O futuro da memória São Paulo

Contramemória é uma experimentação em torno da memória. O projeto é parte do Futuro da memória, uma iniciativa do Goethe-Institut na América do Sul com desdobramentos em Buenos Aires, Bogotá, Rio de Janeiro e São Paulo.
 
Com curadoria de Clara Ianni e Benjamin Seroussi, Contramemória é composto por um conjunto de oficinas, encontros e performances que questionam as narrativas históricas oficiais, propondo novos agenciamentos e outras memórias possíveis no presente.
 
Inspirado na Experiência n° 2 de Flavio de Carvalho - que consistiu no ato de caminhar de chapéu no sentido contrário ao de uma procissão de Corpus Christi -, o projeto se inscreve no espaço público tomando-o como terreno de construção da memória coletiva. Para desenvolver essas ações, Contramemória partiu de parcerias já existentes entre artistas e movimentos sociais. Aproveitando o marco dos 100 anos da Revolução Russa, o projeto resgata a noção de arte engajada, mas, desta vez, localiza sua esfera de atuação no cotidiano e nos gestos menores, como a música, o plantio, a comida. Ao aproximar ferramentas de luta dos movimentos sociais da imaginação artística, a construção dos rituais pretende evocar potenciais contranarrativas no contexto contemporâneo.
 
A primeira parceria surge do desejo da aldeia guarani Kalipety, do extremo sul de São Paulo, de realizar uma oficina de cultivo para resgatar os diversos tipos de milho Guarani. A parceria se desdobra em um contrarritual que será realizado pelos moradores da aldeia com o Terreyro Coreográfico na forma de uma coreografia de cultivo.
 
A segunda parceria, no centro da cidade, consiste na realização de oficinas e de um show durante o qual será lançado uma música inédita - feita por moradores e frequentadores da região conhecida como Cracolândia em colaboração com o movimento a Craco Resiste, o artista Raphael Escobar e o DJ CIA. A ação lida com a multiplicidade e complexidade de histórias que permeiam o local, apontando para aquelas que não cabem nas narrativas oficiais sobre o território e seus frequentadores - dos ex-soldados da borracha aos sobreviventes do massacre do Carandiru.
 
O projeto reúne mundos muito diferentes que se assemelham por serem iniciativas fortes de resistência, no contexto urbano e semiurbano, ao mundo do capitalismo avançado - mostrando que outros mundos são possíveis.

Curadores

Clara Ianni © Tomas Rafa Artista. Graduada em Artes Visuais pela Universidade de São Paulo, é mestre pela Universidade Livre de Berlim. Seu trabalho trata da relação entre arte e política, com atenção especial à história e à construção da memória. Sua pesquisa reflete as contradições entre o proceso de modernização do Brasil e as estruturas arcaicas do passado colonial ainda subjacentes no país. Através do vídeo e da instalação, sua obra concentra-se nos aspectos omitidos pelas narrativas hegemônicas. Já expôs seus trabalhos entre outros na “Bienal de Jacarta” (2015),  na “31ª Bienal de São Paulo” (2014), no “Yebisu Festival”, Tóquio (2015),  entre outros. Foi residente do AIR Laboratory, Varsóvia (2017), do HIWAR-Conversations em Amman, Jordânia (2013), da Culturia, Berlim (2011), do Museu da Pampulha, Belo Horizonte (2011) e da Casa Tomada, São Paulo (2010).
Benjamin Seroussi © Sofia Colucci Curador, editor e gestor cultural. Diretor da Casa do Povo, uma associação cultural sem fins lucrativos, fundada há mais de 60 anos no bairro Bom Retiro, em São Paulo. Seroussi é mestre em Sociologia pela Escola Normal Superior de Paris e pela Escola de Estudos Superiores em Ciências Sociais, e em Gestão Cultural pelo Instituto de Estudos Políticos (Sciences-Po). Trabalhou como curador-convidado do projeto Vila Itororó, Canteiro Aberto, para projetar um centro cultural neste conjunto de prédios do bairro Bela Vista. Além disso, foi editor de várias publicações e realizou diversas pesquisas no Brasil.

