Vila virtual Corpo-território

Os curadores e artistas do Rio de Janeiro realizam uma série de oficinas com os moradores da Vila Autódromo. Trata-se de uma aposta na criação coletiva, que busca discutir as memórias e os desejos dos participantes. Aqui temos algumas considerações sobre a primeira oficina intitulada Vila virtual.

Vila virtual Foto: © Igor Vidor

Era meio-dia e meia quando chegamos para a primeira oficina do projeto Céu aberto na Vila Autódromo. Penha aguardava para terminar o risoto de frango com o qual em breve nos deliciaríamos. Nós nos juntamos aos moradores na preparação do evento. Cadeiras e mesas do Seu Augusto, pratos e talheres da Penha e do Luiz. Tudo levado até a igreja que rapidamente se fez salão comunal.
 
A alimentação é precondição para uma existência coletiva e com isso traz o senso de partilha mais primitivo. A construção de um comum a todos, mesmo nos contextos mais estritos, é sempre uma utopia, mas uma experiência sensível compartilhada pode ser e é contributiva, não para uma identificação do comum mas para um caminho comum, repleto de percepções múltiplas, e nesse sentido propúnhamos a oficina Vila virtual.
 
Seu desenho de realização teve como pedra fundamental a vontade de reunião e de entendimento do território-comunidade, conceito que integra o discurso fundador do Museu das Remoções. Se o projeto Céu aberto tem como indagação primeira como a arte se coloca em relação às lutas sociais e aos direitos humanos, era necessário a criação de vias de ação a partir de uma situação imersiva coletiva. O filósofo francês Jacques Ranciére, ao buscar distinguir a atuação da arte em relação a contextos sociais, define que a arte “é política antes de mais nada pela maneira como configura um sensorium espaço-temporal que determina maneiras do estar junto ou separado, fora ou dentro, face a ou no meio de”[1]. A oficina acontecia portanto enquanto recorte e projeção dentro de um presente da Vila que aparece como estado passado-futuro, ou seja, vive simultaneamente o passado recente de luta contra as remoções e a luta atual pelo futuro desejado e desejante da Vila.
 
As atividades propostas aconteciam como abertura, um campo provisório para o corpo dentro de um espaço imposto e regulado. Após o almoço, seguimos então para a margem da lagoa que antes costeava toda a Vila. A faixa de asfalto criada durante a urbanização olímpica hoje é um deserto continental separando a rua que configura a Vila da sua origem pesqueira que é a lagoa. Para lá migramos. Os exercícios corporais iniciaram buscando primeiro des-disciplinar os corpos. Ficou logo evidente como nos movemos de acordo com uma mecânica-cultural. A retomada ali era não apenas a retomada do território, mas a retomada do próprio corpo. Braços e pernas reconectavam-se à força motriz do sentimento não verbal. A condução do processo pelo Estúdio Guanabara e pelo Terceira Margem alçava outro regime de comunicação.
 
No exercício seguinte, fomos convocados a encontrar um ritmo comum entre o caminhar de todos. Neste ponto, as variadas velocidades de cada corpo voltaram sua atenção para as singularidades que a cruzavam. Redefiníamos assim uma velocidade conjunta a partir da reação à peculiaridade de todas as pessoas implicadas.
 
A partir deste descondicionamento do corpo enfático, nos deitamos: uns na grama que resta, outros na ampla aspereza do asfalto. Fomos convidados a fechar os olhos. Ver nem sempre é um exercício visual. A meditação sugerida trouxe o acalanto, quando descansou sobre os corpos pequenos sacos de água fresca, tributários das pesquisas de objetos relacionais de Lygia Clark. A luta da Vila Autódromo é repleta de camadas e nuances. No meio da violência mais brutal, por exemplo, aparecem formas de contra-ataque imbuídas de certa docilidade. São estratégias de luta através da empatia. Talvez contra a isso a monstruosidade em que se transformou a parceria público-privada não esteja instrumentalizada. Voltando aos sacos de água, é em um ponto de similar ambiguidade ou contraponto que eles parecem tocar. O frescor e o descarrego, o cuidado e a mágoa, estavam ali acionados. Após a transmutação destas matérias sensíveis, cada um pode romper seu saco e devolver à terra o que a ela pertence.
 
Retornamos à igreja e demos início à atividade final, dos desenhos desejos, desenhos projeções, desenhos ausências, desenhos cobrança e desenhos metafísicos. Ali, nas mesas emprestadas pelo Seu Augusto, através da linguagem gráfica, abstrata ou figurativa, surgiram impressões, traumas e reivindicações formando, por fim, a Vila virtual.

[1] RANCIÈRE, Jacques. A Política da Arte, p. 1.