Blog da Berlinale 2020
“Todos os Mortos” estreia na mostra competitiva
Sara Silveira, produtora do filme que concorre ao Urso de Outro na Berlinale, clama por resistência frente ao atual contexto político brasileiro.
Por Camila Gonzatto
Na coletiva de imprensa que sucedeu à exibição do longa Todos os Mortos, a equipe do filme reiterou a importância da produção audiovisual brasileira e o risco que esta está correndo em função das medidas de desmonte da cultura que o atual governo brasileiro tem executado. “Enquanto eu viver como mulher – tenho 69 anos –, eles terão que ouvir o que tenho a dizer, porque estarei lutando. Não preciso de armas, preciso de amor, coragem e momentos heroicos. Iremos resistir e vencer. Todos nós artistas estamos gritando por liberdade, democracia e resistência”, afirmou Sara Silveira.
Todos os Mortos é um filme situado na transição do século 19 para o século 20, poucos anos após a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República. “Queríamos pensar sobre como a estrutura social daquele momento histórico é ainda muito presente na sociedade de hoje”, disse Caetano Gotardo, que dirigiu o filme juntamente com Marco Dutra. Uma das estratégias dos diretores para ligar o passado e o presente foi utilizar imagens e sons da São Paulo atual nas cenas externas, criando uma sobreposição de tempos.
Hierarquia racial
O filme entra na casa de uma família aristocrática em decadência e tem como protagonistas, a mãe, Isabel, e suas duas filhas, Maria e Ana. Isabel está doente e prestes a desistir de viver; Maria, uma freira, divide-se entre seus afazeres na escola exclusiva para mulheres e a tentativa de ajudar a família; e Ana, que vive em seu mundo, atormentada por visões das pessoas que haviam sido escravizadas e estão mortas. As três moram em São Paulo, enquanto o pai segue trabalhando na fazenda de café, que um dia foi da família e agora pertence a italianos. Através dos problemas enfrentados pelas três, questões ligadas ao racismo e à divisão de classes são apresentadas. “Toda a hierarquia racial que existiu entre a Colônia e o Império entraram na casa do povo brasileiro”, diz Salomma Salomão, compositor que assina a trilha sonora do filme.Destaque de Todos os Mortos é a interpretação de Mawusi Tulani, no papel de Iná, uma mulher que havia sido escravizada e trabalhava na fazenda da família. Em sua luta por respeito e por construir uma vida em um país que tenta progredir arraigado a velhos valores, ela faz a ligação entre os dois mundos: o velho Brasil Colonial escravista e a nova República. Outro ponto interessante do filme é a trilha sonora, que mescla elementos europeus e ritmos africanos. “É possível perceber a tensão social nas formas musicais que o filme evoca. O filme poderia ser todo narrado somente com música. Nós, descendentes africanos, fomos muito importantes na criação desses repertórios que atualizei no filme”, afirma Salomão.