Participantes

Escobar © Arquivo pessoal Formado em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e pós-graduando em Estudos Brasileiros: sociedade, educação e cultura pela Fundação Escola de Sociologia e Política. Desde 2009 atua com educação não formal em contextos de vulnerabilidade social ou de disputas políticas, como Fundação Casa, Cracolândia e Albergues. Partindo das noções de público e privado, lugar e não-lugar, centro e margem, sua produção se utiliza de objetos, ações e situações corriqueiras do cotidiano urbano. Escobar participou de exposições como “Metropole: experiência paulistana” na Pinacoteca do Estado de São Paulo (2017); OSSO, Exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga, Instituto Thomie Othake, São Paulo (2017); “Totemonumento”, Galeria Leme, São Paulo (2016); X Bienal de Arquitetura de São Paulo (2013); “A alma é o segredo do negócio, Funarte, São Paulo (2013). Também participou de residências artísticas como Red Bull Station, São Paulo (2016), “Muros: territórios compartilhados”, Salvador (2013), e “Obras em construção”, Casa das Caldeiras, São Paulo (2011). 
Terreyro Coreográfico © Mauricio Pinheiro Terreyro Coreográfico dá nome à encruzilhada que confluiu coreógrafos, arquitetos, urbanistas, dançarinos, atores, músicos, filósofos e poetas – em coro –  na direção de pensar, em ato, o público em suas várias dimensões. Juntos trabalhamos a arquitetura e o espaço urbano a partir do pensamento coreográfico, no intuito de  repensar os caminhos de desenvolvimento urbano das cidades, propondo coreografias para o corpo da cidade, abrindo a perspectiva para o sentido público da terra e dos territórios, tornando público o que é público. Acordar em terrenos, lotes abstratos de terra: aí está a força desse espaço consagrado à vida pública, tornando manifestos seus processos históricos, míticos e poéticos.
 
Trabalhamos desde 2014 em Sampa, principalmente no bairro do Bixiga e intensamente nos baixios do Viaduto Libertas (antigo Júlio de Mesquita Filho). Sempre na escuta do espírito do lugar (genius loci, encantados, guardiões), habitamos e cultivamos o espaço público com cor(e)ografias de celebração, danças, ágoras, construção, limpezas, incursos, percursos, discursos, seminários, disseminários, mostras cinematográficas, grupos de leitura, plantios etc.
 
Nosso primeiro gesto arquitetônico-coreográfico, no baixio do Viaduto Libertas, ao mesmo tempo devora e abre caminho para o projeto urbano Anhangabaú da Feliz Cidade, nascido dos primeiros croquis de Lina Bo Bardi e Edson Elito com a companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, para devolver às terras do bairro do Bixiga seu destino público, popular, cultural e insurgente. 
 
Tivemos apoio dos 16º e 20º Editais de Fomento à Dança da Cidade de São Paulo, além de parcerias com o Goethe-Institut, Canteiro Aberto da Vila Itororó, Casa do Povo, SubPrefeitura da Sé, Oficina Cultural Oswald de Andrade, Praça das Artes, Sé Galeria/ Phosphorus, ECLA, Escola da Cidade, a Aldeia Guarani Kalipety (em Parelheiros São Paulo) e Aldeia Gwarini TabaAtã (Território Indígena Tupinambá em Olivença Ilhéus/BA).
Guga © Pablo Saborido Artista e educadora, formada em Artes Plásticas pela FAAP e graduada (licenciatura) pela Faculdade Paulista de Artes.  Em 2007, trabalhou na Fundação Leonilson e ministrou aulas de artes para crianças no Instituto Tomie Ohtake de 2007 a 2010. Trabalhou na área de formação de professores da rede pública e na coordenação dos ateliês da 29ª e da 30 ª  Bienal de São Paulo entre 2010 e 2012. Foi educadora do instituto Acaia de 2014 a 2017. Como artista, realizou três exposições individuais na Galeria Transversal e na Galeria Superficie. Participou de exposições coletivas no Centro Cultural São Paulo – CCSP, na Galeria Mendes Wood, no Espaço Cultural Santander e no SESC Pompéia. Trabalhou como assistente dos artistas João Loureiro, Ana Luiza Dias Batista e Runo Lagomarcino.
Marcelo Hotimsky © Julia Joia É bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Trabalha como assessor da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY) e é membro do Programa Guarani do Centro de Trabalho Indigenista (CTI) desde 2014, tendo atuado em diversos projetos na área de Etnologia Indígena desde então. Possui experiência como educador, com ênfase no desenvolvimento de trabalhos de campo voltados para a área de Educação Ambiental e Sociologia.
Pavio © Pavio A Pavio é uma agência de videorreportagem autônoma focada em pautas sobre violações de direitos e mobilizações sociais. Contamos as histórias a partir da perspectiva de quem está no centro dos fatos. Contribuímos com a circulação de informações e denúncias a partir de um olhar autônomo, investigativo e crítico. A Pavio é um olhar invertido sobre o que geralmente é notícia e que não deixa de ser história.
Simone Gatti © Arquivo pessoal Arquiteta e urbanista, professora de planejamento urbano e pós-doutoranda da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Trabalhou na coordenação de diversos planos e projetos urbanos, foi conselheira representante da sociedade civil no Conselho Gestor da ZEIS do projeto Nova Luz e atualmente é representante do IABsp na Comissão Executiva da Operação Urbana Centro. É pesquisadora do NAPPLAC USP (Núcleo de Apoio à Pesquisa, Produção e Linguagem do Ambiente Construído). Desenvolve pesquisas sobre políticas habitacionais, centros urbanos, gestão participativa e gentrificação. Vive e trabalha em São Paulo.
Felipe Villela © Arquivo pessoal Pesquisador do Observatório de Remoções da USP (LabCidade FAU). Especialista em Política Urbana pelo IPPUR/UFRJ, onde é mestrando em Planejamento Urbano. Arquiteto e urbanista pela UFF. Vive e trabalha em São Paulo e no Rio de Janeiro.
 
