Blog da Berlinale 2020
Enfrentando preconceitos
Os longas “Alice Júnior” e “Vento seco” abordam temáticas LGBTQI+ a partir de histórias que se passam em cidades pequenas do interior do Brasil.
Por Camila Gonzatto
Alice, uma youtuber trans que vive em Recife, precisa se mudar para a pequena Araucária do Sul, acompanhando o pai que pesquisa uma nova fragrância para a perfumaria em que trabalha. Ao chegar na cidade, Alice confronta-se com o preconceito de moradores, professores e colegas da nova escola. A partir de seu cotidiano, temas importantes – como os direitos de uso do banheiro feminino, o uso do nome social e o respeito e aceitação de sua identidade – vão sendo abordados.
Com um tom leve e divertido, Alice Júnior, dirigido por Gil Baroni e escrito por Luiz Bertazzo, contou com o apoio da atriz Anne Celestino Mota (Alice) para a composição da personagem. “Quando a Anne chegou, o personagem se transformou bastante. Eu sabia de minhas limitações, como homem, para escrever o filme. Conversamos muito e incorporamos suas experiências no roteiro”, conta Bertazzo. O longa também conta com músicas de artistas trans em sua trilha sonora.
Em sua estreia internacional, Alice Júnior foi aplaudido em pé longamente pelo público de um cinema lotado. O filme já participou do circuito de festivais no Brasil. No Festival de Brasília, Anne Celestino Mota recebeu o Prêmio de Melhor Atriz – pela primeira vez concedido a uma mulher trans.
Desejo e fantasia
Outro filme de temática LGBTQI+ é Vento Seco, dirigido por Daniel Nolasco. Integrante da mostra Panorama, o longa é ambientado no interior de Goiás e está dividido em capítulos que são anunciados com a previsão do tempo. O calor insuportável e o ar sempre muito seco reúnem grande parte das pessoas no clube da cidade, frequentado pelo protagonista Sandro, que trabalha em uma fábrica de fertilizantes. Por receio de sofrer preconceito, Sandro encontra-se com seu amante em uma mata de eucaliptos e nunca assume o relacionamento. Paixão, ciúme, diversas cenas de sexo e fetiche conduzem a narrativa, revelando os desejos não apenas do protagonista, como também de outros homens da cidade.O crítico e curador brasileiro Heitor Augusto participa neste ano do júri do Teddy Award, concedido aos melhores filmes com temática LGBTQI+. Às vésperas da Berlinale, ele publicou em seu Facebook que, pela primeira vez em mais de dez anos, há mais de um integrante negro entre os membros do júri.