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14.10.2020 | Naren Bedide 
A Índia é a pandemia

​A Índia está enfrentando o que talvez seja a maior crise de sua história. Naren Bedide descreve como um sistema de saúde pública dilapidado, o desemprego massivo, a arrogância política e, como se tudo isso já não bastasse, uma pandemia global, ameaçam fragmentar uma sociedade que nunca foi unida.

Naren Bedide Foto: Naren Bedide






Caros amigos, 

Uma reportagem publicada em uma importante revista indiana há alguns dias aponta que 78% dos pacientes afetados pela Covid tinham que usar suas ligações pessoais, ou algum tipo de influência, para obter um leito de UTI. Antes do coronavírus, mais de 80% de todas as despesas com saúde eram financiadas do próprio bolso: o que significa que não havia um sistema “público” de saúde que pudesse ser visto como tal. A partir de março de 2020, quaisquer instituições públicas de saúde que existiam foram tributadas de forma tão intensa que os pobres e desprivilegiados foram excluídos ainda mais do que antes.

Hope and Despair graphicrecording.cool O vírus fragmentou a Índia de outras maneiras também. Quando Maria fala em trabalhadores migrantes, e em como “mesmo antes da pandemia eles não tinham efetivamente direitos”, isso soa muito verdadeiro e ainda mais intenso na Índia. O confinamento deixou mais de 30% da força de trabalho da Índia inativa, espera-se que temporariamente. E essa é uma estimativa conservadora. Uma parte significativa desses desempregados é composta de trabalhadores migrantes interestaduais.

A maioria dessas pessoas tinha trabalhos informais, como é o caso de mais de 90% de todos os trabalhadores na Índia. Trata-se principalmente de diaristas sem benefícios, garantias ou quaisquer formas de segurança. De empregadas domésticas e cozinheiros a vários tipos de trabalhadores da construção civil e motoristas, porteiros, vigias, pintores, lapidadores de diamantes, garçons, trabalhadores rurais e um milhão de outros tipos de escravizados assalariados. Para eles, o confinamento significou pobreza, seca, enchentes, desemprego, fome, violência contra membros de castas inferiores e todos os outros tipos de desastres combinados e multiplicados muitas vezes.
 

“O confinamento deixou mais de 30% da força de trabalho da Índia inativa, espera-se que temporariamente.”


Sem trabalho, sem poupança e sem esperança no futuro imediato, muitos migrantes começaram a voltar para casa. Eles iam a pé, porque não havia outro meio de transporte: não havia ônibus, trens ou aviões (eles não poderiam pagar pelas passagens, de qualquer forma). E não importava se a casa estava a 500 ou a 1500 km de distância. Foi assim que a maior migração a pé conhecida da história da humanidade começou em março de 2020 e continuou até junho de 2020 (quando o governo central e os governos estaduais aprovaram a operação de alguns trens e ônibus). Nesse período, cerca de 20 a 40 milhões de pessoas optaram por caminhar, de acordo com várias estimativas.

É preciso reiterar que aquilo que aconteceu no verão indiano de 2020 – tantos milhões de pessoas migrando em tão pouco tempo – nunca havia ocorrido antes, exceto durante a Divisão da Índia, outra época de grande fragmentação no final da década de 1940, quando a migração envolveu cerca de 14 milhões de pessoas. A tragédia síria é um exemplo mais recente de tal fenômeno, mas, se essas estimativas forem verdadeiras, a pandemia levou ainda mais pessoas às estradas na Índia.

A diferença mais importante entre esse êxodo e outras migrações foi que essas pessoas não estavam saindo de casa, mas tentando chegar nela. O que significa que já tinham migrado uma vez, muitas delas fazendo isso todos os anos para o trabalho sazonal. Se há uma crise inevitável e um desastre por trás de cada migração, essas pessoas conheciam muito bem esses inimigos e tinham aprendido a viver com eles.

