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21.05.2019 | Michael Zichy
Esta é a características comum dos populistas: definir o que é o povo. Quem é cidadão? E quem não é?

Michael Zichy Foto: Herbert Rohrer, Wildbild

Caras amigas e amigos,

Jonas e eu resolvemos reagir individualmente às cartas de Ágnes e Yvonne, a fim de tornar o debate mais polifônico do que ele já é.

Victor Orbán é considerado um exemplo típico de populista. Para Ágnes, isso é muito inexato. A fim de tornar essa classificação mais precisa, ela recorre a uma importante distinção conceitual e a uma caracterização mais detalhada: ela diferencia entre populistas genuínos, que têm de fato o bem-estar do povo em mente, e aqueles movimentos que só fingem fazer isso. A esta segunda vertente, que poderia ser chamada de pseudopopulista, pertence a política levada a cabo por Victor Orbán na Hungria. Ágnes descreve sua política como entnonacionalista, porque ela se volta para o bem de uma nação – entendida como comunidade autóctone da Hungria – e não para o bem do povo que de fato vive no país. Ou seja, todas as pessoas que vivem hoje na Hungria, mas não são originariamente de lá – os judeus, os membros da etnia rom e naturalmente todos os refugiados – não são, sob esse ponto de vista, considerados húngaros. Consequentemente, as preocupações de Orbán não se estendem a eles, a quem considera, pelo contrário, um perigo para os húngaros autênticos.

Gostaria de atrelar meus primeiros pensamentos de questionamento a essa distinção conceitual. Essa diferenciação entre populistas de verdade e pseudopopulistas é consistente? Há de se lembrar que é característica comum de todos os populistas o desejo de definir o que é, na verdade, “o povo”. As definições podem variar e, de acordo com elas, poderíamos também diferenciar entre diversas formas de populismo. Outra característica comum a todos os populistas é querer representar sozinhos os interesses verdadeiros de um povo que eles definem de uma determinada maneira. Por essa razão é que os populistas alegam ser os defensores únicos e legítimos do povo. Observando a política populista com um olhar sóbrio, é preciso, contudo, concluir que isso é justamente o que eles não são. Teoricamente, seria até possível existir um populismo que tem de fato em mente os interesses do povo – e Ágnes afirma que até já houve esse tipo de populista. Eu, contudo, acho isso bastante improvável, sobretudo por razões estruturais.

A estratégia dos populistas é apostar em mensagens simples, bem como em emoções fortes e sobretudo negativas










Isso fica claro quando se observa como a política populista gera no povo a impressão de que está de fato representando seus reais interesses. A estratégia dos populistas está calcada na ideia de não somente falar uma língua próxima daquela do povo, mas também de apostar em mensagens simples, bem como em emoções fortes e sobretudo negativas. É só assim que eles conseguem fazer ferver o sangue do povo e assegurar sua aprovação. Mas é óbvio que os chavões e receitas simples que os populistas propagam não correspondem de forma alguma à complexidade da realidade. Ou seja, os populistas não têm nenhuma alternativa exceto, mais cedo ou mais tarde, trair os interesses do povo.

Os próprios populistas ou não sabem disso (neste caso, até são honestos, mas são burros), ou sabem exatamente (aí são inteligentes, mas desonestos). Acredito mais na segunda alternativa: eles têm em mente determinados interesses – uma agenda política inviável de ser aprovada por uma maioria, a manutenção no poder, o enriquecimento individual – e usam o povo como veículo para fazer valer seus interesses. Como Orbán: é possível que ele também cumpra uma agenda política mais profunda da qual tem plena convicção, mas, em primeira linha, tudo serve a seu populismo e a seu narcisismo, à manutenção no poder e à oligarquia dos, como diz Ágnes, “novos ricos”. Orbán erigiu na Hungria uma cleptocracia, na qual sua turma vem despudoradamente se enriquecendo às custas dos bens públicos. Em outras palavras: o povo está sendo feito de bobo.

Agora, uma política como essa só pode dar certo quando o povo é suscetível a se deixar fazer de bobo. E, assim, chegamos à conclusão de que a democracia, como sugerem Ágnes e Yvonne, não parece estar dando conta dos atuais desafios. A democracia depende de cidadãos autônomos, que conseguem refletir de maneira razoavelmente racional sobre seus interesses, entendendo, avaliando e podendo eventualmente defender ou descartar as respectivas decisões políticas. Mas (ainda) existe esse tipo de cidadão? O povo (ou pelo menos uma parte não pouco representativa dele) não é simplesmente burro demais?

