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Iniciativas da mídia
Fatos contra fake news

Quatro semanas no “campo de treinamento” contra fake news: a equipe do departamento “Verifikation” da emissora Bayerischer Rundfunk
Quatro semanas no “campo de treinamento” contra fake news: a equipe do departamento “Verifikation” da emissora Bayerischer Rundfunk | Foto (detalhe): © BR / Lisa Hinder

As mídias alemãs passam por uma crise de credibilidade. Para combatê-la, surgem várias iniciativas que visam recuperar a confiança do público e enfrentar as manipulações e informações falsas na internet.

Já ouviu falar da conspiração da barra de ouro? Segundo ela, grande parte das reservas de ouro da Alemanha não existiriam mais – elas teriam sido furtadas secretamente pelos Estados Unidos e substituídas por barras falsas. “Essa história está muito presente nas mídias sociais, vídeos sobre ela são clicados dezenas de milhares de vezes”, declara Patrick Gensing. “Para nós, este é sempre o indicador de que vale a pena fazer alguma coisa.”

“Faktenfinder”: trazendo luz à escuridão

Gensing é diretor do Faktenfinder, um departamento de pesquisa da rede de emissoras públicas ARD criado no primeiro semestre de 2017. Faktenfinder é agregado ao Tagesschau, o programa de notícias mais assistido da TV alemã. Seu objetivo é rastrear a internet em busca de histórias falsas, que no primeiro momento podem parecer irrelevantes, mas têm o potencial – ampliado pelas redes sociais – de influenciar o discurso da esfera pública. Essas histórias são investigadas e as inverdades, retificadas. Observando mais de perto o caso da conspiração do ouro constata-se que se trata de uma lenda urbana. A publicação dos resultados das investigações do departamento são centralizadas na página faktenfinder.tagesschau.de.

Para Patrick Gensing, o Faktenfinder também é uma tentativa de trazer luz à escuridão de um fenômeno com o qual as mídias alemãs se preocupam cada vez mais: as chamadas fake news, embustes ou contrainformações, ou seja, declarações falsas. “Não sabemos se na Alemanha essas inverdades difundidas via internet vão exercer um papel de importância semelhante à vista na votação do Brexit ou nas eleições nos Estados Unidos e na França. Mas há motivos para se supor isso”, diz Gensing. “Com Faktenfinder, também queremos descobrir a real dimensão desse fenômeno.”
 

Pouca confiança nas mídias

O fato de se atribuir às fake news um potencial de manipulação tão grande e de ameaça à democracia também tem relação com a falta de credibilidade que os produtos clássicos das mídias vêm sofrendo junto à população. “Sabemos através de vários estudos que atualmente entre um quinto e um quarto da população alemã não tem confiança nem mesmo em mídias bastante confiáveis”, declara Carsten Reinemann, professor de Ciências da Comunicação na Universidade Ludwig Maximilian de Munique.

Segundo Reinemann, uma das possíveis razões seriam desenvolvimentos problemáticos no setor de mídia, que acabam conduzindo a erros jornalísticos: a aceleração crescente dos noticiários ocasionada por pressões econômicas pode induzir à falta de cuidado. A isso se somam uma tendência à escandalização e as influências da política, da publicidade e das relações públicas.

Além disso, segundo Reinemann, trata-se também das consequências de uma agenda política; uma narrativa de crítica ao sistema, sobretudo da maneira como é propagada pelo partido populista de direita Aliança para a Alemanha (AfD), em que as mídias fazem o papel de agentes das forças estabelecidas e de manipuladoras da opinião pública. “De repente, há uma discussão sobre se é possível haver um consenso sobre o que é verdadeiro e correto”, afirma Reinemann. Esta insegurança, por sua vez, é suscetível a ser instrumentalizada pela propaganda política. Tão logo se estabeleça a possibilidade de não ser mais preciso confiar em informações verificadas, “fatos alternativos” tornam-se subitamente possíveis.

Verifikation”: desvendando fake news

O Faktenfinder trabalha em estreita cooperação com o Social Listening and Verifikation, um departamento da emissora Bayerischer Rundfunk (BR) criado em maio de 2017. Ele também tem o objetivo de desvendar e corrigir boatos, fake news e propaganda na internet. Diferentemente do Faktenfinder, os resultados não são compilados centralmente em uma página da internet, mas integrados aos noticiários correntes.

Conforme o diretor Stefan Primbs, o trabalho não se concentra primariamente na pura verificação, mas em disponibilizar informações sobre notícias falsas. “Queremos contar a notícia de maneira correta, sem ter que repetir a mentira.” Outro ponto importante do projeto é a mediação de competência em mídia. Reportagens explicativas mostram como os boatos são difundidos e esclarecem diversos mecanismos de propaganda e notícias falsas nas redes sociais.

“Echtjetzt”: verificando o teor de verdade

Em junho de 2017, surgiu também a iniciativa da associação de pesquisa sem fins lucrativos Correctiv. Sob o nome Echtjetzt foi criado um site em que é verificado o teor de verdade de histórias selecionadas. As usuárias e os usuários podem fornecer referências sobre as respectivas fontes diretamente num formulário da própria página ou via Facebook. O critério mais importante para uma checagem é a relevância, ou seja, principalmente a difusão nas mídias sociais. Jutta Kramm, diretora da equipe do Echtjetzt, resume as metas do projeto, similares às do Faktenfinder dos colegas da rede pública ARD: “Fazer reportagens fiéis à verdade e lutar contra informações deliberadamente falsas estão entre as tarefas básicas dos jornalistas. É importante investigar a amplitude do fenômeno fake news hoje na Alemanha.”

Carsten Reinemann aprova todas essas iniciativas, mas alerta contra interpretá-las apenas como uma tentativa de reconquistar a confiança do público. Para ele, o verdadeiro desafio estaria em outro ponto: “Em sua forma mais perniciosa, as fake news podem fazer parte de uma luta de motivação política contra a democracia livre e pluralista. O desafio do jornalista é reconhecê-las e desmascará-las, mas, ao mesmo tempo, levar a sério a crítica legitimada à própria mídia e aprender com isso”.

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