Inspirador
Como Amsterdã está combatendo a crise climática por meio do artivismo

Fossil Free Culture chama a atenção  através de suas ações em eventos culturais.
Fossil Free Culture chama a atenção através de suas ações em eventos culturais. | Foto (detalhe): © Laura Ponchel

Nos últimos 20 anos, a indústria de combustíveis fósseis foi responsável por 75% das emissões de carbono causadas pelo ser humano no planeta. Além disso, essa indústria exerce muito poder e influência. Há cinco anos, a Fossil Free Culture (FFCulture) surgiu como um grupo de artistas, ativistas e trabalhadores culturais holandeses. Eles se uniram para acabar com o art-washing por empresas de combustíveis fósseis no setor cultural holandês.
 

Por Jonaya de Castro e Laura Sobral

Inspirador é um projeto que repensa a sustentabilidade do espaço urbano, ao identificar e compartilhar iniciativas e políticas de mais de 32 cidades em todo o mundo. A pesquisa ligada ao projeto sistematiza exemplos em categorias, representadas por hashtags.

#imaginação_política
Questões que já eram importantes no dia a dia agora se mostram urgentes, e algumas ideias já desenvolvidas podem nos inspirar a lidar com o que atualmente se apresenta da melhor maneira possível. Campanhas criativas e políticas emergenciais foram criadas para tentar influenciar o futuro do ponto de vista do desenvolvimento cultural. Nesta categoria, apresentamos laboratórios de design e sustentabilidade, cultura do cuidado, fóruns e plataformas para discussões filosóficas sobre esperança, transformação e imaginação política.


Inicialmente, um de seus principais objetivos era conscientizar e iniciar um diálogo que permitisse que as pessoas vissem que as empresas de combustíveis fósseis, apesar de financiar instituições culturais, faziam mais mal do que bem. “Nós, ativistas e artistas, vivemos em uma bolha porque muitas pessoas, aqui, na Holanda, realmente acreditam que a Shell é uma empresa incrível, que a Shell está ocupada com a transição, o que não é verdade. Então, trazendo informação, trazemos novos conhecimentos”, diz Frida Escalante, uma das fundadoras do grupo.

Art-Washing

O art-washing descreve o uso de arte e artistas para distrair ou legitimar ações negativas de um indivíduo, organização, país ou governo. O objetivo da Fossil Free Culture é acabar com a art-washing por empresas de combustíveis fósseis na Holanda. O grupo se concentra em diminuir o poder que essas empresas têm. Com suas diferentes performances, a Fossil Free Culture pressiona as instituições de arte a se libertarem da indústria de combustíveis fósseis. Quando a Fossil Free Culture foi formada, grande parte do grupo era composta por artistas, e eles começaram sua experiência com o ativismo organicamente.

A parte mais inspiradora do projeto, para Frida, é, como artista, trabalhar com ativistas. Antes da Fossil Free Culture, ela trabalhou como artista politicamente engajada por mais de 20 anos, mas esses projetos nunca resultaram em uma mudança social concreta: “Foi somente neste projeto, quando começamos a trabalhar em conjunto com ativistas e implementar táticas e estratégias ativistas em combinação com a arte que de repente criamos uma mudança social concreta.”

Sua segunda apresentação os levou a passar três dias na prisão. “Fizemos, com muita tranquilidade, uma bela apresentação no Museu Van Gogh, pedindo o corte do patrocínio antiético, que o museu estava recebendo da Shell, e acabamos passando três dias na cadeia, o que foi totalmente desproporcional”, conta Frida . O incidente provocou muito apoio de ativistas, que arranjaram advogados que trabalhavam pro bono, para libertar os artistas da Fossil Free Culture.

As instituições culturais têm a responsabilidade de dar o exemplo e recusar patrocínios antiéticos?

Para os ativistas, no entanto, é difícil perceber o real impacto de seu trabalho, de como estão afetando as instituições com as quais trabalham. “Você apenas percebe isso quando as coisas acontecem e, então, se pergunta 'Por que eles terminaram o patrocínio?'”, Frida compartilha. Quando começaram seus trabalhos, havia mais de 15 grandes instituições que aceitavam o patrocínio de combustíveis fósseis, como o Museu Van Gogh, o Rijksmuseum e o Concert Hall. Agora, restam apenas dois museus na Holanda que aceitam patrocínio de combustíveis fósseis.

Essas performances expõem as questões éticas das instituições: valorizar a cultura e, ao mesmo tempo, receber patrocínios antiéticos de empresas responsáveis ​​por múltiplos casos de ecocídio ao redor do mundo. Por que fornecer um palco para essas empresas limparem suas imagens em nossa sociedade, sabendo, ao mesmo tempo, que estão agindo de forma irresponsável?

“Sempre os convidaremos a estar do lado certo da História, porque achamos que esses grandes museus e instituições de arte têm o dever de dar o exemplo neste momento, em que as mudanças climáticas são um problema que afeta a todos nós”, declara Frida.

