Acesso rápido:
Ir diretamente ao contéudo (Alt 1)Ir diretamente à navegação secundária (Alt 3)Ir diretamente à navegação principal (Alt 2)

O que é realidade?
Mais real que o real

O que é a realidade? Esta não é uma pergunta fácil de ser respondida em tempos virtuais e de verdades alternativas.
O que é a realidade? Esta não é uma pergunta fácil de ser respondida em tempos virtuais e de verdades alternativas. | ©Foto (detalhe): Colourbox

Como pode e deve ser definida a realidade em tempos de realidades virtuais e alternativas, de óculos de realidade virtual e fake news?

O que há? O que existe? O que é real? À primeira vista, essas perguntas parecem fáceis de ser respondidas. O real é aquilo no que posso tocar e aquilo que consigo perceber. No entanto, com um olhar mais atento, fica claro que a questão envolvendo a realidade é muito mais complicada. Aquilo que percebo é, ao mesmo tempo, a realidade, ou somente um fenômeno sentido, um fenômeno subjetivo?

O CONSENSO SOCIAL

Um conceito popular de realidade parte do princípio de que há uma realidade material que pode ser percebida através dos sentidos e reproduzida através da imaginação e da linguagem. É a isto que geralmente nos referimos, quando falamos sobre a realidade na nossa vida cotidiana: a realidade é aquilo que pode ser observado e medido, aquilo que pode ser expresso por um conhecimento factualmente verificável, aquilo que existe como mundo exterior objetivo e não pode deixar de existir arbitrariamente. Teorias filosóficas como o ceticismo têm questionado a existência do mundo material exterior – afinal, seria possível sonhar constantemente que há algo como a realidade. Para além dessas brincadeiras mentais, contudo, o entendimento comum é o de que existe um mundo real, e de que há conhecimento verdadeiro e afirmações verdadeiras que coincidem essencialmente com esse mundo.

Há no dia a dia, portanto, um acordo sobre o que poderia ser a realidade. Já encontramos, então, uma definição de realidade? De forma alguma. Nos últimos anos, dois fenômenos levantaram questões que levaram nossa compreensão cotidiana da realidade ao limite. O primeiro foi a existência da realidade virtual. Evoluções tecnológicas tornaram possível simular realidades digitais de forma que as sentimos como sendo tão reais quanto as do mundo não virtual. Outra questão social altamente conflituosa é a disseminação das chamadas fake news, as notícias falsas, que, embora calcadas em ficções, acabam por gerar midiaticamente novas realidades.

Ambos os fenômenos demonstram, por um lado, que não existe uma realidade objetiva, mas, em vez disso, inúmeras realidades virtuais ou fictícias distorcidas pela mídia, que podem ser vistas como verdadeiras ou de fato existentes. O que ambos esses fenômenos nos dizem sobre a realidade, e como deveríamos classificar realidades fictícias ou virtuais?

MAIS REAL QUE A REALIDADE: A REALIDADE VIRTUAL

A realidade virtual e sua tecnologia são, desde sua criação, cada vez mais tema de reflexões filosóficas. A questão primária é entender o que significa, na verdade, que a realidade seja virtual, dado que o adjetivo virtual é geralmente empregado para descrever algo artificial, não real. Essa realidade virtual tem apenas o status de uma representação adicional da realidade. O que é virtual é supostamente não real, sendo uma simulação ou um modelo de realidade.  
 
A realidade virtual está se parecendo cada vez mais com a realidade natural nas esferas sensorial e visual – e pode então ser experimentada como real. A realidade virtual está se parecendo cada vez mais com a realidade natural nas esferas sensorial e visual – e pode então ser experimentada como real. | Foto: © Adobe As melhorias constantes no hardware de realidade virtual, especialmente nos óculos de virtual reality, também levantaram a pergunta se um dia as realidades virtuais e não virtuais irão se tornar indistinguíveis. Isso significaria que a realidade virtual não seria mais percebida como um tipo de realidade oposta, como uma segunda realidade. Não haveria mais uma divisão clara entre realidade virtual e não virtual e passaria a fazer mais sentido diferenciar entre modos diferentes de realidade. Isso corresponde aproximadamente aos princípios da epistemologia e da ciência cognitiva, para as quais a realidade é considerada algo construído que não pode ser objetivamente percebido nem expresso por afirmações factuais. Em suma: a realidade é o que o indivíduo faz dela. Isso significa, por outro lado, que não há mais apenas uma única ideia de realidade, mas várias.

