tudo para elas, é como se fossem à Disneylândia. O filme, sem mostrar nada, reflete o cômodo e o incômodo. Ele joga com a pessoa que vê o filme, não com quem está visitando o campo”, reflete a diretora do Museu Espaço da Memória ESMA.
 
Albertina Carri, diretora de Los rubios (2003) e Cuatreros (2016), entre outros filmes, e criadora da videoinstalação Operación fracaso y el sonido recobrado, no Parque da Memória, defende Loznitsa e classifica o filme do ucraniano de “um documentário de observação”. “Sempre há uma manipulação quanto ao momento em que se posiciona a câmera e em que dia; escolhe-se uma temperatura, um clima e todos esses corpos sem nenhuma reflexão sobre o significado que o sol terá nesse campo. Mas não é responsabilidade do cineasta; ele coloca a câmera nesse lugar e narra isso. Inclusive me parece muito respeitoso não entrar nos lugares: ele fica na entrada, vendo como as pessoas entram e saem”, esclarece a cineasta.
 
“Os guias contam a história com suas palavras, com seu viés filosófico do mundo, mas, sim, dizem o que aconteceu ali. Certamente a guia espanhola é muito forte, porque acaba de contar sobre um momento muito dramático, sobre a queima dos corpos, sobre como os levavam e matavam e, imediatamente depois, diz: ‘agora vamos comer um sanduíche’”, lembra Albertina. O que acontece conosco diante dessa multidão de pessoas com chapéus, óculos escuros e câmeras? Quando vi o filme pela primeira vez, pensei: ‘Que pena que não é colorido’, mas isso seria um escândalo. O preto e branco suaviza o olhar, senão seria muito revoltante de se assistir. Esse preto e branco ajuda a diminuir essa sensação de zumbis e de banalização, de certa falta de respeito. Essas pessoas estão a fim de quê? O que fazem com essas fotos? Colocam-nas no Facebook? O que se faz com as fotos tiradas em um campo de concentração? É estranhíssimo… Para que se tira uma foto num campo de concentração?”.
 
Goethe-Institut Buenos Aires


Alejandra conta como foi se formando um consenso em redor do Museu Espaço da Memória ESMA. “Como uma instituição pública do Estado argentino, tínhamos que construir uma narração em um lugar onde os dois elementos fundamentais eram o prédio, como prova material, e as vozes dos sobreviventes, que são os únicos que poderiam contar o que aconteceu aqui. Optamos por um caminho necessário, o informativo, didático, documental, para depois apelar para a experiência. Por que as pessoas vão a esses lugares? Se elas têm tudo de maneira virtual na internet. As pessoas vão para viver uma experiência; de tanta virtualidade, precisam ir aos lugares e ver. Não vão buscar conhecimento, não vão se informar sobre o que aconteceu nesse campo de concentração. Vão compartilhar uma experiência com os outros.”
 
Julián observa que existe uma ponte com o descarte de Loznitsa – em relação ao fato de quase todo o filme ter sido feito fora do campo, de imagens que um documentário tradicional talvez tivesse descartado – e o trabalho de Carri com materiais de descartes cinematográficos na mostra que apresentou no Parque da Memória. “O descartado, o rejeitado é um bom caminho para acessar tanto o conhecimento como a expressão artística, quando se trata da memória trágica?”, pergunta o jornalista. A cineasta confirma que se interessa particularmente pela ideia do descarte, porque “é o que não é mostrado, como a reivindicação de (Jacques) Derrida, que pedia que os noticiários do mundo nos mostrassem tudo o que não foi editado, para reescrever o mundo”. “Venho trabalhando com o não editado, tanto nos descartes com o monstro que fiz no Parque da Memória, como em meu filme Cuatreros, em que trabalhei com material que não necessariamente foi colocado no ar em seu momento.”