Os lugares onde vivem, as aldeias da Índia, sempre foram construídos em torno de uma ordem rígida que buscava controlar qualquer irrupção de individualidade. O sistema de castas divide todos em grupos (há quase 6 mil castas em toda a Índia, com 200-500 em cada estado da federação, em média) e os organiza em uma hierarquia com os brâmanes e os proprietários de terras no topo. Todos os recursos naturais, incluindo terra e água, são alocados de acordo com o grau do grupo específico, ou seja, a casta ou jati (que literalmente significa grupo baseado em nascimento).

Toda mobilidade social ascendente, através de casamento etc., é restrita pela imposição da endogamia, reforçada por diferenças de classe ou materiais – entre as castas mais altas e as castas mais baixas. A ideologia religiosa tecida em torno da pureza e da impureza também desempenha um papel importante para garantir tal status quo. Todo movimento lateral é igualmente restrito através dos velhos limites da endogamia, restringindo qualquer interação social substantiva.

Karl Marx falava em “estagnação”, enquanto Bhimrao Ramji Ambedkar, quase um século depois, referia-se a ela como uma “fossa”. Ambos aludiam à aldeia indiana e ambos apontavam que a mudança social era muito difícil ali. Na visão de Marx, o “acúmulo” era impossível naquelas condições, porque todos os excedentes eram desviados das aldeias (uma visão que mais tarde foi contestada até certo ponto). Ambedkar, por sua vez, apontava que a divisão do trabalho no sistema de castas não era apenas uma divisão funcional, mas sim, na realidade, uma “divisão da força de trabalho”, garantindo que todas as castas mais baixas não pudessem se unir em uma luta para derrubar as dominantes.
 

“Todos os recursos naturais, incluindo terra e água, são alocados de acordo com o grau do grupo específico, ou seja, a casta ou jati (que literalmente significa grupo baseado em nascimento).”


Agora, as migrações dos trabalhadores migrantes (de e para a aldeia) em 2020 oferecem mais uma vez uma comprovação da verdade contida nas observações afiadas que Marx fez há quase dois séculos, e também nas percepções de Ambedkar, datadas de quase um século.

Fortalecer a “imunidade” tornou-se um mantra na Índia e em todo o mundo nos últimos meses. Se estendermos um pouco essa ideia (de imunidade) para além do reino da saúde física e a aplicarmos no estudo da sociedade indiana, descobriremos que as ameaças a ela não são acidentais, como a pandemia. Sua capacidade de imunidade há muito tem tido seu vigor abalado pelo sistema de castas. A Índia é a pandemia, e o coronavírus só prejudica um pouco mais a saúde social dos subalternos, que é há tanto tempo precária.

Há quase cem anos, o dr. B. R. Ambedkar disse a Gandhi, que lutava pela independência dos britânicos: “Gandhiji, não tenho pátria”. Enquanto Gandhi representava as aspirações dos estratos superiores (castas mais altas, na verdade) da sociedade indiana, Ambedkar falava pelos “intocáveis” e pelas outras castas mais baixas que constituíam a maioria dos indianos.

Os migrantes que caminharam parecem ecoar muito enfaticamente as palavras de Ambedkar. Eles são apenas uma pequena mas significativa amostra de como a maioria das pessoas das castas mais baixas da Índia suporta suas vidas precárias e sitiadas. Em cem anos, a maioria não parece ter encontrado uma pátria em suas próprias aldeias. Há tanto nos escritos dos outros amigos neste debate que compõe um acorde e, ainda assim, parece haver muito mais coisas que não compõem um acorde.

Os migrantes não poderiam aumentar sua imunidade em casa, onde as próprias condições materiais das quais desfrutam não oferecem muito espaço para mudanças, mas eles tampouco poderiam alcançá-la em seus locais de trabalho nas cidades para além de um nível de subsistência. No entanto, o instinto migratório, por si só, representa um grande progresso em suas vidas. Assim, houve mudança e não houve ao mesmo tempo.

