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16.05.2019 | Yvonne Adhiambo Owuor​
Tudo está interconectado. Nada é mais conectado que o passado com o presente.

Yvonne Adhiambo Owuor Foto: Marco Giugliarelli

Caros amigos,


Posso lhes responder em duas partes? A primeira é uma análise geral do território figurativo; a segunda é um pouco mais íntima e, entre os dois textos, existem mais perguntas que respostas. Primeiro, uma confissão sobre a posição de onde analiso esse tema. Em uma palavra: com Schadenfreude, a alegria com a desgraça alheia.

Por quê?
Pelo fato de eu ser uma criatura vinda de uma daquelas alteridades imaginadas pelo mundo pós-iluminista, lugares cujas reais narrativas de existência e significado têm sido reescritas e, depois, persistentemente reformuladas em outros cantos com uma gramática que lhes foi imposta. ​Lugares cujas experiências de vida são tratadas como “exóticas” ou “absurdas”; cujas experiências com aquilo que é conhecido como “populismo” são desconsideradas como aberrações humanas, em vez de serem vistas como sinais daquilo que pode se desenrolar em qualquer sociedade, em qualquer tempo. Lugares cujas populações vêm, por tempo demais, tolerando incessantes pregações, sobretudo de missionários seculares europeus ou norte-americanos que expõem os méritos de uma trindade secular formada por “democracia”, “direitos humanos” e “Estado de direito”. E que têm testemunhado, em fútil e furioso desamparo, como essa trindade nada santíssima tem sido levada com brutalidade por pregadores similares a lugares como Iraque, Líbia ou Afeganistão, causando, sem nenhum senso de ironia, a morte de milhões de pessoas. Ou seja, como venho desse tipo de lugar, não me surpreendo nem um pouco com a variedade de resistências humanas que emergem contra o que um dia já foi compreendido como “normal” e “progressista” na ordem mundial.  

Alles ist verbunden graphicrecording.cool Deve haver algum filósofo/teólogo capaz de confirmar que há um limite para a quantidade de hipocrisia que o espírito humano é capaz de suportar antes de procurar uma saída através de quem quer que seja que prometa um novo caminho.
 
Enfim, agora sobre o tema: o populismo.
 
Para começar, por que estamos aqui? Não, não “nós”, essa etérea comunidade digital de ideias, mas Nós, como espécie humana? Sim, estou sendo um pouco ontológica com vocês. Para compor coisas, me deixem “fazer” axiologia: o que valorizamos? O que consideramos melhor? Também, quando digo “nós”, estou presumindo que todos “nós” sentimos, percebemos, pensamos da mesma forma sobre valores particulares, princípios e ideais?  E aqueles, entre nós, que se alinham mais e mais a noções sobre e de “pluriversalidade” (propostas por pessoas do tipo de Franz Hinkelammert, Enrique Dussel, Raymundo Pannikar e, claro, Walter Mignolo; em essência, uma noção que nega a ideia de um pretenso “universal”)? Deveria a atual preocupação que uma porção do nosso pluriverso demonstra com o “populismo” nos preocupar? Por que nos preocuparmos com o que, em toda medida e propósito, é meramente um entre tantos fenômenos perturbadores que caracterizam esta era aparentemente apocalíptica? O presente mal-estar sobre o populismo é justificado, dado o fato de que ele, afinal, certamente não é alheio à experiência humana coletiva? O que, exatamente, reside no coração do desconforto da alma coletiva? O medo do retorno e do avanço de um fantasma familiar, ou o luto reprimido diante da perda de pressupostas certezas?
 

A maneira mais rápida de subir como político, me parece, é torcer o nariz para o politicamente correto

Yvonne Adhiambo Owuor


O populismo, no entendimento popular, presume entre outras coisas que, em algum momento, algum demagogo subirá em um palanque para gritar em nome do povo, principalmente coisas que costumavam ser consideradas ilícitas. Esse “grito” é um tema por si e requer ser examinado à parte. Parece que a forma mais rápida de subir como político, mesmo na Europa e nos Estados Unidos, é torcer o nariz para os diversos dogmas e cânones do politicamente correto.
 
