Blog da Berlinale 2018
CACHORROS FALANTES
O filme “Ilha dos cães”, de Wes Anderson, abriu o Festival Internacional de Cinema de Berlim. Gerasimos Bekas assistiu ao filme e, em seguida, saiu circulando pela cidade.
Wes Anderson não é mais um diretor, é uma marca. Não é culpa dele, a não ser pelo fato de ter desenvolvido consistentemente seu próprio estilo e, através dele, inspirado outros diretores. Com sua obra mais recente, explorou à exaustão o stop motion. Anderson brinca com a linguagem em vários níveis, transforma cachorros em protagonistas e dá uma vida impressionante a bonecas.
MUITO POUCO PARA ANDERSON
Ele cria um mundo que parece real, apesar de seus absurdos. As vozes usadas são fantásticas. No início, fiquei um pouco confuso, porque, na minha cabeça, via os rostos dos donos das vozes, mas depois me animei. Só que, até o final, achei que a Scarlett Johansson fosse a Jennifer Lawrence. Na vida real, isso não teria acontecido. Espero que me perdoem.Ilha dos cães é um filme feito com amor, mas inofensivo. A história é muito previsível e polida. Quero me entusiasmar com o menininho que embarca numa aventura em busca de seu cão de guarda. Isso me faz lembrar dos cachorros vira-latas da minha infância em Preveza, cidade portuária no litoral oeste da Grécia. Estou aberto, mas nem assim a história me pega.
Uma amiga sentada a meu lado no cinema acerta em cheio ao observar: “fofo”. Isso é muito pouco para um Wes Anderson. Muito pouco para um Urso de Ouro. A graça está nas ideias estéticas e nos detalhes, que ajudam a história, mas não enganam. O público ri automaticamente nos lugares certos. No final, o bem vence e o mal é castigado, mas sem exageros. Afinal, queremos que justiça seja feita.
QUANDO A COISA APERTA
Saindo da Potsdamer Platz, chego a uma conclusão importante sobre a Berlinale: quem acha que as festas do Festival são o lugar mais quente da cidade, se engana. Em Berlim, vale o mesmo que em Atenas. Se você gosta de um ambiente apertado e aconchegante, pegue o transporte público na hora do rush.Meu ponto alto é a linha de metrô U8, onde tenho a sensação de me fundir aos outros passageiros para formar uma escultura. Uma senhora idosa com lenço na cabeça pega no meu ombro, sorri e diz: “pelo menos não podemos cair apertado como está”. Luto para me segurar na barra amarela, duas moças se penduram no meu antebraço. Um homem todo de preto, careca e com maquiagem escura contornando os olhos se apoia à minha esquerda. Levo a sério minha tarefa de cobrir a Berlinale e pergunto, para investigar: “Sorry, are you famous or something?” (“Desculpe, você é famoso ou algo assim?”). E ele responde: “Não, cara, tenho estilo”. A conversa acaba aí. Por sorte, preciso descer.