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09.09.2019 | Maria Stepanova
A classe intelectual falhou em oferecer uma alternativa no Estado movido pelo ressentimento?

Maria Stepanova Foto: Gleb Morev


Caras amigas, caros amigos,
 
Entre os livros russos mais importantes do século 20 está uma conversa entre o poeta e dramaturgo Viacheslav Ivanovich Ivanov e o crítico literário e ensaísta Mikhail Osipovich Gershenzon, publicada em 1921 sob o título Correspondência entre dois cantos da sala. No nosso caso, a conversa é travada entre diferentes cantos do mapa-múndi, o que torna tudo mais atraente ainda. Talvez a coisa mais interessante nisso tudo seja que a conversa, consideradas todas as diferenças, parece ter um denominador comum: uma certa atmosfera elementar de desesperança. Parece onipresente a sensação de que os velhos processos não funcionam mais, as previsões não são confirmadas, os remédios não surtem efeito. Nossa conversa acontece num contexto de deslocamento cultural profundo, que muda todos os contornos do presente e, inevitavelmente, também nossa linguagem.
 
Em seu brilhante ensaio De várias formas eles são atores novos, mas são populistas?, Ágnes Heller questiona o ponto de partida da nossa discussão: o conceito de “populismo”. Ela sugere trabalharmos com o termo “etnonacionalismo” em substituição a populismo, mas esse termo, embora vá direto ao cerne do regime de Viktor Orbán, abrange apenas parcialmente o que acontece nos Estados Unidos de Trump ou na Rússia de Putin. Mas será que existe um conceito universal possível de ser aplicado a todos os países infectados com o vírus da guinada à direita?
 
Das Wiederbeleben der Vergangenheit graphicrecording.cool Talvez valha a pena olhar mais de perto uma das singularidades desses países, que Youssef Rakha descreve (e que tem me preocupado desde que a retórica da era Putin tardia passou a se orientar de forma cada vez mais evidente por modelos soviéticos). O que quero dizer é que ocorre um certo saudosismo, uma imersão absorta no passado, do qual esses regimes extraem suas ideias e seu modus operandi, sua orientação estética e seus slogans. Um passado que é sempre não-histórico – uma fantasia que, sem cerimônia, descarta fatos para salvar o mito. E é justamente essa fantasia que cria a ideia de comunidade para o regime saudosista”: ela é o lugar onde se produz o consenso. Quando Putin fala da grandeza da União Soviética e da vida feliz dos cidadãos soviéticos, ele exclui todas as catástrofes da história soviética – e também seus ouvintes tendem seriamente a esquecer de tudo isso. Quando Trump evoca a grandeza perdida dos Estados Unidos da América, ele não acrescenta a que período histórico concreto ele pretende levar seus eleitores de volta: cabe a eles pintar um quadro reluzente a gosto.

Algo estranho está acontecendo diante dos nossos olhos: estamos cada vez mais nos deparando com uma política não em forma de um programa político, mas sim em forma de um determinado estilo. Um futuro modelado num passado fictício não tem que se preocupar com fatos ou com a realidade econômica e histórica. Mas a julgar pelo sucesso massivo dos regimes direitistas, isso parece não incomodar ninguém.
 

“Uma singularidade dos regimes populistas é o saudosismo, uma imersão absorta no passado, do qual esses regimes extraem suas ideias e seu modus operandi, sua orientação estética e seus slogans. Uma fantasia que, sem cerimônia, descarta fatos para salvar o mito.


 
Estamos vendo tudo isso acontecer tanto em países economicamente estáveis quanto naqueles que se encontram profundamente em crise (ou onde, como na Rússia, a economia parece relativamente estável, mas apenas para um reduzidíssimo grupo de pessoas que orbita em torno do poder e se beneficia dessa estabilidade). Segundo o esquema clássico descrito por Ágnes Heller, as promessas dos políticos populistas têm uma dimensão econômica concreta, e a popularidade de um regime depende do quanto ele consegue cumprir essas promessas. No entanto, no mundo real de hoje, tais promessas resultam em palavras vazias, e ainda assim isso não influencia a popularidade dos regimes de direita. Tem-se a impressão de que alguma outra coisa acontece entre os populistas e seus eleitores, algo que, na melhor das hipóteses, assume contornos democráticos apenas aparentemente. Cada vez mais tudo isso me parece um ritual muito antigo, uma espécie de pacto entre senhores feudais e vassalos. O povo jura simbolicamente sua lealdade e recebe, em troca, a promessa igualmente imaterial de segurança, estabilidade e proteção contra eventuais mudanças. O medo do novo e do desconhecido é mais forte que o descontentamento com o agora. Não importa como tenha sido a ordem anteriormente estabelecida, a predileção por ela em detrimento do presente é justificável, porque essa ordem é conhecida e entendida. Não é acaso, portanto, que os regimes de direita encontrem sua retaguarda entre aqueles que têm dificuldades para encontrar seu lugar na complexidade do presente: aqueles cujos empregos estão sendo ameaçados, os que não conseguem acompanhar as novas linhas morais, os que se sentem supérfluos e não mais respeitados por aqueles que os cercam. Esses têm saudade do passado.   
 