A gente se pergunta se parte da expansão do que hoje é percebido na imprensa liberal como uma chaga se deve à não existência de fóruns nos quais se possa falar diretamente, e sem um julgamento antecipado do caráter de uma inquietação geral. É mais simples se juntar às multidões que declaram sua paixão pela “democracia” do que admitir um desejo interno de ter um caudilho como soberano, particularmente quando aquele que acalenta esse desejo em seu coração é também um intelectual.   
 
 
Como andarilha africana que se aventura em diferentes espaços do encontro humano, aparentemente inofensiva e que não intervém em briga alheia, tenho sido capaz de experimentar algumas máscaras públicas caindo em cenários íntimos. Há dois anos, compartilhei uma refeição com um biólogo evolucionista que mais tarde admitiu, em tom sarcástico, ter votado no sr. Donald John Trump, e desejar uma longa vida ao 45º presidente dos Estados Unidos. Essa pessoa jamais teria podido declarar isso em público, nem teria se sentido segura falando isso a seus pares. Ela sabe que seria difamada, rotulada, depreciada antes de perder o emprego. O vapor acumulado vai encontrar uma saída, mesmo que seja provocando uma terrível explosão, certo? Outra questão se coloca então: essas coisas sinalizam  uma limitação do conceito de “democracia”? Ou são as verdadeiras sementes de uma rebelião contra as restrições que leva so populismo (ou etnochauvinismo, ou etnonacionalismo, ou tribalismo)?
 

Tudo está interconectado. E nada é mais ligado e conectado que o passado com o presente

Yvonne Adhiambo Owuor


Além do título, além de seus sinônimos, o que espreita como uma questão perturbadora no espírito humano coletivo? O que apavora os humanos a ponto de fazê-los dar a falsos profetas não apenas ouvidos, mas também um voto? O que uma sociedade que está desconfortável com o populismo oferece como contranarrativa/epistemologia potente e inspiradora o suficiente para dissipar essa energia? E, na avaliação dessas questões, há outra verdade que precisa ser trazida à luz: a verdade sobre o medo mais duradouro do ser humano, o medo do Outro. Esse medo que fez desta nossa elegante Terra um abismo. O escopo restrito desta carta não comporta o tipo de escavação necessário para se chegar ao núcleo, à raiz que alimenta a atual crise existencial.

O que hoje chamamos de populismo (etnochauvinismo, etnonacionalismo, tribalismo) não vem de algo etéreo, mas é o resultado de padrões de pensamento herdados

Yvonne Adhiambo Owuor



e da ideia de governança humana, e do contentamento e descontentamento com ela. Suas características diferem de contexto a contexto. Nas esferas anglo-americanas, as reações mais virulentas também coincidem com a afluência daqueles vistos como os “outros” que são, numa estranha repetição, sempre apresentados como grotescos. Mas por que é esse o caso? De que senso epistemológico emerge esse impulso? Identificando isso, será então possível abordar diretamente o “mal-estar” que gera o sintoma que conhecemos agora como “populismo”? Com que objetivo? Qual a melhor oferta disponível  capaz, por si só, de empolgar os melhores anseios daqueles que hoje procuram demagogos messiânicos para articular seus sonhos (pesadelos para outros)? Será isso possível?
 
Ainda assim, é fascinante ler como a intenção e o significado do populismo evoluíram mais rápido do que as promessas de um político queniano, desde que as raízes do populismo surgiram na Aliança de Fazendeiros do Kansas em maio de 1891. Sua existência foi comprometida por tribalistas/racistas/exclusivistas (quanto mais a coisa muda, mais ela permanece a mesma), tornando-o vulnerável a todos os tipos de apropriação em todos os tempos. Seus elementos centrais ainda são movidos pela insatisfação da população, pela percepção de desigualdades, pelo apelo aos medos não verbalizados das pessoas, pelo cansaço advindo da perda de "valores", pela forte sensação de que "o sistema está sendo manipulado", pelo medo do "outro" e pelo surgimento de um líder demagógico que traz a perspectiva de restauração/realização de um ideal.
 
