Acesso rápido:
Ir diretamente ao contéudo (Alt 1)Ir diretamente à navegação secundária (Alt 3)Ir diretamente à navegação principal (Alt 2)

Youssef Rakha sobre a morte de Ágnes Heller
Ágnes Heller – um legado de inspiração

Agnes Heller
Agnes Heller | Foto: Robert Newald; © picture alliance/APA/picturedesk.com

Apesar de nunca ter ouvido falar de Ágnes Heller antes do lançamento de Espíritos do tempo, um diálogo transnacional sobre populismo promovido pelo Goethe-Institut desde maio de 2019, o romancista e poeta egípcio Youssef Rakha sentiu de imediato uma forte conexão com a filósofa húngara em função de seus ensaios incisivos e que levam à reflexão. Por ocasião da morte de Heller, Youssef presta sua homenagem pessoal.

Por Youssef Rakha

É embaraçoso dizer, mas eu nunca tinha ouvido falar de Ágnes Heller antes de Jonas Lüscher me alertar sobre ela quando me convidou, há aproximadamente um ano, para participar desse colóquio. Na condição de filho de um pai vagamente marxista, eu, no entanto, conhecia György Lukács – ídolo patrilinear de alguma importância (não que eu consiga pronunciar seu nome agora!) Sendo assim, integrar a mesma equipe que a melhor aluna de Lukács 19 anos depois da morte do meu pai me fez sentir um orgulho estranhamente pungente. Mais de uma vez me ocorreu que encontrar Ágnes – um privilégio que afinal, não tive a sorte de ter – seria como travar conhecimento com o século 20 em pessoa. Seria como, e isso é ainda maior, encontrar o século 20 no melhor que a Europa produziu.

Mais tarde, antes de ler suas concisas, objetivas e (como Jonas e Michael apontaram em seu obituário) admiravelmente juvenis contribuições para nossa conversa, me deparei com essa citação dela na Wikipedia a respeito de ter tido sua vida prejudicada primeiro pelos nazistas e depois por regimes comunistas totalitários: “Tive então que descobrir o que significa moralidade e qual a natureza do bem e do mal. O que posso fazer com relação ao crime e o que posso descobrir sobre as fontes da moralidade e do mal? Essa foi a primeira investigação. A outra dizia respeito a uma questão social: Que tipo de mundo pode produzir isso? Que tipo de mundo permite que essas coisas aconteçam? Que Modernidade é essa? Podemos esperar redenção?” E, profundamente tomado por um sentimento de humildade diante da vida surpreendente dessa mulher e de seu trabalho essencial, imediatamente me senti intimamente conectado a uma mente com a qual eu parecia ter pouco em comum, porque acredito que meu trabalho seja guiado pelas últimas duas questões tanto quanto por quaisquer outras: “Que  Modernidade é essa? Podemos esperar redenção?”

Meu senso de afinidade e gratidão foi crescendo na medida em que fui me envolvendo com os ensaios curtos de Heller. Embora simples e diretos na superfície, eles refletiam claramente uma compreensão plena do cerne das questões político-filosóficas sobre as quais estávamos conversando de maneira nunca vista por mim antes. Foi reconfortante ver que meu entendimento tenso da democracia, tão diferente da compreensão predominante no meio acadêmico, era compartilhada por alguém tão versada em teoria política. E, sem suas duas observações – sobre o fato de que os populistas (ou os   etnonacionalistas, como ela os chamava) foram eleitos democraticamente; e a constatação de que o que entendemos por democracia requer uma “elite cultural” com “desempenho espiritual” – eu jamais poderia ter estruturado meu ensaio sobre o Egito ou articulado minhas preocupações.

É certamente triste termos perdido Ágnes Heller, mas a tristeza é atenuada pela certeza de que ela teve a vida mais interessante e significativa que qualquer um de nós poderia desejar. E também pela certeza de que suas palavras vão permanecer como fonte de inspiração e conforto não só para uma ampla “república global das ideias”, mas – de uma forma específica e direta que quase me orgulha – para esse pequeno grupo de amigos que não chegou a se conhecer.
 

Top