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JONAS LÜSCHER & MICHAEL ZICHY
Uma primeira reflexão...

Jonas Lüscher Foto: Ekko von Schwichow Michael Zichy Foto: Herbert Rohrer, Wildbild

Caras amigas e amigos,

Aqui estão algumas reflexões que darão o pontapé inicial para nosso debate sobre o tema populismo. Primeiro de tudo, uma indicação precisa necessária: em vez de populismo, talvez fosse mais correto falarmos de populismos no plural. É bem evidente que o populismo surge em formações distintas. Em debates científicos, diferencia-se, em primeira linha, entre o populismo de direita e o de esquerda, embora essa distinção não seja, é claro, precisa o suficiente. Neste projeto, pretendemos detectar não apenas as diferenças, como também os pontos em comum entre as diversas manifestações do populismo no marco de diferentes condições sociais, econômicas e religiosas. Para isso, reunimos um grupo consideravelmente diverso de participantes.

Ágnes Heller, que passou boa parte de sua vida nos EUA e agora voltou a viver na Hungria, país de onde foi obrigada a sair há 42 anos, conhece tanto as peculiaridades da política norte-americana que levou à eleição de Donald Trump, quanto a conjuntura na Hungria, na qual Viktor Orbán e seu Partido Fidesz determinam há anos a vida política. Além disso, temos em Ágnes Heller uma interlocutora que viveu o fascismo quando criança, ou melhor, que sobreviveu a ele. E que, nos anos 1970, depois de muitos anos de embates políticos com o regime comunista e opressão por parte do mesmo, foi obrigada a deixar seu país. Ou seja, Heller é uma interlocutora que não só conhece os populismos do presente dos dois lados do Atlântico, como também as consequências mais sérias das ideologias políticas do século 20 que se serviram de mecanismos populistas. Mas sobre isso ela própria irá discorrer aqui.

Em Maria Stepanova temos uma profunda conhecedora do contexto russo em nosso grupo. Como jornalista e ensaísta, ela acompanha há anos criticamente a política de Putin, sendo também a autora que revelou, em seu mais recente romance, Depois da memória, as profundezas dos espaços soviéticos da lembrança.

Yvonne Owuor, descreve em seu romance de estreia, Sede, não apenas a política do presente no Quênia, como também a história colonial e pós-colonial da nação. No momento, ela observa seu país à distância. Membro do grêmio de cientistas de Berlim (Wissenschaftskolleg), ela desenvolve seu novo romance, no qual tem a oportunidade de relacionar correntes populistas na Alemanha com os contextos políticos no Quênia.

A brasileira Carol Pires, por sua vez, vai nos relatar como o autoritário e populista presidente Jair Bolsonaro está mudando rápida e profundamente o Brasil depois de sua eleição. E como isso ficará claro no decorrer dos próximos meses.


Com a distância intelectual que lhe é peculiar, Youssef Rakha observou no Cairo a insurreição de 2011, que antecedeu o governo da Irmandade Muçulmana, a segunda revolução – ou golpe, dependendo da perspectiva –, bem como o governo militar que então se solidificou. Rakha antecipou, em conversas preliminares, que pretende investigar as interseções entre o populismo e o islamismo.

Como político ativo do Partido Verde austríaco, Michael Zichy conhece as condições em seu país como poucos e observa com preocupação as mudanças na sociedade que estão sendo implementadas agora, no segundo ano de uma coalizão de governo de direita.

Jonas Lüscher formou-se politicamente durante sua juventude na Suíça, observando o fortalecimento do singular populismo do Partido do Povo – uma facção que é, há 20 anos, a mais forte daquele país. Hoje, Lüscher observa com preocupação a entrada da Alternativa para a Alemanha (AfD), com suas posições conservadoras e mesmo abertamente extremistas de direita, no Parlamento da Alemanha, país que escolheu para viver. Ou seja, um grupo assim tão diverso é o pré-requisito ideal para analisar os caminhos do fenômeno populismo.

Eliten graphicrecording.cool Queremos impulsionar o debate com uma tese: parece, a nosso ver, que existe uma narrativa da qual todos os populistas se servem. Segundo eles, o Estado encontra-se nas mãos de uma elite arrogante, que pensa de maneira global e é em sua maioria urbana, e perdeu o contato com os cidadãos “normais”, não sendo capaz, portanto, de compreender as preocupações diárias do “povo”. Eles, contudo, os próprios populistas, dizem não pertencer a essa suposta eleite e seriam os únicos a compreender, articular abertamente e levar a sério os temores dos cidadãos. Nos países onde os populistas já subiram ao poder, como por exemplo na Hungria e nos EUA, a narrativa vem sendo levemente modificada: ali, os “reais interesses” do povo precisam ser defendidos contra a oposição, e sobretudo contra as instituições internacionais, como a União Europeia e a ONU.

Tais narrativas são interessantes por diversas razões. Em primeiro lugar, porque muitos dos líderes populistas não têm suas origens, nem de longe, no que se costuma chamar de povo. Christoph Blocher, por exemplo, que simboliza o populismo de direita na Suíça, apresenta-se como um homem simples, supostamente quase camponês, como se pertencesse à população menos abastada. No entanto, na realidade, ele é um empresário do setor químico e dispõe de um patrimônio de mais de 10 bilhões de euros. Donald Trump e Silvio Berlusconi são outros exemplos conhecidos. E por que esses homens conseguem convencer que são próximos do povo, conhecem as preocupações das pessoas simples, levando-as de fato a sério?

Em segundo lugar: os populistas se autoproclamam pessoas que abrem a boca sobre assuntos que uma “maioria silenciosa” pensa. E alegam representar os verdadeiros interesses do povo. Mas eles fazem isso mesmo? Ou será que manipulam o povo de maneira absolutamente pérfida? As opiniões e os interesses de uma maioria são realmente oprimidos por uma elite e pela ditadura do politicamente correto? Não sendo assim: como é possível que essa narrativa seja tão eficaz?

E, por fim, em terceiro lugar: procede a tese de que existe uma elite política arrogante, uma “classe política” em si? Em que países ela tem validade e em quais não? Nós, participantes deste debate, pertencemos a essa elite e somos, portanto, parte do problema? Ou será que, diante da complexidade do mundo e das decisões políticas, não é imprescindível a existência de uma elite? Essa elite exerce de fato um terrorismo moral e proíbe pensamentos? Ou a discrepância entre uma elite política e o povo é, em geral, a consequência inevitável do fato de contextos políticos só serem dificilmente mediáveis em um mundo globalizado?

Quem vai pegar a bola e responder, em um ensaio, a nossas perguntas, relatando sobre as condições políticas em seu país?

Cordialmente,
Michael e Jonas


 

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