Ressentiment und neue Heros graphicrecording.cool Talvez a chave para entender os vários regimes que se aproveitam da maré de direita seja o ressentimento: eles se apoiam naqueles que se veem como vítimas das mudanças e dos deslocamentos dos últimos 20 ou 30 anos, e que querem a qualquer custo chamar a atenção para si próprios e seus direitos. Cada vez mais a ênfase recai sobre o simbólico: os eleitores de Putin e Erdoğan dão a entender que estão dispostos a sacrifícios reais em nome de conquistas imateriais. Quando o Ocidente impôs sanções econômicas à Rússia, depois da anexação da Crimeia, os apoiadores da política de Putin disseram que há coisas mais importantes: “Então a gente aperta mais o cinto”. O Estado do ressentimento reforça a sensação que os cidadãos têm da sua própria importância, e para isso eles estão dispostos a fazer sacrifícios. Tudo isso demonstra, eu temo, que a classe intelectual à qual nós, participantes desta conversa, pertencemos, falhou em lhes oferecer uma alternativa em tempo hábil. 
 
A vitória de Trump nas urnas, em 2016, foi vista como um caso extremo de voto de protesto, como resultado de um descontentamento com as elites dominantes – descontentamento esse que havia passado despercebido por um tempo longo demais. Esse julgamento valia (e ainda vale, nas vésperas da próxima eleição nos EUA) provavelmente não apenas para a elite política. Os intelectuais também perderam muito de sua autoridade, e esse caminho ainda não terminou. Não é à toa que boa parte dos ataques diários de Trump sejam direcionados à mídia séria e a intelectuais reverenciados pela opinião pública estadunidense. Ele sabe muito bem que conquista novos seguidores, com seu desprezo explícito pelo discurso prevalente. Ao contrário de regimes totalitários do passado, o Estado construído sobre o ressentimento não tem nenhum interesse em conquistar intelectuais – e não apenas por não precisar deles. A arma mais poderosa do ressentimento é desacreditar o sistema reconhecido de valores, e isso diz respeito, em primeira linha, a determinados valores simbólicos. 
 
Para Ágnes Heller, “não há democracia sem uma elite cultural, essencialmente diferente da elite política ou de negócios. Com isso, me refiro às pessoas que são respeitadas e imitadas tanto por sua habilidade intelectual quanto por sua responsabilidade social. Uma sociedade na qual as pessoas mais respeitadas são as abastadas e bem-sucedidas, sejam elas políticos, executivos ou artistas de cinema, vai se tornar uma mera sociedade de massa sem substância”.

Essas são frases maravilhosas – mesmo considerando todo o desconforto que o conceito “elite”, e qualquer outra expressão capaz de polarizar, desencadeia em mim. Só temo que essa elite não exista mais na situação presente: aquelas figuras de consenso que representavam todo o universo da cultura estão se tornando cada vez mais raras. E mesmo presumindo que a comunidade de intelectuais que são respeitados não apenas por suas habilidades profissionais, mas também por suas virtudes cívicas, ainda tenha algum peso, a sociedade do ressentimento fará qualquer coisa a seu alcance para contestar seu direito de falar. A esfera cultural, com sua tendência para o radicalismo, é o alvo ideal para aqueles que se sentem perseguidos, desconsiderados e injustamente marginalizados. Para todos os outros, ela já perdeu há tempos seus contornos habituais.  

 No ano passado, o Colta.ru, um portal online independente que coordeno há uns bons dez anos, realizou uma enquete de larga escala. Isso já se tornou tradição: desde que começamos, temos feito um ranking de intelectuais conhecidos na Rússia, em termos de importância para nossos leitores. E essa lista é atualizada de tempos em tempos. Diante da situação social atual, na qual questões morais polêmicas têm uma importância crucial, achamos interessante mudar um pouco as regras da enquete: dessa vez, perguntamos a nossas leitoras e nossos leitores que personalidade da vida pública eles consideram uma autoridade moral, que seja “respeitada e sirva de exemplo tanto por seus méritos intelectuais quanto por seu senso de responsabilidade social”. Queríamos detectar se essas personalidades ainda existem na Rússia de hoje e, caso existam, quem poderia corresponder a essa descrição. Depois de várias semanas de discussão intensa, avaliamos, finalmente, os resultados da enquete, da qual mais de 84 mil pessoas participaram. As seis “autoridades morais” mais votadas foram: dois blogueiros que fazem vídeos populares entre os jovens russos, um empresário de TI, o político de oposição Alexei Navalny, o jornalista de TV Leonid Parfyonov e… Vladimir Putin.


