Primeiro encontro regional de artistas e curadores

De início havia, antes de tudo, perguntas, muitas perguntas, sobre a memória e o esquecimento. Isso ficou muito claro já nos primeiros instantes durante a abertura do projeto “O futuro da memória”, quando os principais participantes se reuniram pela primeira vez para falar sobre suas inquietações e preocupações. 

 

  • Curadores 1 Foto: © Felipe Moreno
  • Curadores 2 Foto: © Felipe Moreno
  • Curadores 3 Foto: © Felipe Moreno
A abertura de “O futuro da memória”, projeto regional coordenado pelo Goethe-Institut, aconteceu no dia 29 de março, em Bogotá. Neste dia, os cocuradores do projeto, provenientes de várias cidades sul-americanas (Bogotá, Buenos Aires, Montevidéu, Rio de Janeiro, São Paulo e Santiago do Chile) encontraram-se com os organizadores e coordenadores na sede do laboratório de artistas “Mapa Teatro”, dirigido por Heidi e Rolf Abderhalden. Já o próprio local do encontro deu ensejo, indiretamente, a algumas das questões e ideias que deram origem ao projeto e que, sem dúvida, atravessarão muitas obras e performances de arte, bem como os debates interdisciplinares que farão parte dele.
 
A sede do encontro foi uma casa antiga, enorme e que parece ter sido um dia suntuosa, situada na tradicional Avenida Sétima, bem no coração do centro de Bogotá. Há décadas que toda a zona central da cidade, com suas construções e monumentos, começaram a cair no esquecimento e a se converter em vítimas silenciosas do abandono institucional e social. Durante muito tempo, o lugar esteve confinado à decadência material e emocional. Há 30 anos, os irmãos Abderhalden decidiram estabelecer-se ali, reformando e adaptando o prédio e convertendo-o em um verdadeiro centro para a prática e reflexão artísticas.
 
Aqui, na casa do “Mapa Teatro”, aconteceram vários eventos em torno do lançamento do projeto “O futuro da memória” e da plataforma artístico-acadêmica “Experimenta/Sul VI”, associada ao projeto. O título deste ano é “Mnemofilia & Lotofagia”. Não apenas o título reflete o desejo de interrogar a respeito da memória e do esquecimento. Também a casa em si carrega hoje, em seus muros, em suas escadas, em toda a sua arquitetura republicana, as feridas do abandono e da omissão, mas também o afã em recuperar e revisitar uma ou outra vez o que aconteceu, para que isso, uma vez elaborado e atualizado, possa fazer parte do presente.
 
No início do encontro inaugural, Katja Kessing, que na condição de diretora do Goethe-Institut de Bogotá, foi, ao lado da coordenadora Úrsula Mendoza, uma das forças motrizes por trás do projeto “O futuro da Memória”, falou do interesse em elaborar (e não necessariamente em responder de forma conclusiva), a partir da arte e da reflexão, as inquietacões que hoje em dia são centrais tanto na Alemanha quanto na América do Sul. Entre as perguntas fundamentais, estão: Para que memória? Por que pretender uma aproximação deste tema justamente a partir da perspectiva da arte? Heidi e Rolf Abderhalden, do “Mapa Teatro”, ao ser referirem ao nome “Mnemofilia & Lotofagia”, sugeriram mais uma pregunta: Não será por acaso necessário integrar também ao trabalho de elaboração da memória, como propõe o escritor David Rieff, o conceito e a prática do esquecimento?
 
Logo a seguir relataram uma anedota, que, por sua vez, deu origen a outra inquietação. Contaram a respeito de sua visita recente a um antigo acampamento da guerrilha colombiana das Farc, onde agora o Exército colombiano pretende criar um “Museu da Memória” – um lugar no qual serão examinados sobretudo os crimes da guerrilha, hoje desmobilizada.  Como contaram os irmãos Abderhalden, um dos militares encarregados deste projeto lhes disse: “Já terminou a guerra na Colômbia. Agora começa a guerra da memória…”. Desta afirmação particular, um pouco chocante e, afinal de contas, verdadeira, surgiu uma dupla pergunta que, como as anteriormente mencionadas, parece atravessar todo o projeto regional: Quem conta a história? Que versão da história impõe-se, por fim?
 
E, sendo assim, através das intervenções e descrições dos diferentes projetos artísticos dos curadores internacionais que estiveram presentes na abertura, foi emergindo uma série de questionamentos fundamentais: Existe realmente o que se chama de memória coletiva? Qual é o papel do conceito de futuro na reflexão sobre a memória? Para quem se preserva a memória, para quem existem as recordações? Quem ou o que é exatamente a vítima e quem a nomeia como tal?
 
De que forma essas perguntas estão presentes no trabalho artístico e intelectual que constitui o núcleo deste projeto é algo se pôde perceber muito bem nas oficinas, performances e intervenções que aconteceram em Bogotá nos dias que sucederam ao lançamento do projeto. Sem dúvida, essas inquietacões, entre muitas outras que surgirão pelo caminho, serão a base e o fio condutor dos diferentes elementos – obras de arte, reflexões interdisciplinares e diálogos entre as disciplinas – que durante os meses seguintes construirão “O futuro da memória”.