Andreas Schalhorn
Impressão em todos os níveis. Reflexões sobre as possibilidades de uma mídia
Por Andreas Schallhorn
Em maio de 2015, a convite do Goethe-Institut Porto Alegre, tive a oportunidade de não apenas fazer uma palestra sobre a arte impressa alemã a partir de 1945 (Eine besondere Energieform. Deutsche Druckgrafik von der Nachkriegszeit bis zur Gegenwart – Uma forma de energia especial. A gravura alemã do pós-guerra até o presente, 4/5/2015) na cidade, mas também de – nos dias que a antecederam –, praticamente, numa maratona, visitar ali diversas instituições que se dedicam à produção, à exibição e à preservação de arte impressa moderna e contemporânea. Conheci artistas, gravuristas, curadores e estudiosos de história da arte, mulheres e homens cujo enorme engajamento pela arte impressa me deixou entusiasmado. A tradição e o significado dessa mídia, com múltiplas maneiras de esta ser executada, dentro do cenário artístico e da história da arte de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul (em cidades como Pelotas, Rio Grande, Caxias do Sul e Santa Maria), foram-me demonstrados de maneira admirável. De certo modo, dava a impressão de que ali era conferida à arte impressa uma grande relevância, inclusive, social, diferentemente do que se verificava na Alemanha – a despeito de um amplo espectro de excelentes artistas, gravuristas e editores, bem como de um próspero mercado para a arte (também, não devemos menosprezar o papel das associações de arte como contratantes de edições de gravuras como presente anual a seus sócios). Mas isso mereceria uma investigação mais detalhada.
Mais apropriado, tendo em vista a atual exposição da arte impressa contemporânea no Brasil e na Alemanha, é delinear as dimensões criativas de um gênero artístico que, já há algum tempo, encontra-se em concorrência mais ou menos explícita com imagens fotográficas e digitais, que igualmente podem ser objetos de edição gráfica. Isso sem mencionarmos a concorrência com as grandes mídias que conquistam mais rapidamente a atenção pública, como a pintura, a escultura e a instalação…
Isso, a propósito, deixa claro como o artista, dependendo do procedimento, pode estar mais ou menos fortemente envolvido na produção de uma/sua obra impressa. Algumas vezes – como nos casos de impressão em offset ou digital print – o envolvimento é mais de ordem conceitual; outras vezes – como no caso da xilogravura ou da água-forte – são necessários também empenho físico e habilidades manuais. Ao considerar o look final de uma gravura, não podemos menosprezar a importância de quem faz a impressão, do equipamento usado, etc. No caso da gravação em encavo, isso pode resultar no fato de gravuras de diferentes artistas, não obstante as peculiaridades estilísticas de cada um, apresentarem semelhanças – por exemplo, no tom da superfície – quando esses cedem demasiadamente às ideias de seus gravadores em comum. Mas esse é um caso especial.
A arte impressa pode ser situada entre ponto programático obrigatório e trabalho diligente: alguns artistas decidem-se a produzir arte impressa apenas após o estímulo por parte de seus galeristas, editores ou impressores; por sua vez, há artistas que se dedicam exclusivamente à arte impressa. Entretanto seria um engano acreditar que isso necessariamente habilitaria estes a produzirem uma arte impressa mais relevante: justamente quando apenas a maestria técnica é colocada em primeiro plano, os problemas podem surgir. O artista gráfico poderá acabar em apuros se, por exemplo, numa disposição anacrônica, puser-se a imitar Dürer ou Goya ao trabalhar com calcografia ou água-forte. Diferentemente de um engajamento produtivo, o resultado será uma mistura infeliz de nostalgia e irrelevância. Isso não quer dizer que técnicas clássicas de impressão devam ser automaticamente excluídas. O mundo imagético de um Michael Wutz, artista que produz em Berlim, por exemplo, seria praticamente impensável sem seu emprego quase alquímico de água-forte e água-tinta.
