De acordo com Carlo Chatrian, os filmes que participaram da competição do Festival Internacional de Cinema de Berlim deste ano lançaram um olhar livre de ilusões sobre o presente. Será que seu caráter sombrio é apropriado, ou seria desejável a presença de filmes com uma visão mais positiva e construtiva do mundo?
Foto: © arquivo pessoal.
Gabriele Magro - Itália: A crise econômica de 2008 desencadeou uma crise cultural que durou uma década. As instituições e os valores que eram considerados a base da sociedade ocidental mudaram dramaticamente: democracia, liberdade de movimento, família, religião, segurança social. Talvez as perspectivas sombrias e desiludidas de muitas personagens dos filmes da competição deste ano, que lutam para encontrar seu lugar na sociedade, sejam um reflexo da necessidade de fazer um balanço da época em que vivemos.
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Ieva Sukyte - Lituânia: O mundo em que vivemos hoje encara muitos problemas, entre eles, o racismo, a discriminação de minorias e a mudança climática, e os filmes não podem fugir da realidade. Cineastas de todo o mundo iluminam os problemas e as questões culturais de seus países. Isso é mais importante para nós agora do que criar uma imagem positiva do mundo.
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Erick Estrada - México: Sempre adoro a competição, mas, este ano, adorei particularmente. Sim, ela não tem ilusões, mas acho que é preciso ver filmes que apresentam uma visão menos confortável do mundo, porque, neste momento, o mundo não é um lugar confortável. Refletir sobre tudo isso através de filmes e histórias é a melhor forma de iniciar uma mudança real. Precisamos ser novamente confrontados com os filmes.
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Sarah Ward - Austrália: Talvez Siberia , de Abel Ferrara, seja o filme mais polêmico da competição da Berlinale de 2020, mas ele funciona como uma metáfora adequada para a diversidade de conteúdos que vivenciamos nesta seção central da programação. Como o personagem de Willem Dafoe, que se empenha em sua busca, toda pessoa apaixonada por cinema viaja para outros mundos quando mergulha nas programações de qualquer festival de cinema. Isso significa aceitar toda a gama de emoções e perspectivas como elas são apresentadas – a sinuosa e angustiante (The Intruder , de Natalia Meta), a irônica e perspicaz (The Woman Who Ran , de Hong Sang-soo), a melancólica e devastadora (The Salt of Tears , de Philippe Garrel), e a chocante e atual (Never Rarely Sometimes Always , Eliza Hittman) – para citar só algumas.
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Javier H. Estrada Espanha: Concordo que a competição não foi muito feliz em sua visão, mas temo que isso corresponda ao estado do mundo. Veja o filme que ganhou o Urso de Ouro, por exemplo, There Is No Evil , de Mohammad Rasoulof – não acho que seja possível retratar a realidade do Irã com muito otimismo. Mas também assistimos a reflexões íntimas, como Siberia , de Abel Ferrara, onde penetramos no labirinto da mente humana, uma experiência eterna e universal.
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Yun-hua Chen - China: Cinema não é um lugar para se procurar uma visão positiva e construtiva do mundo. É um lugar para expor as verdadeiras faces do mundo, sublimes e feias, esperançosas e desesperadoras ao mesmo tempo. Filmes bons inspiram o público a levantar as questões certas e a começar um debate; não são um lugar para se escapar da vida como ela é. Sombrios ou não, bons filmes são bons filmes. Neste contexto, Effacer l’Historique (Delete History) é um bom exemplo de como o cinema é uma mídia para retratar com humor nossas vidas cotidianas, tão absurdamente emaranhadas com a tecnologia e a burocracia.