Falta a uma geração que cresceu em tempos de paz e nunca teve que lutar pela sua liberdade a experiência de saber a que o populismo pode conduzir?











Ou – o que mais me parece ser o caso – será que o mundo e os contextos políticos se tornaram tão acelerados, tão complexos e tão confusos, que a maioria das pessoas, que no fim das contas só quer dar conta de suas próprias vidas, está irremediavelmente sobrecarregada? As expectativas geradas pela política não foram demasiado altas, de forma que só poderiam mesmo levar à decepção e à frustração? E, por fim, será que não falta a uma geração que cresceu em tempos de paz e nunca teve que lutar por sua liberdade a experiência de saber a que o populismo pode conduzir, bem como a experiência do sofrimento e da guerra, de forma que ela nem consegue mais imaginar o pior, nem enxergar o perigo ao qual leva a política populista?
 
A questão a respeito da crise da democracia e das razões do populismo me leva ao texto de Yvonne, que interpreto como complicado. Em parte, por ser de difícil compreensão; em parte, porque ele às vezes me parece contraditório; em parte, porque ele me parece transmitir um pressentimento subjacente, permeado pelo medo e ao mesmo tempo furioso sobre o fim atroz que tudo isso terá; e, em parte, porque ele toca em coisas dolorosas. É doloroso e ao mesmo tempo absolutamente necessário que Yvonne questione aquilo que se vê como indiscutível quando nos lembra que o debate em torno do populismo que levamos aqui a cabo é profundamente marcado pela visão ocidental, que até hoje ainda parte, de maneira totalmente isenta de reflexão, da ideia de que o modelo do Ocidente é o modelo para o mundo.

Tal postura torna as experiências feitas em outros lugares do mundo irrelevantes, ou na melhor das hipóteses secundárias. Mas o que mudaria em nossa avaliação, se não tomássemos a democracia liberal como norma, mas sim o populismo? Se não considerássemos o Ocidente, mas sim o resto do mundo, como norma? O que aconteceria, se a concepção ocidental do indivíduo racional e autodeterminado fosse de fato uma forma de existência muito cansativa e nada desejada pela maioria, além de, para muitos, não ser mesmo praticável? Então o poder de atração do populismo estaria em sua maior proximidade com a natureza do ser humano, porque ele corresponderia melhor ao “desejo interno” de liderança, como coloca Yvonne.

Das Volk graphicrecording.cool E talvez a ira do povo contra a elite resulte exatamente disto: do fato de que a elite, que se coloca como sendo dona do seu destino, racional e bem-sucedida, se encena como modelo de comportamento que para muita gente nunca vai ser atingível nem mesmo praticável ou nem mesmo desejável. Sobretudo considerando que esse exemplo muitas vezes evidencia-se como uma quimera, visto que a elite, não raramente, prefere tomar vinho em vez da água que prega beber. O populismo seria na mesma medida a expressão da frustração, de um lado, de ter sido enganado pela elite com suas altas e vazias ambições; e, por outro lado, do desejo de que os políticos peguem as rédeas e assumam a responsabilidade, sendo, enfim, aqueles que tomam decisões necessárias – doa a quem doer. O populismo seria, portanto, a expressão do desejo de um paternalismo que liberta os cidadãos de sua responsabilidade, de sua tensão excessiva e de sua impotência.

Assim, chego ao segundo ponto que me causa dor: o deleite totalmente aberto que Yvonne assume com a desgraça alheia, com a chegada, enfim, do momento em que o Ocidente hipócrita tropeça pela primeira vez naquilo que é tido em toda parte como normalidade, tendo seus sublimes ideais sendo massacrados pela realidade. Seria de fato possível interpretar desta forma: o populismo pode também ser entendido como uma resposta ao fato de que o Ocidente traiu seus ideais, de que estes são ocos e insignificantes. Por mais compreensível que seja a reação de prazer com a desgraça alheia no que diz respeito ao cambalear do Ocidente, ela dói assim mesmo.

