Blog da Berlinale 2018
"Ex-Pajé" retrata povo indígena do Amazonas
Segundo longa-metragem do roteirista e diretor Luiz Bolognesi, Ex-Pajé (Ex-Shaman), exibido na mostra Panorama, é um filme que embaralha os limites entre documentário e ficção para retratar o dia a dia do povo Paiter Suruí, que vive no interior do Amazonas.
O fio condutor da narrativa é o protagonista Perpera, que tinha 20 anos quando seu povo teve o primeiro contato com os brancos no final dos anos 1960. Ele era o pajé – o chefe espiritual, responsável pela oração e comunicação com os espíritos, bem como pelas curas de enfermidades. “Antes as pessoas buscavam o pajé, agora elas tomam aspirina”, diz ele nos primeiros minutos de filme. Atualmente, a Paiter Suruí segue vivendo na mesma região, mas sua forma de vida passou por profundas transformações: os indígenas, ao longo do tempo, passaram a ter acesso a energia elétrica, eletrônicos e outras comodidades da vida urbana. Por outro lado, foram perdendo a espiritualidade original: a fé foi trocada pela conversão ao cristianismo evangélico e sua tradição está sendo pouco a pouco apagada.
O filme mostra o trabalho no campo, as refeições, os encontros na igreja, a contação de histórias para os mais jovens, os problemas com o corte ilegal de árvores por madeireiras na propriedade protegida, e foi construído juntamente com os indígenas. “Todas as noites, combinávamos o que íamos gravar no próximo dia. Às vezes, filmávamos o que eles iam fazer; em outras vezes, eles contavam o que tinha acontecido nas semanas anteriores e decidíamos reencenar de forma ficcional”, explica Bolognesi. Nesse caso, os protagonistas representavam seus próprios papéis. “Eu pedia a eles para me mostrar o que tinha acontecido e o que eles tinham sentido, e gravávamos as cenas”, conta o diretor.