Ottjörg A.C.
Histórias ocultas
Por Cauê Alves
As gravuras de Ottjörg A.C. estão carregadas de sentidos históricos. As marcas, as fissuras, os cortes nas superfícies, assim como seus processos de impressão e escolhas de matrizes, ampliam as possibilidades de compreensão das narrativas históricas. Branco-preto prussiano, por exemplo, é um projeto que recolhe do fundo da terra vestígios do passado.
Se as cores branco e preto foram usadas na bandeira do antigo Reino da Prússia, foi o chamado azul da Prússia que permaneceu mesmo depois do reino ser abolido. Enquanto tentava produzir o valioso pigmento vermelho, o químico Diesbach, em 1704, descobriu um azul artificial. Por um acaso, a partir da oxidação do ferro, ele chegou ao tom que mais tarde acabou sendo empregado para o tingimento dos uniformes militares prussianos.
As gravuras de Ottjörg A.C. são constituídas não apenas com o azul da Prússia, mas, também, a partir de matrizes que são parte do passado oculto da Alemanha. O artista imprimiu, usando vários processos tradicionais de gravura, a superfície inteira dos pilares de madeira da residência real da Prússia. São troncos de mais de cinco metros de altura, que possuem entre 300 e 400 anos de idade e serviram de fundação para o castelo de Friedrich Wilhelm I, rei da Prússia, no início do século XVIII. Apelidado de Rei Soldado, ele foi um dos protagonistas na construção da potência militar prussiana que teve Berlim como capital.
Além do azul da Prússia e do pó de ferro, as gravuras de Ottjörg A.C. usaram o sangue de animais como o cavalo. Possivelmente, uma alusão às sangrentas batalhas e guerras em que os equinos eram instrumentos poderosos do exército. Assim como as fundações no interior do solo suportam os edifícios, o sangue é o líquido vital que corre no interior do corpo e que carrega os elementos necessários, como o ferro, para que um organismo se sustente. O ferro do azul da Prússia e o sangue, para além dos sentidos metafísicos, foram os protagonistas da formação do Estado alemão. O estadista mais importante da Alemanha do século XIX, Otto von Bismarck, conhecido como o Chanceler de Ferro, precisou, como tantos outros, derramar sangue para a construção de seus ideais políticos.
Desse modo, assim como os alicerces do castelo de Branco-preto prussiano trazem a base firme do poder militar do reino, Marca Rural é um índice da violência cotidiana que se funda na transformação da vida animal em propriedade marcada com ferro.
O ferro é um recurso central na obra de Ottjörg A.C., seja como pigmento, como matriz ou mesmo como elemento desaparecido. O artista, em sua estada em Porto Alegre, percebeu que diversas placas de ferro que sinalizavam monumentos públicos na cidade foram furtadas. Tendo consciência de como a ausência de informação sobre os monumentos afeta a noção de história, ele realizou uma ação significativa: os vazios das placas faltantes foram medidos, e o artista produziu placas de resina que contêm gravuras da série marca rural. Em seguida, o vazio das placas foi preenchido pelo trabalho do artista. O trabalho trata da transformação dos monumentos em meras imagens e discute como os rituais antigos permanecem nas gravuras abstratas.
Os monumentos públicos, geralmente, contam a história dos vencedores, aqueles que ganharam as guerras, batalhas e tornaram-se heróis. A história dos vencedores tende a mitificar algumas figuras, ela é aquela que diz que um passado pode ser concebido como verdadeiro. Mas o esquecimento que a falta das placas aponta é como uma negação dessa história oficial, é um vazio que, ao menos momentaneamente, transforma os vencedores em vencidos. As narrativas que eles protagonizaram se apagam.
O trabalho do artista torna visível o vazio e o silêncio de uma história enterrada ou desaparecida. E Ottjörg A.C. encontra nas ruínas e nos vestígios urbanos a censura capaz de interromper o fluxo contínuo da história.
MARCA URBANA
Em uma intervenção urbana temporária, o artista Ottjörg A.C. preenche o vazio de placas faltantes de alguns monumentos de Porto Alegre com placas de resina criadas a partir de monotipias sobre papel, inspiradas em suas experiências no Rio Grande do Sul.
Ottjörg A.C.
7813 AEC - Europa castra um touro.
1547 - É introduzida, na Inglaterra, a marcação do rosto a ferro quente para seus próprios cidadãos identificados como vagabundos.
1706 - Uma torre em construção no prédio da casa da moeda de Berlim, que simbolizaria o poder do rei Frederico I da Prússia, desaba sobre o solo pantanoso de Berlim, matando alguns operários.
1958 - Óvulo e espermatozoide de uma família de camponeses da região do Kraichgau e de uma família pomerana de capitães de navios combinam-se, dando origem a Ottjörg.
1989 - Ottjörg presencia a debelação do movimento por democracia nas ruas de Pequim e assiste, a partir da Academia das Artes/Berlim Oriental, junto ao Portão de Brandemburgo, à queda do muro de Berlim.
1993 - Estudos em Viena e Leningrado/S. Petersburgo; conclusão do curso de Artes na Escola Superior de Artes de Berlim com distinção.
2004 a 2007 - Temporadas como professor visitante na China; experiências com técnicas chinesas de impressão.
2004 a 2021 - Encontros fecundos com gaúchas/os.