A diversidade e produtividade do cinema da República de Weimar surpreende até hoje. Muitos dos filmes rodados entre 1918 e 1933 e exibidos na Berlinale deste ano são verdadeiras descobertas. E continuam atualíssimos nos dias de hoje.
Metropolis, Nosferatu, People on Sunday – Menschen am Sonntag (Gente aos domingos) – o cinema da República de Weimar tem seu próprio cânon. Desta herança cinematográfica, 90% é de filmes considerados desaparecidos. Os que restaram são muitas vezes desconhecidos até mesmo entre especialistas, que têm dificuldades em reconhecer a produção da época em função da má conservação e da dificuldade de acesso às cópias remanescentes. A Retrospectiva da Berlinale deste ano omitiu de cara 100 títulos já conhecidos, a fim de voltar o olhar para outra coisa. Embora possa parecer um aproveitamento de sobras, a seleção traz, na verdade, muitas supresas.
Imagens modernas da mulher pouco antes do nazismo
O filme
Das Abenteuer einer schönen Frau (A aventura de uma bela mulher, 1932) é um exemplo. Uma comédia maluca (
screwball comedy) alemã feita antes dos clássicos norte-americanos do gênero: quem diria! Uma escultora de sucesso procura um lutador de boxe como modelo, engravida-se sem querer dele e surpreende o feliz pai com a decisão de querer criar o filho sozinha. Um ano antes da tomada do poder pelos nazistas, esse filme era feminismo puro. O diretor Hermann Kosterlitz foi forçado a emigrar e se tornou um diretor bem-sucedido em Hollywood. Usando o pseudônimo Henry Koster, era o diretor predileto de James Stewart.
Crítica social e vida judaica
Gerhard Lamprecht, conhecido como diretor de
Emil e os detetives (1931), adaptação para o cinema do livro de Erich Kästner, dirigiu também o drama infantil
Die Unehelichen (Filhos bastardos, 1926).
Das Lied vom Leben (A canção da vida, 1931, dirigido por Alexis Granowsky) e
Sprengbagger 1010 (1929, dirigido por Karl-Ludwig Acház-Duisberg) são apresentados como filmes de crítica social sobre o ambiente da classe trabalhadora. Resta aqui saber o que eles têm a acrescentar aos famosos “filmes proletários”, como
Kuhle Wampe (1932, direção de Slatan Dudow). Um destaque é de qualquer forma o antigo filme mudo
Das alte Gesetz (A lei antiga, 1923), de E.A. Dupont, um pioneiro da magia nas telas. Esse filme não faz exatamente parte da Retrospectiva do festival, mas é um dos longas recém-restaurados da série “Berlinale Classics” e narra a história do filho de um rabino originário da Galícia (região situada a oeste da atual Ucrânia e ao sul da Polônia de hoje), que, contra a vontade do pai, começa uma carreira como ator. A lei antiga faz parte de uma série de filmes daquela época que tentavam chamar a atenção para temas ligados à cultura judaica e discutiam, portanto, assuntos relativos ao antissemitismo e à assimilação dos judeus. Depois da Berlinale, essa versão maravilhosa e restaurada do filme será exibida em diversos lugares do Leste Europeu, entre outros no Goethe-Institut de Vilnius.