Blog da Berlinale 2022
Um festival feminino como nunca

Urso de Ouro de melhor filme em 2022: “Alcarràs”, da diretora Carla Simón.
Urso de Ouro de melhor filme em 2022: “Alcarràs”, da diretora Carla Simón. | ©Piero Chiussi / Berlinale 2022

O festival deste ano marcou sua posição em prol da equidade de gênero no cinema: entre oito Ursos de Ouro concedidos ao fim da Berlinale, seis foram entregues a mulheres.

A decisão do júri da Berlinale, anunciada na noite da última quarta-feira (16/02), causou uma certa surpresa, já que o drama catalão Alcarràs, de Carla Simón, não estava entre os favoritos para levar o Urso de Ouro. A história de atmosfera densa, situada em uma região campestre da Catalunha, mereceu certamente o prêmio: em cores quentes e expressivas, a diretora relata o desaparecimento de uma forma de vida. Gerações da família Solé vêm ao longo do tempo arrendando uma plantação de pêssego, que em breve deverá dar lugar a painéis solares. Filmado com atrizes e atores leigos da comunidade de Alcarràs, o filme acompanha cada membro da família durante seu último verão na plantação, que sempre foi não apenas o local de trabalho, como também o centro da vida de todos.
 

“Alcarràs”, de Carla Simón, Berlinale, mostra competititva, 2022
“Alcarràs”, de Carla Simón, Berlinale, mostra competititva, 2022 | Foto (detalhe): © LluisTudela
O fato de o júri, presidido pelo diretor estadunidense M. Night Shyamalan, ter escolhido justamente Alcarràs como melhor filme, pode ter a ver com a leveza usada pela diretora para narrar os conflitos familiares e sociais. Por um lado, o drama – apesar de algumas passagens arrastadas – atende às ambições da Berlinale de ser o mais político entre os grandes festivais de cinema. A família Solé, no filme, representa a mudança estrutural nas regiões rurais da Espanha, onde as pequenas propriedades não conseguem mais sobreviver de seu trabalho em função da queda de preço dos produtos agrícolas.

Urso de Ouro para “Rabiye Kurnaz versus George W. Bush”

Dois prêmios do festival foram para o alemão Rabiye Kurnaz versus George W. Bush, de Andreas Dresen – o Urso de Prata de melhor atriz ficou com Meltem Kaptan, a protagonista. No longa, a apresentadora e comediante alemã de origem turca encarna com uma energia contagiante a mãe de Murat Kurnaz, prisioneiro em Guantánamo.
 
“Rabiye Kurnaz versus George W. Bush”, de Andreas Dresen
“Rabiye Kurnaz versus George W. Bush”, de Andreas Dresen | Foto (detalhe): © Andreas Hoefer / Pandora Film
Laila Stieler, a roteirista de Rabiye Kurnaz versus George W. Bush, recebeu também um Urso de Prata pela construção desta narrativa que é um apelo divertido em prol da democracia.

Maioria dos Ursos entregues a mulheres

Na mostra competitiva deste ano, concorreram 18 filmes de 17 países, sete deles dirigidos por mulheres. Seis entre os oito filmes premiados foram para cineastas mulheres, que dominaram a noite na cerimônia de entrega dos prêmios no Berlinale-Palast. Este é um bom sinal, uma vez que o festival assume uma postura clara em prol da equidade de gênero na indústria do cinema.

O Urso de Prata de melhor direção foi para Claire Denis, renomada diretora francesa de filmes autorais, por seu intenso drama de relacionamento Avec amour et acharnement (Both Sides of the Blade), com a esplêndida Juliette Binoche e Vincent Lindon nos papéis principais. Já em Robe of Gems, a diretora Natalia López Gallardo chama a atenção para uma história muito diferente. Com toques sutis e imagens fortes, ela narra as atrocidades do cartel de drogas no México, sem mostrar essa brutalidade de forma explícita. Essa estreia extraordinária da diretora mexicano-boliviana recebeu também um Urso de Prata (Prêmio do Júri).
 