A diretora de Los rubios assinala as diferenças entre o Parque e o Espaço da Memória ESMA. “O espaço que funciona aqui foi um centro clandestino, um campo de concentração; não é um monumento às vítimas, é outro tipo de narração que precisamos construir. Para mim, o filme não trata de como a instituição decide contar isso, mas o que acontece hoje, como as pessoas chegam a esse lugar. A câmera vai circulando por esses descartes, por esses arredores, e nunca se sabe exatamente onde se está.” Uma anedota ilustra um nó de indiferença e negligência talvez difícil de desatar. “Quando estava montando a mostra no Parque, passou um cara com toda a família e disse à mulher: ‘Nomes, nomes, um montão de nomes… não sei o que são esses nomes’. Fiquei gelada. Como não sabe? Por todas as partes há placas que dizem: Momumento às Vítimas do Terrorismo do Estado. Há um ponto no qual a responsabilidade não é mais da instituição, nem do cineasta, mas do capitalismo bestial em que vivemos”, explica Albertina.
 
Nora resiste a pensar que o turismo e a massificação sejam ruins. “O grande desafio está na instituição, nos programas educativos, no que se passa dentro desses lugares. O Parque não foi um centro clandestino, não foi um campo de concentração, então, a abordagem fundamentada nele é outra; foi concebido como um espaço de beleza, de homenagem, de memória, que se articula com a arte e a educação. O ônibus turístico da cidade tem uma parada no Parque e as pessoas descem e tiram fotos.” A diretora do Museu Espaço da Memória ESMA assegura que prefere enfrentar o desafio da massificação. “Quero que venha muita gente. No Espaço, temos um vídeo na entrada com o objetivo de fazer uma introdução às pessoas; damos a elas algumas pistas, para que fiquem um pouco comovidas e se comportem bem depois: aqui houve torturas, aqui houve assassinatos, aqui pessoas vivas foram atiradas ao mar… Depois dizemos a elas que isso é uma prova judicial, que não podem tocar as paredes, não podem comer, não podem correr. Mostramos a elas os ‘não’, mas transformando-os, porque estão visitando um lugar importante”, destaca Alejandra.
 
O mediador do debate menciona a tendência à “falta de respeito com o Holocausto”, no sentido de se afastar do olhar canônico e apresentar um olhar satírico. “Tem a ver com o passar do tempo, com a distância que nos separa do acontecimento? Tem a ver com as permissões que se tem, quando se está vinculado às vítimas?”, quer saber Julián. “Os acontecimentos traumáticos como os da última ditadura levam muito tempo para serem processados – responde Albertina. No início do período pós-ditadura foram necessários determinados tipos de discurso para reconstruir as possibilidades de memória, verdade e justiça. À medida que o tempo foi passando, apareceram as vozes dos filhos. Esse é um momento de quebra, onde o olhar começa a ser outro. Outro dia, li no catálogo de uns artistas que ‘o sagrado não é a vida, o sagrado é a audácia’. A graça da arte é poder refletir a partir de uma postura intrépida, romper com o canônico e convertê-lo em parte da vida, para chegar a uma certa possibilidade de luto.”
 
Várias pessoas precisam compartilhar suas inquietudes. “Esse filme me remete a dois conceitos fundamentais: o silêncio e o sinistro – pontua uma mulher. As pessoas deste lugar viveram o sinistro, mas não se pode falar dele.” Uma jovem se lembra de um filme “oposto” ao de Loznitsa: El Predio (2010), de Jonathan Perel. “Não é preciso ter medo da massa”, propõe. “Um êxito da política alemã é que esse campo de concentração seja um ponto turístico obrigatório, que as pessoas tenham essa experiência; não importa se saem dali modificadas ou não.” Um senhor atinge o cerne da questão. “A humanidade vive permanentemente em repetidos holocaustos.  A humanidade é uma história de massacres. A Argentina é um exemplo desta situação”, afirma. Há feridas que não fecham nem cicatrizam. Há crimes e danos irreparáveis e toda a tentativa de encerramento está condenada ao fracasso. “Observar é exumar os véus do ‘normal’ para indagar na obscuridade”, anoto em meu caderninho, com a modesta intuição de que o futuro é sempre aberto e incerto quando falamos sobre memórias.
 
Silvina Friera

Tradução: Renata Ribeiro da Silva