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O dia da posse

Por Diego Silva Souza

O dia da posse (Allan Ribeiro, 2021)

A câmera aponta para o prédio vizinho que pode ser visto com dificuldade na imagem granulada. Já é noite e diretor e personagem conversam sobre a vida dos moradores deste edifício, que só podemos acessar pelas luzes de suas janelas. Em certo ponto, Allan Ribeiro, diretor do filme, questiona Brendo, o protagonista, se do lado de lá não estariam fazendo o mesmo exercício de fabular o que eles faziam acordados. Brendo não hesita em dizer que sim: “todo mundo adora se meter na vida dos outros”.

Essa primeira cena de O dia da posse funciona quase como uma meta-piada direcionada a quem assiste. No filme, somos convidados a acompanhar a rotina de isolamento social de Brendo, baiano estudante de direito na UFRJ. Uma premissa ordinária entre as produções filmadas neste período marcado pela pandemia de Covid-19, afinal, se um número considerável de pessoas “começou a fazer bolos, pães e cozinhar”, um número grande também passou a tentar se comunicar com o mundo a partir de imagens.

O longa de Ribeiro, contudo, tem em Brendo alguém em quem se firmar. Sem medo de se mostrar – desde que a câmera se mantenha distante e sem zoom in –, o protagonista conduz a filmagem para algo além de um filme de apartamento. Topando e explicitando suas propostas de auto ficcionalização como advogado, médico e candidato no Big Brother Brasil e à presidência, O dia da posse trai a ideia de um filme documental sobre a vida na quarentena, tomando o isolamento apenas como ponto de partida. 

Por outro lado, se a imaginação de Brendo dá ao filme uma rota de fuga da mesmice, ela também faz com que o conflito de maior potencial seja fragmentado no meio do caminho, se atendo a breves comentários que ou não foram desdobrados ou foram cortados na montagem. Seu conflito com a recusa de Allan em, nas palavras dele, respeitar o apreço e apelo popular de novelas e do Big Brother Brasil parece também dizer sobre um não pertencimento - não à toa acusa o diretor de ser muito “elitezinha”.

Ao lado do seu depoimento sobre a infância, quando conta como percebeu que era pobre, essa pequena ruptura na relação de cumplicidade entre diretor e protagonista parecem denunciar uma ausência. Porque se em suas rememorações Brendo se lembra de quem foi e em suas encenações revela (ou finge revelar) quem quer ser, o filme deixa de enquadrar diretamente o que está entre esses dois momentos: quem ele é. 

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