Pois os ideais que o Ocidente estabelece como seus e que ele – naturalmente, quem iria negar – muitas vezes traiu, trai e continuará traindo, não podem ser responsabilizados pelas traições cometidas em seus nomes. É possível se regozijar com o declínio do Ocidente, mas será mesmo possível se alegrar de verdade com o declínio desses ideais? A democracia, o Estado de direito e sobretudo os direitos humanos não são de fato valores a serem resguardados? Mesmo o pluriversalismo mencionado por Yvonne (que é baseado, no fim das contas, no reconhecimento máximo da alteridade de cada um, dando a ele espaço) não sobrevive sem a ideia do respeito pelo outro e pelo seu direito de viver sua vida com liberdade: ele não sobrevive sem a ideia dos direitos humanos fundamentais.

 

A razão das revoltas atuais está em um medo profundo do futuro








Gostaria de extrair um terceiro e último ponto do texto de Yvonne. Em passagens esparsas, encontram-se depoimentos sobre as razões que levam ao populismo: a falsidade do Ocidente, que deixa entrever “seu desejo interno de ter um caudilho como soberano”; a “pressão acumulada”, também em função de um politicamente correto que censura, que proíbe poder dizer o que de fato se quer; e, por fim, “o medo mais duradouro do ser humano, o medo do Outro”.

Acredito que as causas possam ser apontadas com mais precisão: a razão das atuais revoltas está em um medo profundo do futuro, em uma sensação de desorientação e sobrecarga, e em uma ira impotente frente a políticos incapazes de mudar algo nesse contexto (e que, de acordo com a incômoda suspeita, só querem saber de tirar proveito para si próprios). Resumindo: está na sensação alienante de ter sido deixado sozinho no mundo e não estar mais em casa. Uma convergência de fatores diversos é responsável por esse estado. Cada um desses fatores já seria perigoso o suficiente, mas a conjunção deles gera uma mistura altamente explosiva. Sem achar que poderia abarcar tudo, gostaria de enumerar sete desses fatores:

Aí está, como uma espécie de moldura da política global, entoando a melodia elementar ameaçadora, a instabilidade política global depois da derrocada da Cortina de Ferro. Se pouco depois da Guerra Fria tudo parecia cor-de-rosa para o Ocidente, de tal forma que começaram até a fabular sobre o “fim da história” (Francis Fukuyama), hoje a luta pela hegemonia política do mundo está outra vez em curso.

Aí está, já muito mais real para as pessoas, o novo terrorismo, que subitamente ameaça por todos os lados.

Aí está a globalização e – em seu rastro – a crise econômica mundial, que arruina a existência de muitas pessoas, coloca em perigo a de outras tantas e prejudica a confiança de quase todo mundo na política (especialmente porque a maioria das pessoas acredita que os bancos, responsáveis pela crise, foram salvos e seus executivos poupados de qualquer punição).

Aí estão os movimentos migratórios globais e – isso atinge acima de tudo a Europa – a crise dos refugiados, que geram insegurança, fazendo parecer que o estilo de vida habitual pode ser posto em risco, levando, no continente europeu, a uma perda da confiança nos políticos. Pois muitos temem que a classe política não saberá proteger o povo de uma entrada descontrolada de imigrantes.

Aí estão as novas mídias com seu potencial enorme de manipulação, contra os quais ainda não se desenvolveu nenhuma conduta responsável.

Aí estão as novas tecnologias como a robótica, a inteligência artificial, a automação, a manipulação genética etc., com seus passos que quase ninguém consegue acompanhar, mas que irão transformar essencialmente nossas vidas.

E aí estão a provavelmente maior ameaça de longo prazo: as mudanças climáticas e o colapso ecológico.

A pressão gerada por todas essas ameaças exige, como diz Yvonne, uma válvula de escape. Uma que sempre funcionou maravilhosamente bem é o bode expiatório: os outros que falam outra língua, os que têm outra cor de pele, os que agem de forma distinta e usam roupas diferentes, os que são de algum jeito perceptíveis como diferentes. Os refugiados, os judeus, os americanos, os negros, os brancos, a elite, os outros de qualquer espécie: eles são os culpados de tudo. E aí o medo desorientado transforma-se em pavor focado, a raiva impotente transforma-se em ódio concentrado. E surge daí um alívio, porque o inimigo foi identificado e as reais ameaças esquecidas: esse é um mecanismo antiquíssimo ao qual o ser humano recorre. E essa é a real e primitiva receita do populismo.

 
Cordialmente,

Michael

 

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