Blog da Berlinale 2021
Participação brasileira na Berlinale é tímida
Em sua 71ª edição, a Berlinale é forçada a se reinventar, a fim de permanecer ativa durante a pandemia. Três filmes brasileiros, além de uma coprodução com a Argentina, participam do Festival este ano.
Ao contrário dos já lendários fevereiros, em que os ursos, usados como símbolo da Berlinale (o Festival Internacional de Cinema de Berlim), se espalham pelas ruas da capital alemã para dar as boas-vindas às multidões aglomeradas nas portas dos cinemas, neste inverno europeu, eles ficarão em casa, hibernando atrás de monitores de computador. Os tempos são outros e um dos mais importantes festivais do mundo precisa se reinventar. É preciso se manter em pé: a Berlinale é uma plataforma essencial para os players da indústria audiovisual.
Em 2021, em meio à pandemia, a Berlinale será um festival em dois atos. Se o roteiro clássico de cinema tem três, nos resta acreditar que esses dois momentos darão conta de se comunicar tanto com a indústria audiovisual quanto com o público – objetivo final dos filmes e ponto alto da Berlinale. Foi pensando nisso que a organização dividiu, ou melhor, duplicou o festival: entre os dias 1° e 5 de março, os filmes serão exibidos digitalmente para o mercado e para a imprensa; em junho, se a pandemia estiver controlada, está prevista uma mostra presencial nos cinemas da cidade, com a participação de cineastas e suas equipes, tanto dentro de salas quanto ao ar livre.
Intensidade e a pluralidade
Para caber no novo formato, a Berlinale foi reformulada. Em 2021, serão exibidos 166 filmes de 59 países. Em 2020, foram 340 filmes de 71 países. Apesar da redução, a multiplicidade de olhares, línguas e estilos se mantém nas mostras já tradicionais do festival. Com uma seleção talvez menos sombria que a do ano passado, os filmes tampouco são leves. “Mesmo que apenas poucos filmes captem o novo cenário que estamos vivendo, todos carregam as marcas de tempos incertos. Há um sentimento de apreensão que está muito palpável”, escrevem Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian, os diretores do Festival.A veia política da Berlinale também é mantida, procurando trazer às telas realidades singulares de diferentes países. É o caso, por exemplo, do filme Courage (Coragem), de Aliaksei Paluyan, que mergulha nas manifestações pacíficas de 2020 na Bielorússia, que foram brutalmente contidas pelas forças do governo. Durante a primeira semana de março, além de estar na plataforma digital da Berlinale, o filme será exibido na Cidade do México e em São Paulo.
Pandemia e descaso
Em comparação com a Berlinale de 2020, na qual houve uma participação brasileira recorde com 19 filmes, o Brasil está presente em Berlim este ano de forma compacta. De acordo com Eduardo Valente, delegado do Brasil na Berlinale, a redução do número total de filmes em seções que normalmente selecionam filmes brasileiros, como Panorama, Forum, Generation e Berlinale Shorts, fez com que vários filmes que teriam chance de entrar acabassem ficando de fora.Além disso, há também outros fatores que influenciaram esse resultado. “Inegavelmente as condições entre a pandemia e a inação atual da Ancine dificultaram haver uma maior variedade de filmes brasileiros pleiteando as vagas. Ao menos cerca de 10 a 12 filmes de realizadores bem interessantes e que seguramente seriam vistos com muita atenção por Berlim não puderam ficar prontos, embora alguns já tenham sido filmados há algum tempo. Isso ocorreu por dificuldades com uma dessas duas questões acima citadas, quando não em função das duas”, reflete Valente. Ele também aponta a desvalorização do real como um fator importante. “Nas atuais condições, seguramente a capacidade dos produtores brasileiros de estarem presentes em mais coproduções com países europeus encontra-se prejudicada – algo que deve ser permanente, ou pelo menos durar por um bom tempo”, analisa.
Filmes brasileiros
Apesar da participação discreta do Brasil, a diversidade do cinema nacional segue sendo representada pela seleção de projetos bastante distintos para essa edição do festival. O longa-metragem A última floresta, de Luiz Bolognesi, integra a mostra Panorama Dokumente. O diretor participou da mesma mostra em 2018, com o longa Ex-Pajé. “A última floresta”, escrito em parceria com Davi Kopenawa Yanomami, retrata o cotidiano de um grupo Yanomami isolado, que vive em um território ao norte do Brasil e ao sul da Venezuela há mais de mil anos.
A Berlinale Talents, voltada para formação e aperfeiçoamento de profissionais jovens de todo o mundo, também vai acontecer através das telas de computador. A edição deste ano é guiada pelo tema “sonhos”. Quando as cortinas digitais se abrirem, vai ser possível conhecer o primeiro ato dessa jornada no mínimo inusitada para o universo do cinema.