Um plano, a improvisação e uma imagem

O trabalho da Fossil Free Culture precisa ser muito criativo. “As apresentações são muito desafiadoras, porque você entra na instituição como uma pessoa normal, mas precisa trocar de roupa e trazer as coisas sem que ninguém perceba”, explica Frida. Embora haja um plano, a performance sempre consiste em alguma improvisação e um confronto com a equipe de segurança. “Temos um porta-voz para explicar que não vamos danificar nada e que levaremos apenas alguns minutos.” A principal tarefa desse porta-voz é atrasar as ações do pessoal de segurança.

A performance mais desafiadora para Frida foi a que eles fizeram no Museu Van Gogh. Eles usaram uma faixa de doze por seis metros, que foi dividida em 44 pedaços menores, como um quebra-cabeça. Cada um dos 40 participantes ficou responsável por duas peças. Ele logo foi retirado. Existe apenas uma imagem mostrando o banner certo.
 

O impacto do artivismo

As instituições respondem de diferentes maneiras às performances do artivismo. Após uma de suas apresentações, o Concert Hall os convidou para uma palestra, ao que a FFCulture respondeu que estavam abertos para tomar um café, se cancelassem seu patrocínio com a Shell. “Sabíamos que o que eles queriam era que não continuássemos a nos apresentar lá”, explica Frida. O coletivo aproveitou para criar uma série de posts no Facebook, mostrando que iam regularmente ao Café do Concert Hall esperando o diretor tomar um café. Com a campanha em andamento nas mídias sociais, as pessoas ficaram cientes da situação e começaram a se perguntar de quem o Concertgebouw recebe seu financiamento. Apenas quatro meses após o início de sua atuação, a instituição encerrou seu patrocínio com a Shell.

“Especialmente no setor cultural as pessoas são muito ingênuas em dizer, 'mas, vamos lá, precisamos do dinheiro; não temos dinheiro”, diz Frida. Discutir o financiamento real para essas instituições foi um dos maiores obstáculos para o grupo. “O interessante de ver é que, na verdade, não recebemos muito apoio do setor cultural”, compartilha Frida. Instituições que apoiaram seu trabalho como artista não financiam seu trabalho na Fossil Free Culture. O coletivo é apoiado por organizações artísticas como Stichting DOEN, fundos de ativistas como X-Y Funds, Guerrilla Foundation, MamaCash e Urgent Fund, e empresas éticas como a empresa de roupas Patagonia e a marca de cosméticos Lush. Além destas fontes de financiamento, o coletivo recebe doações diretas e arrecada dinheiro com a venda de roupas e produtos.

O público pode mudar a sociedade?

As pessoas que frequentam essas instituições culturais fazem parte da elite, aquelas que podem realmente mudar alguma coisa em nossa sociedade. Eles usam o art-washing para manter seu poder

Frida Escalante

Toda vez que a Fossil Free Culture faz uma performance artística, distribui panfletos que explicam suas preocupações e sua filosofia. Esses panfletos geralmente contêm fatos sobre as empresas de combustíveis fósseis, seus crimes e deficiências quando se trata de transição para políticas mais verdes. Frida cita a Shell como exemplo e afirma que é “uma empresa muito pragmática e nada comprometida em resolver o problema das mudanças climáticas. Ela é muito mais focada no lucro. Esse é o seu principal e único objetivo”.

Ela conclui que o sistema é sustentado pela estrutura geral “paternalista, neoliberal” e pela “mentalidade colonial”, tornando possível que as empresas de combustíveis fósseis ainda detenham muito poder, apesar da necessidade premente de mudança “diante das mudanças climáticas”. O projeto é inspirador, pois cria uma visão de um futuro livre de combustíveis fósseis e uma estrutura social mais justa. Como Frida diz: “Por que ainda não estamos fazendo as escolhas certas?”
 

ESTA SÉRIE É SOBRE O QUÊ?

O projeto Inspirador para Cidades Possíveis é uma criação colaborativa de Laura Sobral e Jonaya de Castro com o objetivo de identificar experiências entre iniciativas, conteúdos acadêmicos e políticas públicas que visam cidades mais sustentáveis e cooperativas. Se assumirmos que nosso estilo de vida dá origem aos fatores que estão por trás da crise climática, temos que admitir nossa corresponsabilidade. Cidades verdes planejadas com autonomia alimentar e saneamento baseado em infraestruturas naturais podem ser um ponto de partida para a construção do novo imaginário necessário para uma transição. O projeto apresenta políticas públicas e iniciativas coletivas de diversas partes do mundo que apontam para outros modos de vida possíveis.
 
O projeto sistematiza casos e ideias inspiradores nas seguintes categorias, representadas pelas hashtags:

#redefinir_desenvolvimento, #democratizar_espaço, #(re)generar_recursos, #intensificar_resistência_e_colaboração, #imaginação_política

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