Blog da Berlinale 2017
Erguendo fronteiras
A ideia de que vivemos em tempos “pós-coloniais” é uma ilusão. Os efeitos de séculos de imperialismo são sentidos ainda hoje – seja ao pisar nos direitos dos Sioux em nome de um oleoduto ou na linguagem que solapa continuamente culturas não-brancas. Não surpreende, portanto, que o colonialismo seja analisado detalhadamente pelo cinema.
Na Berlinale, duas cenas de filmes mostram como homens brancos determinam as fronteiras de outras nações: em Viceroy’s House, o roteiro gira em torno da independência política da Índia e da decisão controversa de criar o novo Estado do Paquistão. Em The Lost City of Z, um soldado britânico é encarregado de estabelecer uma fronteira entre a Bolívia e o Brasil.
Viceroy’s House é mais explícito a respeito dos efeitos do colonialismo do que Z, já que o filme esboça a entrega do poder na Índia. O longa de Gurinder Chadha é surpreendentemente eficaz, estabelecendo uma conexão muito pessoal com a história. A visão da diretora sobre a Índia dos anos 1940 parece, de início, surpreendentemente romântica, como um capítulo de Downton Abbey, inclusive com figurinos e salões imponentes. A atmosfera de Coroa-na-Índia torna o debate subsequente acessível para um público mais amplo. Chadha dá espaço às complexidades morais da decisão pela divisão e é admiravelmente pouco discreta ao mostrar como a Grã-Bretanha era terrível. Uma decisão corajosa, uma vez que o público-alvo do filme é supostamente composto de eleitores brancos e idosos pró-Brexit.
The Lost City of Z, por outro lado, é uma aventura fora de moda sobre o desgastante poder da ambição. O filme acompanha Percy Fawcett, que quer convencer a Royal Geographical Society de que a América do Sul perdeu suas culturas e civilizações e de que as pessoas da região amazônica não são “selvagens”. O impacto do colonialismo serve de pano de fundo, pois foi em função dele que a cidade Z acabou sendo abandonada.
Embora o filme de James Gray seja do ponto de vista cinematográfico mais rico e satisfatório que o longa mais suave de Chadha, ambos estão ligados pelo tema. Tanto Fawcett quanto Mountbatten, protagonista de Viceroy’s House, foram enviados a outros países a mando da Grã-Bretanha. E ambos querem tratar as pessoas de outras culturas com respeito e dignidade. É encorajador, neste clima isolacionista, assistir a filmes leves e de fácil compreensão, que confrontam o espectador com a feiúra do colonialismo e apesar de tudo encontram ali uma mensagem calorosa de humanidade.