Estranha amizade

“Breve história do planeta verde”
Divulgação

“Ninguém solta a mão de ninguém” é uma frase que ganhou ares de slogan da resistência aos nefastos grupos atualmente dominantes politicamente no Brasil e um conceito há muito tempo presente no imaginário (ou, com sorte, na realidade) dos marginalizados e perseguidos. Tania (Romina Escobar), Pedro (Luis Soda) e Daniela (Paula Grinszpan) são três destes tipos solitários que se unem para se ajudar desde a infância no interior da Argentina. Adultos na metrópole eles têm em comum o silêncio, o isolamento e a letargia quando separados, conforme aparecem pela primeira vez no longa de Santiago Loza. Mesmo unidos se destacam dos demais, mas sobrevivem na bolha armada contra a transfobia, a homofobia e o abandono na depressão.

Não há nada de novo no retorno ao cenário de traumas do passado para a preparação do caminho para o futuro, mas Loza tenta fazer diferente criando uma fábula sobre a supracitada união e pertencimento. Jovens tido como estranhos, numa missão estranha, contada num filme deliberadamente estranho, cuja maior qualidade é a busca da naturalidade na abordagem da protagonista trans, ainda que ela esteja intimamente conectada à faceta mais surreal da trama. Quando a esquisitice se confunde com tolice, no entanto, não há nada para se orgulhar, e não são raros tais momentos, tanto no que se refere aos personagens, quanto ao longa como um todo.

Plantada desde o primeiro plano, a identificação e ligação de Tania com o alienígena é desenvolvida em compasso lento como se fosse grande mistério, quando tudo não passa de uma tremenda obviedade. Previsível como a luz que apaga na revelação do mapa ou como o agressor homofóbico que na verdade deseja a vítima.

Tal e qual Power Rangers coloridos e excluídos caminhando a pé por regiões desconhecidas e guiados por seres mágicos, os personagens principais preservam características que quase contam como poderes especiais: Daniela com a melancolia, Pedro empenhado em extravasar, Tania serena na frieza, as dores congeladas no calvário das memórias na mesma temperatura da água em pedra que preserva a vida diferenciada do extraterrestre ao longo da operação devolução. Lado a lado eles são capazes de levantar um Megazord de amor sem temor para derrotar a união dos oponentes, a postos para matá-los com fogo antes que se reproduzam.

O filtro do weird movie disfarça muita coisa, mas o filme além de tudo entrega um discurso cômico de tão esquisito, que zomba da humanidade exaltada por boa parte da história para justificar a preponderante nova conexão de Tania. Ela, a sensata entre o inconsequente e a resguardada, a que fica acordada na cama enquanto ele levanta e a outra prefere voltar a dormir, não aguenta mais e escolhe ir embora. Quanto à hétero cis egoísta carente a ponto de querer colocar outra vida neste mundo sombrio e ao dançarino guiado apenas pelo sentimento: eles que lutem. A liberdade de Tania é trocar o certo pelo duvidoso na esperança de encontrar uma tribo menos hostil.