Em função disso, não compartilho totalmente da decepção de Michael com a democracia e com outros ideais do Ocidente. Foi a democracia, mesmo do tipo mais rudimentar, que desencadeou os impulsos de empoderamento e melhoria das condições de vida dos migrantes. Ter acesso a alguns serviços públicos, buscar a educação básica e oportunidades para melhorar suas vidas.

Überforderung graphicrecording.cool Se os ideais ocidentais da democracia e dos direitos humanos tivessem falhado, um indivíduo de casta mais baixa como eu não teria encontrado um fórum como este para me expressar. Mas sua promessa permanece em grande parte não cumprida. Daí as migrações, de casa e de volta para ela.

O debate em torno da democracia ignora o fato de que as classes dominantes não ocidentais, especialmente em países como a Índia, têm usado mais substancialmente as tecnologias do exercício do poder (que também nasceram no Ocidente) do que as classes mais baixas têm sido capazes de usar as ferramentas dos direitos.

Aqui, precisamos examinar a última grande forma pela qual a pandemia dividiu a Índia, novamente usando a estrutura do confinamento e suas consequentes migrações. Os migrantes eram principalmente dos estados do norte e do leste, enquanto seus locais de trabalho estavam nos estados do oeste e do sul. Estes últimos ofereciam oportunidades de trabalho por serem mais ricos, relativamente, e também ofereciam melhores salários e oportunidades econômicas. Por exemplo, em média, a renda per capita nos estados de destino era 3 a 6 vezes maior do que nos estados de origem dos trabalhadores migrantes. Como em outros lugares do mundo, a economia foi, em grande parte, responsável pelas migrações.

Mas havia outra diferença vital entre os estados de origem e os estados de destino, que não é inteiramente captada usando apenas padrões econômicos. Os estados de origem ficam para trás, significativamente, em todos os índices de desenvolvimento humano: alfabetização, saúde infantil e materna, proporção dos sexos etc. E os estados de destino eram todos mais urbanizados e industrializados. Acima de tudo, a principal diferença era a linguística: a maioria dos migrantes vinha de estados onde se fala originalmente o hindi, enquanto os estados de destino falavam várias línguas mais antigas. Línguas muito mais antigas, de fato, com culturas e histórias próprias, que se sobrepuseram de maneira limitada durante os Impérios Britânico, Mogol etc.

Portanto, os migrantes eram, em todos os sentidos, exceto o critério nominal de cidadania, tão refugiados quanto qualquer afegão no Paquistão ou somali no Iêmen. As diferenças culturais, socioeconômicas e históricas entre esses migrantes e as pessoas nos estados de destino e acolhimento são talvez maiores do que as que percebemos entre, digamos, a Síria e a Europa,  a Colômbia e os Estados Unidos etc.

Enquanto sua primeira migração, de casa para o estado de destino, foi motivada pela estagnação econômica agravada pela rigidez da casta, a migração inversa foi necessária pelo capitalismo ciente dos custos. Enquanto os governos estaduais e grupos da sociedade civil fizeram alguns esforços para fornecer um pouco de alívio aos trabalhadores migrantes, as diferenças culturais tornaram-se novamente o fator mais importante, impelindo a decisão dos refugiados de voltar para casa.

Protestos coletivos coordenados por parte desses migrantes exigindo seus direitos e desafiando seus empregadores irresponsáveis não eram viáveis, porque tais ações teriam exigido compreensão e assimilação de suas preocupações pela classe trabalhadora local. Como Ambedkar apontou, isso não acontece em uma sociedade de castas. Especialmente quando uma sociedade de castas em particular fala em uma língua própria com tom e lógica completamente diferentes da sociedade de castas em casa.

O que esta pandemia revelou é a total impotência dos bahujans indianos (maioria das castas mais baixas) em casa e nos estados de acolhimento. Sua capacidade de atrair e manter a atenção das estruturas governamentais, ou de influenciar  de qualquer forma significativa a ação social ou discurso, sempre foi limitada pelo sistema social tradicional baseado em castas, e isso em um nível pan-indiano, por falta de uma ampla unidade cultural.

