Inspirador
Como São Paulo está transformando crimes ambientais em arte

Uma fronteira entre a floresta tropical verde e as árvores queimadas
O desmatamento e as queimadas na Floresta Amazônica continuam em ritmo alucina | Foto (detalhe): © André D’Elia

Nos últimos dois anos, o Brasil bateu um alarmante novo recorde: 30% do ecossistema do Pantanal foi queimado em apenas um ano. Um artista paulista quer chamar a atenção para isso.
 

Por Jonaya de Castro e Laura Sobral

Inspirador é um projeto que repensa a sustentabilidade do espaço urbano, ao identificar e compartilhar iniciativas e políticas de mais de 32 cidades em todo o mundo. A pesquisa ligada ao projeto sistematiza exemplos em categorias, representadas por hashtags.

#imaginação_política
Questões que já eram importantes no dia a dia agora se mostram urgentes, e algumas ideias já desenvolvidas podem nos inspirar a lidar com o que atualmente se apresenta da melhor maneira possível. Campanhas criativas e políticas emergenciais foram criadas para tentar influenciar o futuro do ponto de vista do desenvolvimento cultural. Nesta categoria, apresentamos laboratórios de design e sustentabilidade, cultura do cuidado, fóruns e plataformas para discussões filosóficas sobre esperança, transformação e imaginação política.

“Brigadista da Floresta,” Mundano, 2021.
“Brigadista da Floresta,” Mundano, 2021. | Foto: © Sato do Brasil
Um grande painel artístico destaca a destruição dos grandes biomas brasileiros que estão sendo, literalmente, reduzidos a cinzas. A cada ano os incêndios florestais estão aumentando no Brasil. Nos últimos dois anos, o País bateu recordes tristemente impressionantes, com 30% do bioma do Pantanal queimado em apenas um ano. Cinzas, restos de árvores e animais carbonizados foram a matéria-prima para a paleta de tinta cinza que foi usada pelo “artivista” brasileiro (neologismo que combina as palavras arte e ativismo) Mundano para pintar um painel no centro da cidade de São Paulo, chamado “Brigadista da Floresta”.

A ideia é sentir a dor da floresta.

Mundano, o artista por trás do projeto "Cinzas da Floresta".

 

Um projeto multimídia

O projeto Cinzas da Floresta teve três partes: uma expedição, um painel e um documentário, utilizando o artivismo como ferramenta para denunciar crimes e sensibilizar para a causa ambiental no Brasil.

O desafio da expedição foi conhecer mais sobre os incêndios florestais criminosos e também os bombeiros voluntários que estão combatendo esses incêndios para entender sua realidade. A jornada começou em junho de 2021, quando um grupo de quatro artivistas viajou de São Paulo para o interior do País. Percorreram 10 mil quilômetros e passaram por quatro biomas: Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica.

Um momento importante da viagem foi conhecer a Brigada São Jorge, um grupo de bombeiros voluntários que luta pela preservação do Cerrado. Os ativistas experimentaram em primeira mão o trabalho árduo dos bombeiros e aprenderam sobre o fogo e a floresta com eles. “A temperatura do fogo era inacreditável. Fiquei muito admirado e impressionado com o seu trabalho. Então, fico feliz que o projeto também os esteja ajudando a ter mais reconhecimento”, explica Mundano.
 
O artista Mundano e o brigadista florestal Curva de Vento.
Foto: © André D'Elia
O mural "Brigadista da Floresta" é um apelo, incentivando todos a agirem agora. “Não temos mais tempo. Também estamos virando cinzas porque também somos Natureza”, diz Mundano. Mas não é apenas um protesto. A ideia é também homenagear os bombeiros voluntários — os brigadistas que colocam suas vidas em perigo para parar e controlar o fogo. São super-heróis invisíveis, que não têm o reconhecimento de que precisam e merecem, assim como o apoio necessário para esse tipo de trabalho.