“Robe of Gems”, de Natalia López Gallardo, Berlinale, mostra competitiva, 2022
“Robe of Gems”, de Natalia López Gallardo, Berlinale, mostra competitiva, 2022 | Foto: © Visit Films
Laura Basuki, que recebeu o Urso de Prata como melhor atriz coadjuvante (no papel da açougueira Ino, em Nana, de Kamila Andini), completa o grupo de mulheres premiadas nesta Berlinale.

Participantes permanentes

Em 2022, vários nomes constantes no festival retornaram à mostra competitiva, entre outros o diretor cambojano Rithy Panh. Seu distópico filme-ensaio-colagem Everything Will Be Ok recebeu o Prêmio Especial do Júri pela extraordinária contribuição artística. Já o diretor sul-coreano Hong Sangsoo, que concorreu ao Urso de Ouro no festival pela terceira vez consecutiva, recebeu o Grande Prêmio do Júri por seu The Novelist’s Film, uma história sobre encontros casuais narrada com leveza.

Foi uma pena que filmes maravilhosos, como o impactante psicodrama La Ligne, de Ursula Meier, que gira em torno de uma família disfuncional, ou Return to Dust, de Li Ruijun, não tenham levado nenhum prêmio. Esta contribuição da China na mostra competitiva trata também, como Alcarràs, embora de maneira totalmente diferente, da dissolução de formas de vida tradicionais. Uma mulher com necessidades especiais leves e seu marido permanecem tranquilamente unidos no trabalho duro que fazem juntos no campo e se recusam – por ora – a mudar para um conjunto habitacional localizado na redondeza.

Pandemia onipresente

Dramas, formatos documentais, observações silenciosas – nesta segunda edição do festival em meio à pandemia, a mostra competitiva da Berlinale tentou mais uma vez exibir uma combinação criteriosa de gêneros, a fim de apreender a diversidade do cinema. No que diz respeito aos temas, muitos filmes giraram em torno do desejo de amar, da importância da família, da identidade feminina e de rupturas emocionais e sociais. Esta foi, portanto, uma programação sólida. Por outro lado, praticamente não foram exibidas obras-primas da história do cinema, nem formatos pesados ou controversos, como se encontra regularmente nos grandes festivais de Veneza e Cannes.

Ao contrário da sátira Bad Luck Banging or Loony Porn, de Radu Jude, que levou o Urso de Outro na Berlinale de 2021, este ano nenhum dos filmes selecionados abordou diretamente a pandemia. Entre o público e nas instalações do festival, ela esteve, contudo, mais presente que nunca. O entorno da Postdamer Platz, região que sedia a Berlinale, sempre cheia de gente em outras edições do festival, permaneceu tranquila. Sem aglomerações na frente dos cinemas, sem filas nos guichês de venda de ingressos.
Mariette Rissenbeek, Carlo Chatrian e a equipe de “Peter von Kant” na abertura da Berlinale de 2022
Mariette Rissenbeek, Carlo Chatrian e a equipe de “Peter von Kant” na abertura da Berlinale de 2022 | Foto (detalhe) : ©Alexander Janetzko, Berlinale 2022
E o número de desfiles no tapete vermelho foi esse ano também bem menor. Ali, o glamour do ano ficou por conta das estrelas francesas, visto que a França foi o país mais presente na mostra competitiva: Juliette Binoche, Charlotte Gainsbourg (estrelando uma mãe solo em Les passagers de la nuit, de Mikhaël Hers) e François Ozon, cuja homenagem a Fassbinder, intitulada Peter von Kant, abriu o festival deste ano. Já Isabelle Huppert, a grande dame do cinema francês, não pôde receber o Urso de Ouro em homenagem a sua trajetória no cinema, por ter testado positivo para Covid-19 antes de embarcar para Berlim.

O plano da diretora Mariette Rissenbeek e do diretor Carlo Chatrian de realizar, apesar de todos os obstáculos, uma Berlinale presencial, respeitando regras estritas de higiene, parece ter dado certo. Apesar da programação reduzida, do anúncio adiantado da premiação e do conjunto de medidas devido ao coronavírus, o festival despertou, segundo a organização , um “vívido interesse” por parte do público e dos profissionais convidados. Ou seja, a cultura acontece, como se vê, mesmo em tempos de pandemia. Agora só o tempo dirá se este formato será suficiente para manter a Berlinale como um dos festivais de cinema mais importantes do mundo.

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