Se os bahujans conseguissem afirmar seu direito na esfera da aldeia, suspendendo o sistema da castas, isso seria desfeito no nível distrital; se superassem mesmo esse desafio, seriam definitivamente rejeitados em nível estadual. Se passassem por essa etapa, o governo central (ou federal) trabalharia para restaurar a ordem social. Ou seja, pequenos sucessos para reorganizar o equilíbrio de poder (sempre em favor das castas dominantes, cuja força cresce a cada novo degrau na hierarquia da autoridade) em alguns lugares sempre teriam curta duração. É assim que a União Indiana funciona contra o sistema imunológico coletivo dos bahujans.

Lembramos novamente das palavras de Ambedkar:

“Os homens constituem uma sociedade porque têm coisas que possuem em comum. Ter coisas semelhantes é totalmente diferente de possuir coisas em comum. E a única maneira pela qual os homens podem vir a possuir coisas em comum uns com os outros é comunicando-se uns com os outros. Esta é apenas uma outra maneira de dizer que a sociedade continua a existir pela comunicação – na verdade, na comunicação. Para tornar isso concreto, não basta que os homens ajam de uma maneira que concorda com os atos dos outros. A atividade paralela, mesmo que semelhante, não é suficiente para unir os homens em uma sociedade.”

Indianas e indianos de diferentes regiões ou estados sempre se envolveram em atividades paralelas, muitas vezes diversas (agora contraditórias) e nunca compuseram uma sociedade. Dessa forma, os partidos nacionais, como o Partido do Congresso, sempre praticaram diferentes tipos de populismo em diferentes regiões, chamando isso de “unidade na diversidade”. Agora o BJP usurpou o manto deles e cancelou todos os pretextos de atender a diversas populações, insistindo que todos são hindus (incluindo muçulmanos, cristãos e sikhs), ou deveriam aprender a ser hindus, porque essa é a verdade atemporal da Índia. O partido quer trazer à cena um modo mais antigo de populismo. É aí que discordo de Youssef.

Este talvez tenha sido um dos anos mais tristes da minha vida, vendo tanta miséria de perto e à distância. Aqueles milhões andando sob o sol indiano mais severo e durante as noites. Homens, mulheres e crianças, com seus pertences embrulhados em saris, ou sacos plásticos, ou malas baratas. Uma garota percorreu 1200 km de bicicleta com seu pai ferido. Um viajante morreu a poucos metros de casa, outro a alguns quilômetros. Passaram fome e morreram de fome. O item alimentício mais vendido foi uma marca barata de biscoitos – isso era tudo o que a maioria deles podia pagar.

Eu não tinha como me afastar do vírus ou evitar pensar nele. Para exorcizá-lo, talvez seja preciso olhar para o mundo ao redor através dos olhos do vírus.

Parentes ricos morreram, parentes pobres também foram afetados. Não houve um hospital que aceitasse os primeiros, apesar de maços de dinheiro, enquanto os últimos tentavam se apegar à esperança de que seus filhos ou cônjuges não seriam tocados pelo vírus, e de que não haveria necessidade de testes inacessíveis para eles, mesmo que estivessem vivendo na mesma casa.
 

“[...] partidos nacionais, como o Partido do Congresso, sempre praticaram diferentes tipos de populismo em diferentes regiões, chamando isso de ‘unidade na diversidade’. Agora o BJP usurpou o manto deles e cancelou todos os pretextos de atender a diversas populações, insistindo que todos são hindus (incluindo muçulmanos, cristãos e sikhs), ou deveriam aprender a ser hindus, porque essa é a verdade atemporal da Índia.


As pessoas não podiam pagar cerimônias fúnebres para seus entes queridos. Corpos desapareceram, pacientes ficavam sem atendimento nas calçadas. E os governos na maioria dos estados usaram a inatividade civil durante o confinamento para reprimir ainda mais todos os tipos de dissidentes.

No entanto, ainda é preciso insistir que a Índia é a pandemia. O único caminho que cada indivíduo tem para lutar contra isso é reivindicar a imunidade em sua aldeia natal.

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