Ciberdefesa
Teutates em luta contra os vírus do Twitter
A guerra cibernética soa como um filme de ação, mas a realidade é muito mais prosaica. A defesa contra ciberataques significa, acima de tudo, atenção redobrada. Na Alemanha, uma agência pública tem a tarefa de proteger políticos, empresas e cidadãos contra os perigos que vêm da internet.
É possível que os deuses do passado viessem a esfregar os olhos de espanto hoje em dia. Poderia, por exemplo, Teutates, a quem os celtas delegaram a liderança na guerra e na paz, assumir essa função também nas redes sociais? Se confrontado com o grande monitor na parede do Centro de Situação da Tecnologia de Informação da Alemanha (pertencente ao Serviço Federal de Segurança da Informação), ele provavelmente não enxergaria mais riscos para seu povo do que um simples comum mortal.
O programa de computador que leva seu nome exibe gráficos na tela que reproduzem o que acontece naquela hora no Twitter. A equipe em torno de Christian Eibl, diretor do órgão, procura ali anomalias. Ou seja, quando surge com frequência uma nova hashtag que possa estar ligada a problemas de segurança na tecnologia da informação, por exemplo, os funcionários do Centro ficam de orelha em pé. Eles procuram saber se por trás disso está um novo vírus, um ciberataque ou algum software malicioso ainda não identificado. Essas são as armas dos dias de hoje, incomparáveis às guerras analógicas travadas no passado entre romanos e gauleses nos quadrinhos de Asterix. No lugar de golpes de punho e espada, temos malwares e redes de bots.
CIBERDEFESA EM EDIFÍCIO PRÉ-FABRICADO
Identificar ameaças digitais é, na Alemanha, tarefa do Serviço Federal de Segurança na Tecnologia da Informação (BSI), o único órgão federal no país institucionalmente encarregado da ciberdefesa. No ambiente espartano de sua sede em Bonn, mais de 900 especialistas monitoram e analisam os movimentos na internet. O prédio de estrutura pré-fabricada dos anos 1970 era antes ocupado por uma empresa de pneus. Agora, apenas a rigorosa estrutura de controle na entrada dá sinais que remetem ao novo inquilino. O Centro de Situação, localizado no quarto andar, conta com um esquema adicional de segurança. Eibl supervisiona as duas fileiras de postos de trabalho, onde membros da equipe observam seis grandes monitores. Eles controlam, entre outras coisas, se a rede governamental está disponível, e monitoram os fluxos de mensagens nos servidores do governo federal em Berlim.
MILHARES DE ATAQUES DIÁRIOS ÀS AGÊNCIAS FEDERAIS
Dois andares abaixo do Centro de Situação, encontra-se o Centro Nacional de Ciberdefesa – ponto de encontro de todos os principais envolvidos na busca por criminosos virtuais, terroristas e espiões na internet. A OTAN e os serviços de inteligência da Alemanha também estão presentes ali. É nesse lugar que são reunidas todas as informações – um local, portanto, onde há muito o que fazer. Em fins de 2016, por exemplo, os investigadores conseguiram desbaratar a maior infraestrutura de botnets do mundo, a Avalanche. Os bots da Avalanche tinham usado as técnicas de phishing (utilizadas para conseguir informações confidenciais) e programas maliciosos para obter acesso a bancos online. Mas a proteção das redes governamentais já é trabalho suficiente para o Centro. Em média, 1700 mensagens contaminadas são interceptadas a cada dia antes que sejam abertas. O número de ataques não especificamente endereçados que a cada dia atingem ministérios e agências federais ronda a casa dos milhares.
Por um longo tempo, os problemas de segurança na internet não recebiam muita atenção pública, embora o BSI esteja operando desde 1991 e o Centro Nacional de Ciberdefesa tenha sido criado em 2011. A conscientização sobre o problema mudou subitamente, contudo, a partir das declarações do ex-agente do serviço secreto norte-americano Edward Snowden divulgadas em 2013. Naquele momento, foi revelado que a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA) havia grampeado o celular da premiê Angela Merkel e ouvido suas conversas. O comentário de Merkel na época foi: “Espionar aliados é inaceitável”.
SEM CENÁRIOS DE HORROR, MAS UMA LONGA LISTA DE TAREFAS
O trabalho dos especialistas do BSI também inclui a proteção de cidadãos e empresas, especialmente aquelas de pequeno porte que não têm recursos suficientes para conceber e implementar sistemas complexos de segurança. A agência federal informa sobre possíveis ameaças e orienta os atingidos sobre como lidar com elas, provendo um serviço não comercial e publicando informações sobre vulnerabilidades. Segundo Eibl, muitos membros de sua equipe dispensaram empregos bem remunerados no setor privado de tecnologia da informação para trabalhar na segurança digital governamental. Apenas no próximo ano, serão recrutados 350 novos especialistas em informática. Em breve, com seu número de funcionários ampliado, o BSI passará a ter uma nova sede. Na medida em que os riscos aumentam, cresce também a necessidade de cautela. “Há sempre lacunas nos sistemas”, lembra o diretor do Centro de Situação.
“A cooperação funciona muito bem,” acredita Nabil Alsabah, especialista em segurança da informação da Federação das Empresas de Tecnologia da Informação Bitkom. Segundo ele, essa agência pública é extremamente competente, “o que não é o caso em muitos países”. No que se refere às reais ameaças por parte dos hackers, o especialista em segurança parece não se abalar, pois, de acordo com ele, quanto maiores as ameaças, maior é também o know-how de defesa. Os cenários de horror apresentados por certos filmes são apontados por Alsabah como absolutamente exagerados. “Nada disso aconteceu ainda”, diz ele, “porque somos melhores do que pensamos”.