Reality Check graphicrecording.cool Uma piada, alguém poderia pensar, não tivéssemos uma nova realidade por trás desse resultado. Na sociedade em que vivemos, não há mais uma diferença fundamental entre políticos e jornalistas, blogueiros são mais importantes que Putin e o conceito de “autoridade moral” significa algo muito diferente do que significava há 20 anos. Nesse mundo, a atenção dos leitores não é estruturada por hierarquias estáveis, ela oferece espaço para tudo e todos – mas esse espaço precisa ser continuamente reconquistado. É difícil dizer se a cena cultural, seja na Rússia ou em qualquer outro lugar do mundo, está preparada para isso, mas me parece que seria uma tarefa interessante aprender a viver e trabalhar dentro dessa nova realidade. 

 
Se eu tivesse escrito este ensaio há apenas algumas semanas, ele seria provavelmente muito mais sombrio. A Rússia teve seu momento de grandes esperanças em 2012: naquela época, muitas pessoas acreditavam (entre elas, eu) que o país tinha entendido que estava em um beco sem saída, e que o desvio era muito simples: bastaria articular em alto e bom som as próprias expectativas e reivindicações. A Rússia, com sua forma suave de ditadura, parecia atolada em estagnação, e a minha geração mal podia esperar para voltar à história. Esse desejo tornou-se realidade, mas da pior forma que se possa imaginar. Podemos debater longamente se o resultado de tudo isso pode ser descrito como um Estado autoritário, populista ou guiado pelo ressentimento, mas não há como negar que nossa ditadura branda se tornou mais dura. Com as consequências que conhecemos: a anexação da Crimeia, a guerra na Ucrânia, os julgamentos políticos, o ataque à mídia independente, às leis direcionadas à comunidade LGBTQ, as guerras da informação. E há ainda outra consequência: uma apatia profunda, que absorveu todos os que, até há pouco, sonhavam em ressuscitar a vida política na Rússia. No decorrer dos últimos sete anos, os protestos em Moscou mal mobilizaram cinco ou seis mil pessoas. Os manifestantes se conheciam de vista, quando não pelo nome. As autoridades nem chegavam a fazer algum esforço para proibir essas manifestações – afinal, elas serviam para demonstrar que não havia alternativa ao regime dominante.

 
Mas na manifestação do 10 de agosto de 2019, estiveram em Moscou, segundo as estimativas mais modestas, em torno de 60 mil participantes – e isso no auge do verão, em meio ao período de férias.  O motivo da manifestação foi um acontecimento até banal para os parâmetros locais: irregularidades na inscrição das candidaturas para a eleição da Câmara Municipal de Moscou. Manipulações flagrantes, vergonhosas, mas previsíveis de votos não surpreendem mais ninguém na Rússia de hoje. Sendo assim, deve ter havido uma outra razão que levou as pessoas às ruas, embora seja difícil dizer qual foi ela. Há poucos meses, a oposição convocou a população de Moscou para um protesto contra um pacote de leis que efetivamente coloca um fim na internet livre na Rússia – uma questão que afeta todo mundo. Pouco mais de 6 mil pessoas participaram. O que mudou, portanto, desde então? Ainda não tenho uma resposta.

Mas acho que sei qual é a diferença entre os protestos recentes e aqueles de 2012. Não é possível se divertir com eles. No lugar de encontros leves com pessoas de pensamento político semelhante, slogans divertidos, cartazes espirituosos e uma atmosfera de celebração coletiva, surgiu algo completamente diferente. As pessoas que tomaram as ruas agora estão longe de demonstrar qualquer forma de alegria, e elas não se conhecem nem de vista: este movimento de protesto não tem líderes marcantes (todos aqueles que poderiam ter exercido esse papel foram presos antes do início da manifestação), nem um senso de comunidade. A única coisa que une esses manifestantes é uma espécie de determinação sombria. Há anos, os protestos ainda podiam ser apresentados como um conflito entre uma elite cultural, guiada por valores ocidentais, e o povo, que teria uma compreensão intuitiva do “caminho especial” da Rússia e, portanto, apoiaria a atual liderança política. Os manifestantes que se reuniram nas ruas de Moscou neste último 3 de agosto mal poderiam ser definidos com o rótulo de “inteligentsia”. Era uma multidão heterogênea, na qual, mesmo com esforço, era raro encontrar um rosto familiar – até porque os manifestantes eram bem mais jovens dessa vez. De fato, todos os observadores concordam que o mais impactante foi o grande número de jovens entre os manifestantes: estudantes secundaristas e universitários, mas também alguns adolescentes de menor idade. E igualmente importante foi a severidade sem precedentes com que as forças de segurança atuaram. Mais de mil pessoas foram detidas naquele dia, manifestantes pacíficos foram espancados, transeuntes casuais acabaram atrás das grades. Em 2012, uma abordagem muito semelhante levou a onda de protestos a acabar. Agora, em 2019, os moscovitas estão dispostos a pagar esse preço. Isso não é, contudo, suficiente para um otimismo mesmo que cauteloso. Embora sinalize a esperança de que o país talvez não queira viver num passado fictício e sim no presente. Espero que tenhamos algo a dizer a esse presente, quando ele despontar. 

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