Albert Ostermaier 2064

Albert Ostermaier
Albert Ostermaier | Foto (detalhe): Marcus Schlaf

Para meu quinquagésimo aniversário desejei, para mim mesmo, dores nas costas. Queria que não fosse uma dessas manhãs inúteis em que se acorda sem sentir uma dor lancinante nas vértebras cervicais, sem sentir que está cabeceando um pêndulo com as têmporas, sem sentir as dunas da surdez que passeiam pelo corpo. Queria me lembrar de como eram aquelas dores que eu sentia depois de jogar futebol na praia, quando me arrebentava contra as pedras sob a areia, ao me esticar para alcançar a bola, quando cortava as solas dos pés com os cacos de garrafas de cerveja ou quando os dedos dos meus pés se enganchavam na órbita do olho de um semienterrado e meu crânio se precipitava sobre a praia como se fosse uma segunda bola de futebol. 

Eles tinham pensado em tudo aqui, nestes prédios de apartamentos. As telas que balançavam ao vento mostravam o mar, as ondas que quebravam, vindo em nossa direção e superando os gritos provenientes dos bairros pobres no abismo que há aos nossos pés. Tudo parecia enganosamente verdadeiro: a areia, os sóis, eles tinham pensado até mesmo nas queimaduras de sol nas nossas peles. À noite, era possível despir-se delas, como se fossem tatuagens, caveiras e cobras que partiam do coração e rastejavam pela garganta, até alcançarem o queixo, as asas nas omoplatas no azul do céu, que este ano foi vendido a um magnata do ramo dos transplantes, cujo logotipo pendia das nuvens como uma marca d’água. Eu também teria desejado uma gota de água, de água legítima, na ponta da língua, na ponta da sua língua, uma gota que nós pudéssemos esconder do mundo em meio às nossas bocas unidas por um beijo, uma gota de água que você engoliria como se fosse o amor, e que voltasse na forma de uma lágrima, que eu capturaria com um cílio que cairia sobre a minha face, de onde você o retiraria com a ponta do dedo, dando-o de presente para mim, juntamente com um desejo no qual não quero pensar pois, imediatamente, eles haveriam de realizá-lo para mim, ou mandariam me lançar no poço de energia no qual despencamos sempre que pensamos em qualquer coisa que se pareça a um desejo imaterial. Que excitante era amar-se depois do jogo de futebol, quando o cansaço saía pela pele, quando o calor das juntas corria pelos membros como um fogo, quando cada beijo significava uma segunda chance e cada sonho tinha um jeito para passar do seu coração para o meu, quando nos desencaminhávamos um para dentro do outro, estreitando os espaços e nos surpreendendo, mutuamente, com lances inesperados. Quando então, na manhã seguinte, as costas doíam e o amor doía, porque eu estava só e porque eles tinham apagado você da minha memória, seus lábios, sua boca em minha orelha, seus seios nas palmas das minhas mãos, que ainda conservavam o cheiro da bola, da praia. Eu podia comprar minhas memórias de volta, filtradas, com o logotipo de um patrocinador sobre as suas costas e com implantes de silicone nos lábios e nos mamilos pontiagudos, sob o decote dourado. Eles diziam que tudo era para um bom propósito, pois isto permitia aos pobres adquirir novos rostos, e a fome deles, os temores e as preocupações deles seriam cirurgicamente removidos e harmoniosamente substituídos por um sorriso feliz. Não espantaria que, em toda a parte, só se vissem rostos felizes? Até mesmo nos olhos dos mais pobres, quando nós os espiávamos com o rabo dos olhos ou os víamos nos estádios com as bandeiras tremulantes, depois que ele foi declarado imortal e sua múmia quatarizada voltou a ser eleita, ano após ano? Depois da guerra dos trinta anos entre Google, Amazon e Facebook, eles achavam que tinham tudo sob seu controle, por meio dos dados. Porém, não foi possível escanear a minha saudade, não foi possível digitalizá-la, assim como não foi possível escanear ou digitalizar meu amor pela bola de couro, quando a Fifa proibiu o couro e a Google nos tirou a pele e o Facebook a selou. Eles cometem erros e o meu segundo aniversário de 50 anos chegou três anos antes do dia certo, e eu realmente estou sentindo dores nas costas. Vou pegar o tampo da mesa, tomar impulso, arrebentar a tela de projeção e surfar, lá fora, na grande onda, e todos eles vão ver que, se nós acreditarmos em nós mesmos, no amor e no futebol, poderemos governar o mundo, sem eles!