 

Craco resiste

O futuro da memória São Paulo 1

A Craco Resiste é um movimento criado por moradores e frequentadores da região conhecida como Cracolândia com o intuito de resistir à estigmatização desta parte da cidade e ao tratamento quase exclusivamente policial dado a uma questão mais complexa. A parceria com o artista Raphael Escobar, em colaboração com DJ CIA, se dá por meio do fortalecimento do papel da música, tanto como forma de criar outras narrativas a respeito da região quanto como fonte de renda possível para seus participantes, entre os quais vale destacar Meianoite, Cauex e Denis.

Samba organizado por frequentadores da Cracolândia, no largo General Osório, na rua conhecida por muitos como a “Rua do Samba”. Neste local, nos anos 1930, a população negra que morava na região formava rodas de samba, as quais foram continuadas, a partir dos anos 1940, com a chegada das lojas de instrumentos musicais.

Festa de rua, o Samba na Lata traz o samba como ferramenta de autonomia destes frequentadores da região hoje conhecida como Cracolândia. Como forma de serem pagos pelo samba, durante a roda, uma lata de alumínio será passada estimulando a contribuição espontânea e relembrando a prática de se passar o chapéu.

Passar o chapéu é uma prática ancestral que mostra que o homem se relaciona colaborativamente desde sempre, sem imposições de nenhuma natureza, pois inclusive, nesta prática, respeita-se totalmente o direito do público de não contribuir se assim o quiser pelo motivo que tiver. Fortalece-se a economia, contribui-se para uma melhor distribuição de renda e investe-se no trabalho vital da arte: promover o crescimento e o amor. Assim, o Samba na Lata, é uma vontade de mostrar a todos que a Cracolândia é composta de muitas subjetividades e que estes que compõem o samba podem sobreviver de sua arte e de seus desejos e vontades.
No dia da Consciência Negra – 15 de dezembro – a Cracolândia recebe um show onde será lançada uma música escrita pelos frequentadores da região e produzida pelo DJ CIA (integrante do grupo RZO). Também estarão presentes diversos convidados que se apresentaram no fluxo ao longo dos últimos anos.

A Cracolândia deve ser entendida como um quilombo urbano no centro de São Paulo, onde os excluídos – por motivos diversos – se juntam em uma comunidade para se acolherem e protegerem uns aos outros. A grande maioria dos que vivem e passam por essas ruas são negros e pardos. Será essa voz que vai ecoar neste dia, mostrando que nem mesmo a opressão do Estado e a segregação podem apagar essas subjetividades e suas muitas histórias.
  • Craco 1 © Pavio
  • Craco 2 © Pavio
  • Craco 3 © Pavio
  • Craco 4 © Pavio
  • Craco 5 © Pavio
  • Craco 6 © Pavio
  • Craco 7 © Pavio
  • Craco 8 © Pavio

Aldeia Kalipety e Terreyro Coreográfico

O futuro da memória São Paulo 2

A Aldeia Kalipety do povoado indígena guarani Mbya é uma aldeia semiurbana, próxima da Tenondê Porã, contando com mais de 2 mil habitantes assentados no extremo sul de São Paulo. Ela nasceu do movimento de retomada de terras tradicionais e foi reconhecida como tal em 2016. O Terreyro Coreográfico já trabalhou com ambas as aldeias e pretende participar do resgate desta memória por meio de mutirão e da coreografia de um ritual no Anhangabaú.

Dia 21-22.10
Aldeia Kalipety

Multiplicar as sementes do milho Guarani e o plantio tradicional das comunidades Guarani Mbya como ato de re-existência cosmopolítica. Essas sementes milenares possuem a força de não se deixar contaminar pelas sementes transgênicas e as técnicas de plantio tradicionais preservam e respeitam a vida e o tempo do solo. Juntas, tem a força de acordar um entendimento cosmocoropolítico da realidade. Com essa Corografia/Mutirão/Oficina vamos juntos, Guarani e Juruas (não-indígenas), Celebrar e Cultivar o milho Guarani, símbolo de vitalidade, saúde, alimentação, mas principalmente manutenção dos saberes ancestrais Guarani Mbya, fortalecendo sua Re-Existência e apoio à luta pela Demarcação de Terras e a garantia do direito à Terra.
 