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Michal Zielinski - Polônia: Psicologicamente, todos os seres humanos tendem a prestar mais atenção às coisas mais perigosas. Más notícias são boas notícias, como se diz em algumas redações. Devemos equilibrar conscientemente o bom e o ruim, especialmente vivendo em um mundo globalizado e conectado. Pessoalmente, gosto mais de histórias sombrias; elas me dão a sensação de estar em contato com a vida real. Mas, afinal, esta é a minha própria tendência psicológica, que eu deveria equilibrar para obter uma imagem real do mundo. Não importa quantas coisas estejam indo mal no mundo, sempre há também coisas boas. Às vezes, acho corajoso ser positivo.
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Anjana Singh - Índia: Acho muito importante mostrar o presente em toda a sua dimensão, mas acho importante fornecer recomendações para a ação, para que você não saia do cinema sentindo raiva ou impotência. Faria sentido que houvesse uma orientação para a solução, mas isso talvez nem sempre seja possível.
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Egor Moskvitin - Rússia: Eu me lembro que a última Berlinale foi inaugurada com um filme chamado Kindness of Strangers – mas depois disso seguiram-se duas dúzias de filmes que exploravam a crueldade e o mal de que somos capazes. Adorei a ironia, mas senti que, este ano, isso se transformou em uma espécie de humor negro: o filme de abertura foi uma fábula – e depois dele veio a escuridão. Acredito que a arte deve se adequar à época em que é criada e, portanto, concordo com o clima pessimista do festival deste ano. Mas também creio que a arte deve nos lembrar de todas as grandes aspirações, feitos corajosos e sacrifícios generosos de que os seres humanos são capazes. Portanto, prefiro histórias negativas em relação ao mundo, mas positivas em relação à humanidade. E felizmente este ano há muitas histórias assim.
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Hyunjin Park - Coreia: Na competição deste ano, acho que há muitas obras que lançam um olhar claro e calmo sobre a realidade. Uma percepção clara da realidade, que não seja baseada em ilusões, pode nos deprimir, mas levanta questões existenciais que vão além disso. Não é positivo e construtivo levantar estas questões?
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Andrea D’Addio - Itália: Não tenho preferências. Gosto de filmes que fazem o público raciocinar articuladamente, com coerência de estilo e sem dissimulação. Se fazem isso, quer se trate de um filme sobre temas atuais ou sobre a alma humana, de alguma forma eles vão falar sobre o presente.
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Camila Gonzatto - Brasil: Os filmes são reflexos de seu tempo e dos desafios pelos quais o mundo está passando, em que a tradição e o conservadorismo crescem e batem de frente com os avanços sociais das últimas décadas, gerando essa obscuridade. No meu ponto de vista, esta não é a Berlinale mais sombria. Nas mostras Panorama e Forum, por exemplo, a guerra na Síria gerou filmes muito intensos nos anos anteriores. O cinema segue sendo uma arte capaz de mobilizar e fazer pensar. Acho importante ter filmes assim em tempos difíceis..
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Philipp Bühler - Alemanha: O termo “festival voltado ao público” engana um pouco. Há muito tempo, a Berlinale é o “festival do filme sombrio”. E, pelo que posso avaliar, pouco mudou em sua 70ª edição. Praticamente não há filmes de puro entretenimento aqui, e eles também não fazem falta. Ainda assim, seria bom se os filmes sem ilusões, políticos ou desafiadores de alguma outra forma tivessem que medir forças com outros tipos de filme. Em longo prazo, nenhuma unilateralidade é saudável, inclusive no cinema.
Foto (detalhe): © Goethe-Institut
Jutta Brendemühl - Canadá: Apropriada ou não, a distopia é a nossa realidade, um sinal dos tempos. Basta pensar no terrível assassinato em massa que coincidiu com a abertura da Berlinale. Eu gostaria que uma maior quantidade de filmes fosse mais comovente, mais eficaz, mais radical. Algumas das obras pareceram tocar em muitos temas políticos, mas não elaboraram o assunto como poderiam ter elaborado. Eram sombrias, mas não profundas o suficiente. Isso não se aplica ao filme Berlin Alexanderplatz , que encara a Europa de frente – de maneira muito sombria, não não sem esperança.