Idealmente, a principal preocupação dos artistas ao produzirem arte impressa deveria ser o desenvolvimento de imagens que adquirissem sua forma genuína só e necessariamente nessa mídia. Seu envolvimento especial com a arte impressa deveria transcender questões concernentes à qualidade técnica da impressão, incidindo sobre a essência e a motivação de sua arte.
Os artistas do Brasil e da Alemanha reunidos nesta exposição ilustram, com suas obras, estratégias completamente diversificadas, aqui apenas esboçadas, de um trabalho produtivo com a mídia da gravura, que não podem ser colocadas todas no mesmo saco ‒ felizmente!
Como a referência à “Kerze II”, de Gerhard Richter (fig. 1), já deixa claro, a produção de uma obra de arte impressa, com a reconfiguração de imagens fotográficas externas, pode estar associada à reflexão sobre o que significa produzir imagens. Em 2011, fui o curador de uma exposição no Kupferstichkabinett de Berlim, sobre a fotografia como base para a produção de obras de arte impressas nas artes de impressão gráfica da Alemanha, Grã-Bretanha e dos Estados Unidos desde os anos 1950 (“Neue Realitäten. Fotografik von Warhol bis Havekost”/Novas realidades. Fotografia de Warhol a Havekost). Thomas Kilpper estava presente nesta exposição com uma enorme xilogravura que, tematizando o sequestro, em 5/9/1977, de Hanns-Martin Schleyer, presidente da confederação das associações de empregadores da Alemanha, debruçava-se sobre um evento ocorrido no outono do terror alemão. Ele tomou como referência uma fotografia jornalística em preto e branco muito difundida na época, integrando-a em um cosmos de imagens multifacetadas.
Também, no atual projeto de exposição, podem ser constatadas, em sua obra e nas de outros artistas, referências a imagens produzidas fotograficamente por eles mesmos ou selecionadas do pool de imagens dos meios de comunicação de massa e da internet (v. Flavya Mutran, Rafael Pagatini).
Quando imagens fotográficas transformam-se em tema da arte impressa, elas se metamorfoseiam em componentes de outro dispositivo, de uma nova moldura narrativa, sendo submetidas – também dependendo do procedimento escolhido – a diferentes graus de estranhamento, focalização e interpretação.
Uma imagem sempre constitui uma realidade própria – e manipula (entendido aqui de forma não valorativa) realidades externas à imagem. Também aqui nos deparamos com um rico espectro, potencializado pela reflexão sobre as estratégias imagéticas de outros artistas (Andy Warhol).
Não importa se tematizando conteúdos fotográficos, figurativos (sociais/políticos) ou abstratos: com o procedimento de impressão gráfica escolhido e sua execução ou mesmo ampliação planejada – o que sempre implica certo custo em termos de tempo, logística ou de esforço conceitual, isto é, um engajamento criativo –, os artistas gráficos produzem cartões de visitas e cartografias de sua reflexão artística. Se essa reflexão, aos olhos do espectador, revelar solidez e relevância no plano social ou no sentido de pensar a própria mídia – tanto melhor. De mais decorações nosso mundo tão cheio de problemas não necessita de fato.
Ilustrações:
Fig. 1:
Gerhard Richter, “Kerze I“, 1989, óleo sobre impressão em offset em quatro cores, em papel, aplicado sobre uma placa de plástico, 91 x 91cm
Kupferstichkabinett, Staatliche Museen zu Berlin, Coleção Hans + Uschi Welle
Fotografia: Kupferstichkabinett SMB
© Gerhard Richter
Fig. 2:
Himmelsbach (Domenique Himmelsbach de Vries), “A Paper Monument for The Paperless”, xilogravura (seleção de 60 retratos diversos) sobre papel-jornal; 2018 (pilar com cartazes em frente à estação de metrô Warschauer Straße, Berlim, junho 2018)
Fotografia: A. Schalhorn
© Himmelsbach