A aldeia Kalipety faz parte do Território da TI Guarani Mbya Tenondé Porã, localizada no extremo Sul de São Paulo, no distrito de Parelheiros, a 40 km do centro da cidade, demarcada em 1987 junto da aldeia Krukutu, em uma extensão de apenas 26 hectares cada. Em 2012 a demarcação foi revista e reconhecida uma área de 16.000 hectares. A aldeia Kalipety faz parte da retomada das Terras Guarani junto de outras 6 novas aldeias, sendo a Kalipety a que tem o trabalho mais consolidado com o plantio tradicional.
 
O Terreyro Coreográfico é uma encruzilhada onde se encontram arquitetos, coreógrafos, dançarinos, poetas, afins de trabalhar em coro no sentido de dar voz aos espíritos dos Lugares, em acordes com sua força de ser Público e o sentimento sagrado de pertencimento à Terra, através de coreografias, celebrações, disseminários, cursos, projetos urbanos e arquitetônicos.
  • guarani 1 © Fernando Solidade Soares
  • guarani 2 © Fernando Solidade Soares
  • guarani 3 © Fernando Solidade Soares
  • guarani 4 © Fernando Solidade Soares
  • guarani 5 © Fernando Solidade Soares
  • guarani 6 © Fernando Solidade Soares
  • guarani 7 © Fernando Solidade Soares
  • guarani 8 © Fernando Solidade Soares

  • guarani 10 © Fernando Solidade Soares
  • guarani 11 © Fernando Solidade Soares

Nhandekuai ha’e Jaiko Sampã py - Nhanhoty Vy’a
Dia 26.11
Trajeto do cortejo:
Vale do Anhangabaú (na frente do prédio da Praça das Artes), seguindo para a Praça da Sé, depois Teatro Oficina e, por fim, o Baixio do Viaduto Libertas, na Rua Major Diogo, altura do número 353.
 
O Terreyro Coreográfico junto dos moradores das Aldeias Kalipety e Tenondé Porã com todos coros que se juntarem na sagrada árvore plantada no centro do Vale do Anhangabaú, partiremos em cortejo com cantos e danças até a Praça da Sé, onde plantaremos as sementes Guarani, cultivando e relembrando a forte presença indígena nessa praça q foi palco de uma das primeiras insurgências indígenas contra os invasores portugueses. De lá seguiremos até o Teat(r)o Oficina juntando forças na re-existência do Oficina frente ao Grupo Silvio Santos que pretende construir três torres de cem metros ao lado da Obra de Arte criada pela Lina Bo Bardi e terminaremos nos Baixos do Viaduto Libertas, onde estamos cultivando desde 2014 a Vida Pública desse generoso espaço, com uma roda de Xondaro, a Dança Guarani dos Guerreiros-Guardiões.
 
Segundo ato do Rito Coreográfico de Celebração das sementes Guarani q resistem às sementes transgênicas sem se deixar alterar geneticamente por elas e q portam em si a sabedoria ancestral indígena; símbolo da re-existência dos Guarani Mbya em Sampã. O primeiro ato do Rito aconteceu no dia 22 de outubro com um mutirão de plantio na Aldeia Guarani Mbya Kalipety em Parelheiros Sampã. Agora, vamos celebrar as sementes Guarani no centro da cidade!
 
O cultivo da Feliz Cidade nos une nessa grande corografia de luta pelo direito à Terra, pois pertencermos à Terra!
 
 
  • Kalipety 1 © Pavio
  • Kalipety 2 © Pavio
  • Kalipety 3 © Pavio
  • Kalipety 4 © Pavio
  • Kalipety 5 © Pavio
  • Kalipety 6 © Pavio
  • Kalipety 7 © Pavio
  • Kalipety 8 © Pavio
  • Kalipety 9 © Pavio
  • Kalipety 10 © Pavio
  • Kalipety 11 © Pavio
  • Kalipety 12 © Pavio

Contrarrituais

O futuro da memória São Paulo 3

Dia 7.12
Casa do Povo
 
A conversa pretende juntar os diversos participantes para assistir o registro realizado pelo Pavio. Na ocasião, convidados especiais serão chamados para reagir ao projeto como um tudo, analisando também a importância de esquecimento na construção das memórias. 

Outras cidades