Medo da tecnologia
“Um olhar crítico pode suscitar mais cautela”

Foto: Pedro Hamdan

Na Alemanha, há menos investimentos em startups de tecnologia do que, por exemplo, nos EUA. Será que esse é um sinal de maior ceticismo tecnológico? Uma entrevista com o filósofo da tecnologia Christian Vater.

Por Arne Cypionka

A introdução de novas tecnologias sempre gerou paralelamente o medo de mudanças e suas consequências. A tecnologia informática assume uma posição especial entre as tecnologias disruptivas que surgiram até hoje, como a impressão de livros ou a locomotiva a vapor, no que diz respeito, por exemplo, à inteligência artificial (IA), ou seja, a máquinas que têm o potencial de desenvolver-se de forma autônoma?

Em seus detalhes, o processo do aprendizado automático não tem nada de espetacular – mas, ao mesmo tempo, é uma tecnologia impressionante em cuja existência nossos antepassados há 80 anos ainda não teriam acreditado. Isso leva à construção de mitos, tanto em relação a narrativas que difundem medo quanto também à formulação de expectativas. Por exemplo: a inteligência artificial será capaz de conduzir nosso planeta melhor que qualquer pessoa através das catástrofes climáticas. Ou: a inteligência artificial vai se tornar autônoma e nos erradicar do planeta. Quando olhamos as estantes de literatura de ficção científica ou vamos à cinemateca, isso tudo já está presente ali – e isso não é de hoje. Já encontramos essas ideias pelo menos desde o romantismo, com a publicação de Frankenstein, e definitivamente nos primórdios do cinema, com o filme Metrópolis.

Essas preocupações são realmente justificáveis? Será que Frankenstein irá em breve se tornar realidade?

Já estamos circundados por máquinas capazes de se reconfigurar de forma autônoma. Isso fez com que de repente tivéssemos que lidar com inteligentes androides antropomórficos? Não. Agora temos aparelhos ao lado dos quais não precisamos colocar assistentes para ficar reconfigurando tudo constantemente. E contamos com aparelhos capazes de realizar, por exemplo, séries de medições, sem que especialistas precisem estar presentes. Nossa tecnologia se tornou adaptável. Nem mais nem menos.

Apesar disso, para muita gente, essas máquinas estão se transformando cada vez mais em caixas pretas, pois as pessoas não conseguem mais entender como elas funcionam exatamente. A utilização deste tipo de tecnologia não leva potencialmente a uma perda de controle da sociedade? Nesse contexto, penso, por exemplo, no método da predictive policing (polícia preditiva), em que algoritmos fazem previsões sobre futuros delitos fundamentadas em bases de dados e justificando assim operações preventivas da polícia.

A predictive policing é uma tentativa de construir ferramentas de previsão fortemente baseadas em dados. Por trás disso há modelos sobre como as pessoas cometem delitos, e também sobre em que bairros moram as pessoas que cometem quais tipos de delitos e de que forma. Estas características têm por objetivo ajudar as pessoas que constroem as máquinas a formular e justificar suas suposições. Suposições estas que podem ser listadas e verificadas uma por uma quando apresentadas de maneira transparente, através do auxílio, por exemplo, de instrumentos sociológicos. Mas isso certamente dá bastante trabalho.

Christian Vater trabalhou na área de investigação especial “Culturas textuais materiais” da Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa e como consultor científico em diversas startups. Concluiu seu doutourado em Filosofia em Heidelberg sobre Alan Turing e inteligência artificial.
Christian Vater trabalhou na área de investigação especial “Culturas textuais materiais” da Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa e como consultor científico em diversas startups. Concluiu seu doutourado em Filosofia em Heidelberg sobre Alan Turing e inteligência artificial. | Foto: © Ute von Figura, Heidelberg
Como é a situação aqui na Alemanha? Alguém faz esse trabalho? 

Na Alemanha, temos uma associação notoriamente ativa e muito respeitada que trata destas questões: o Chaos Computer Club (CCC). Ele está representado no comitê especializado do governo federal e hoje já é inclusive escutado em audiências no Parlamento Alemão.

Justamente o CCC faz alertas frequentes sobre os abusos e os riscos das novas tecnologias.

Um olhar crítico não precisa ser destrutivo e nem pessimista – ele também pode suscitar mais cautela.

Hoje as startups são consideradas uma garantia de inovação em desenvolvimento tecnológico. Em comparação com o Vale do Silício, o cenário alemão de startups parece mais cauteloso. Na Alemanha, as pessoas são mais céticas quando se trata de novas tecnologias?

Aqui as estruturas de financiamento são sobretudo diferentes. Na Alemanha não há tantos fundos de cobertura especializados em seed investment (capital semente). Estes fundos especulam com a ideia de que, se financiarem dez startups, uma delas terá lucro suficiente para amortizar todos os outros investimentos. Na Alemanha, os bancos Sparkasse e Volksbank são tipicamente os primeiros a investir em um novos negócios. Como eles mais ou menos administram o dinheiro da comunidade, são parceiros comerciais cautelosos, que não investem em projetos tão facilmente.

Ou seja, trata-se antes de um problema estrutural.

E, além disso, de algo que pode mudar: as universidades, por exemplo, identificaram esta lacuna e investem agora elas próprias por meio de incubadoras internas, que auxiliam no planejamento da ideia em uma primeira fase. Este incentivo é de nível bem básico: as incubadoras oferecem um espaço, acesso à internet, uma caixa postal. Na Alemanha, ainda há muitos hacker spaces, nos quais, graças ao financiamento público, tecnologias de ponta atuais, como drones ou impressoras 3D, estão disponíveis a todas as pessoas leigas interessadas. E, como extensão dos hacker spaces, há cada vez mais coworking spaces. Em Darmstadt, por exemplo, surgiram escritórios para a primeira fase da fundação de startups em torno dos hacker spaces Lab3 e Hub31.
 

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