A ideia de indistinguibilidade entre realidade virtual e não virtual ainda é uma mera brincadeira mental, cuja execução tecnológica é puramente especulativa. No entanto, um dos pesquisadores mais conhecidos no campo da realidade virtual, Jeremy Bailenson, parte do princípio de que daqui a 10 ou 20 anos a distinção visual entre as realidades virtual e não virtual terá se tornado praticamente impossível. Michael Heim, pesquisador de virtual reality, também fala de um “paradoxo da virtualidade”, segundo o qual a expressão “realidade virtual” faz cada vez menos sentido no nível sensorial quanto mais ela passa a equivaler à realidade natural.   

Ainda assim, as tecnologias de RV ainda não desencadearam um debate que possa ser levado a sério a respeito da seguinte questão: é arbitrário o que deve ser chamado de real? Neste contexto, um outro fenômeno chama muito mais atenção: as fake news.

REALIDADES ADULTERADAS: NOTÍCIAS FALSAS

Nestes tempos de fake news, fatos alternativos, teorias da conspiração e outros conteúdos de mídia deturpados, a ideia de uma pluralidade ou mesmo relatividade de dieferentes referências da realidade assume um papel antes de tudo problemático. Se não há um entendimento compartilhado e básico da realidade, processos de negociação democrática tornam-se disfuncionais.

Através da internet, temos acesso a mais informações do que nunca e essas informações descrevem mundos muito diferentes. Embora as fake news sejam baseadas na ficção, elas criam midiaticamente novas realidades. Através da internet, temos acesso a mais informações do que nunca e essas informações descrevem mundos muito diferentes. Embora as fake news sejam baseadas na ficção, elas criam midiaticamente novas realidades. | Foto: © Adobe Neste ponto, é interessante o fato de que dentro das ciências humanas, e especialmente dentro da ética da mídia, vigorou durante muito tempo a tese de que as sociedades progressistas precisariam exatamente dessa pluralidade de construções e projetos de realidade. De acordo com essa ideia, as democracias, como escreveu o professor de mídia Bernhard Pörksen ainda em 2014, viveriam de conceitos alternativos e antagônicos de realidade que não poderiam ser absolutizados. Segundo Pörksen, as visões dogmáticas da realidade deveriam ser rejeitadas.

Nos dias de hoje, a exigência de aumentar a pluralidade de projetos de realidade vem sendo implementada pela mídia – e as consequências desse relativismo estão destruindo no mundo todo as conquistas dos Estados democraticamente constituídos. Notícias distorcidas, falsas ou ideologicamente tendenciosas divulgadas por messengers, grupos, bots automáticos e algoritmos personalizados são acessadas e lidas milhões de vezes.

Nos debates em torno das fake news, o antigo conceito filosófico de realidade verdadeira e factual que simplesmente precisa ser reconhecida de forma adequada para se poder separar fato de ficção está ganhando novamente relevância. O próprio termo “notícias falsas” comprova uma perspectiva  que pretende reconhecer os fatos de maneira supostamente objetiva.

A DEMOCRACIA REQUER VERDADES MAIS BÁSICAS E COMPARTILHADAS

É claro que, por um lado, uma determinação dogmática e autoritária daquilo que deve considerado realidade precisa ser vista como problemática. Por outro lado, a relativização da realidade resulta em conflitos aleatórios e improdutivos. Para podermos continuar protegendo as democracias, é preciso restabelecer um certo volume de verdades básicas compartilhadas que possam servir de ponto de partida para o debate. Seria preciso encontrar um meio termo adequado através de uma nova formação de competência midiática, da adoção de determinados ideais jornalísticos na produção de conteúdo para redes sociais, de respeito maior às descobertas científicas e de algoritmos modificados. 
As democracias são fundamentadas no debate. Sem um pacto social básico sobre a verdade e a ficção, os processos de negociação democrática tornam-se disfuncionais. As democracias são fundamentadas no debate. Sem um pacto social básico sobre a verdade e a ficção, os processos de negociação democrática tornam-se disfuncionais. | Foto: © Adobe E, como frequentemente é o caso, a resposta não é de uma cor só. As pessoas não vivem inadvertidamente em diferentes simulações de realidade virtual, como mostra o filme Matrix, nem podem acessar claramente uma realidade objetiva via linguagem ou observação. Em vez disso, precisamos de uma abordagem pragmática na qual sejam reconhecidos dois fatos fundamentais. O primeiro é: a realidade é socialmente construída. O segundo é: apesar disso, a diferença entre verdade e ficção não pode ser completamente arbitrária. Ao contrário do que defendem algumas teorias relativistas, é preciso haver um certo estoque de concepções coletivamente compartilhadas sobre o que é de fato o real.

Top