Michael Laub Saudação

Michel Laub
Cristovão Tezza | Foto (detalhe): Cristovão Tezza

Tudo mudou, e nada mudou. Pediram para eu escrever uma carta a você, mas é difícil: você não entende o que estou falando. Você ainda não tem linguagem, e se eu puser um espelho à sua frente o que aparecerá? Um borrão de formas cujo significado chegará muito depois – um bebê sujo de placenta que sente o horror de algo ainda sem nome: frio, medo. Bem-vindo, é só o que posso desejar. No ponto em que você se encontra, o que importa também não tem nome ainda, um colo, o primeiro contato com a água, o movimento do berço, isto é junho de 2014 em sua história até aqui imediata.  

 Cinquenta anos, quem diria. Adianta eu falar de coisas externas, cuja existência você só reconhecerá quando elas não existirem mais? Então fica como num livro embolorado: tanto faz se menciono Jesus Cristo, Joseph Blatter ou Átila, o Uno. Tudo será anterior. Você usará uma expressão para trazer de volta o mundo dos mortos – houve um tempo. Houve peixes e florestas. Houve fronteiras entre países (palavras: país, governo). Houve um sistema chamado democracia (palavra: congresso, o que isto dirá para você? O que isto diz para mim em 2064?). Mas também existe o que chamamos de presente: o pulmão respira, o rim filtra, o coração bate, a máquina de ossos e músculos e tendões e gânglios e mucosas e circulação sanguínea, hey, este somos nós, obrigado por não acabar com tudo antes da hora – eu vou precisar de seu bom senso, cinquenta anos depois, se quiser continuar eterno neste instante que num instante já se foi.

Vamos para casa amanhã. Houve índios (índios), computadores que não usavam implantes, guerras por petróleo (petróleo), torneios de futebol que paravam o mundo por trinta dias (hoje: filmes, fotografias, testemunhas). Há coisas que eu poderia pedir para você evitar, pessoas que eu preferia que você não conhecesse, mas se você não fizer isso tudo eu deixo de ser quem sou (gosto do que sou? consigo pensar como outro?). Os cheiros e o gosto das coisas: você vai se acostumar. Lugares, trabalho. O velório de um amigo num sábado. O fim: o que tudo era antes de você ser puxado para o frio e o medo. Você está mais perto daquele nada do que eu. Ou mais longe: num dia de sol como amanhã (a eternidade são vinte e quatro horas quando você nasceu há vinte e quatro horas), durante o trajeto para casa (o universo é uma luz morna e o desejo dorme como se não fosse nunca mais voltar), você começa a intuir o limite de suas sensações. É a prisão de cada um – o corpo. Mais tarde este limite se ampliará – sua aparência, seu fôlego para nadar, seu ouvido para música, o tamanho de seu nariz e a combinação de genes que dará a você inteligência ou predisposição para determinados tipos de câncer, e o que é externo a isso (nutrição, escola, o modo como pai e mãe o trataram, o acaso de atravessar a rua e uma vaca não cair do céu) como que se fundirá ao que parecerá a ordem natural de tudo.

2064 é um tempo difícil. Mas adianta eu explicar como são as coisas por aqui? Quando a data finalmente chegar, você estará preparado. Este é o sentido de ir para casa agora: a pedra inicial deste treinamento para os dias e anos. Caem os dentes. Voltam os dentes. Nascem os pelos. Caem os pelos. Doenças, feridas, medalhas. O corpo se acostuma com estímulos muito violentos, depois começa a reclamar, depois se acostuma de novo, e o cérebro alerta para nossa teimosia e vaidade, e o mundo nos dá uma surra a cada vez que nos iludimos com amor, política, história, arte, dinheiro e falta de dinheiro, poder e falta de poder, o susto que tomamos se o mesmo espelho dos primeiros minutos nos refletir hoje, meu olhar vazio e meus tiques derrotados pela gravidade, um museu ambulante de lembranças que não servem para nada. Cinco décadas, e o tempo não existe. Mas há uma beleza contraditória aí: bem-vindo, o tempo ainda é o seu melhor aliado.