Um amigo, o escritor Binyavanga Wainaina, estava sentado em um café em Nairóbi para criticar minha primeira versão do livro Dust (Poeira). Fui convocada a encontrá-lo imediatamente lá, depois que ele me ligou para dizer, sem rodeios, em tom severo: “Yvonne, isto é um lixo”. Entre as várias coisas que ele propôs para fazer fluir a história, para colocar o trabalho em ordem, havia esta (estou parafraseando completamente): Vá ao cerne da questão. Vá ao coração da palavra.  A palavra “besta” é mais eficaz e transmite melhor a verdade que você deseja expressar neste contexto do que a palavra “animal”. Autenticidade, enfatizou ele. E se você vai escrever sobre o abismo, pelo amor de Deus, pule, olhe ao redor e dê a ele seu nome mais verdadeiro: inferno. Então escreva os diabos sobre ele.

 
Há alguma coisa que envolve o léxico, alguma coisa que envolve as palavras que engessamos em torno de uma situação. Existe uma cautela na escolha da palavra que vai se referir a uma condição comum, existente em lugares diferentes: se isso ocorre em qualquer nação “sub”saariana, é "tribalismo". Se o cenário é o Leste Europeu, é  “etnonacionalismo”. Se é na Europa Ocidental ou nos Estados Unidos, é "populismo". Se é na Ásia, é frequentemente

“etnochauvinismo”, certo?
Por quê?
Com que finalidade?
O grotesco deve ser hierarquizado?

De quem é a culpa? Do ainda canonizado Charles Darwin – e seu Na origem das espécies por meio de seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida – e seus apóstolos?  Essa situação aborda a crise da humanidade que está no centro desta… manifestação? Um acordo sobre uma linguagem comum para lidar com o demônio compartilhado por todos mudaria alguma coisa para aqueles que desejam ter esperança e outros tipos de sonho?

A abordagem cirúrgica de aspectos da contradição por parte de Ágnes Heller atraiu minha atenção para questões do “linguajar” e aquilo que ele abre, fecha ou direciona.

“….Eu diria, de uma outra forma, que é um tipo de “refeudalização”. Esses partidos “etnonacionalistas” nem mesmo se propõem a amparar o “povo”, eles amparam a “nação”; eles se propõem a defender a nação contra todos os seus inimigos...” (Ágnes Heller, 2019)
 
Ditador. Tribalista. Etnochauvinista. Podemos conectar as dramáticas declarações antimexicanas e anti-islâmicas do sr. Trump às da cartilha de qualquer um dos mais vis demagogos locais. A coisa mais útil que se pode saber a respeito do grotesco é que ele desfigura a realidade e a humanidade exatamente da mesma forma, não importando onde se apresente no mundo. Agora estou ávida por palavras que cortem até o osso, não importa de quem seja o osso sob o microscópio, pois o ponto é que precisamos de um remédio, se é que isso é possível.
 
O que se entende agora, pelo menos a partir do grande banco de dados da história, é que, quando o populismo surge, ele é como um canário no poço de uma mina, indicando que está se aproximando a nuvem tóxica de uma grande crise existencial humana, normalmente não formulada, difusa e desarticulada. É essa densa sombra da crise existencial, a nomeação do mal-estar da alma/do coração, que agora requer uma completa gramática, para podermos ver que rotas de saída desse abismo estão realmente cravadas na veracidade (eufemismos, mesmo os mais convenientes, não vêm ao caso).   
 
Cordialmente,
 
Yvonne Adhiambo Owuor
 

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