Tinta feita com as cinzas

Mundano criou sua própria tinta usando as cinzas da floresta. É uma técnica primitiva: os humanos usam cinzas de carvão para pintar há muito tempo. Por exemplo, no Parque Nacional da Serra da Capivara está a maior e mais antiga concentração de pinturas pré-históricas das Américas, datando de 22.000 anos atrás.

Com base em métodos antigos, Mundano fez sua pesquisa com o objetivo de criar uma tinta das cinzas, adicionando verniz à base de água ao material. “Estamos experimentando durante todo o processo. E quando usávamos a tinta cinza, atingíamos resultados bem diferentes a cada vez. Se tiver um pouco mais de água, ou se estiver mais quente do que ontem, ou se pararmos porque começou a chover, muda completamente o resultado”, conta Mundano. O objetivo era criar uma tinta que tivesse a capacidade de durar tanto quanto uma pintura de graffiti, mesmo exposta ao mau tempo.
 
Mundano coletando cinzas
Mundano coletando cinzas | Foto: © André D’Elia
O mural "Brigadista da Floresta" é uma interpretação da pintura de Candido Portinari, "Lavrador de Café", obra originalmente produzida em 1934. A arte original retratava um homem negro representando a mão de obra das plantações de café na década de 1930 no Brasil. Agora, o personagem é reinterpretado como um bombeiro voluntário. A pesquisa sobre a tinta cinza foi bem sucedida após dois meses, e o painel foi pintado.

Resíduos de crimes ambientais

“Os resíduos de crimes ambientais são, infelizmente, matéria-prima abundante em todo o Brasil. Presenciar as queimadas na floresta foi essencial na pesquisa das cinzas, que se tornaram uma denúncia neste momento de destruição ambiental”, diz o artista. A expedição, o painel e todos os esforços de apoio às brigadas estão registrados no minidocumentário Cinzas da Floresta, dirigido por André D'Elia, lançado em 2022.

Usar a arte para denunciar crimes sociais ou ambientais não é novidade para Mundano. Em 2020, o artivista reproduziu uma pintura de outra artista brasileira, Tarsila do Amaral, usando lama tóxica vinda de Brumadinho, cidade brasileira que ficou mundialmente conhecida pelo rompimento de uma barragem que liberou uma enxurrada de lama, matando 270 pessoas em 2019. Este painel é chamado de "Operários de Brumadinho". O rompimento da barragem de Brumadinho foi o maior acidente de trabalho no Brasil, em termos de perda de vidas humanas, e o segundo maior acidente industrial do século — um dos maiores desastres ambientais de mineração no País.

„Operários de Brumadinho“, Mundano, 2019
„Operários de Brumadinho“, Mundano, 2019 | Foto: © André D’Elia

Um país em chamas

O Brasil queimou uma área maior que a Inglaterra por ano entre 1985 e 2020, segundo um levantamento do MapBiomas. Foram 150.957 quilômetros quadrados por ano, o equivalente a 1,8% da área do País. A área acumulada no período atinge praticamente um quinto do território nacional: 19,6% do Brasil. O desmatamento bateu um novo recorde e mostra o triunfo da política de Bolsonaro, que muitos veem como um projeto de ecocídio. O número é devastador e mostra o Brasil real que o governo escondeu do mundo durante a COP26. A área total devastada durante este período foi de 13.200 quilômetros quadrados. Na edição anterior, o número foi de 10.851 quilômetros quadrados entre agosto de 2019 e julho de 2020. Um aumento de 22% entre os dois relatórios. É a primeira vez na História que o Brasil vê quatro aumentos consecutivos na devastação da Amazônia.

Trabalhando como uma equipe

Sobre a pintura, Mundano diz que "tudo foi feito em equipe. Ninguém faz um projeto como esse sozinho. Éramos quatro artistas pintando". Havia mais de vinte pessoas envolvidas, incluindo produtores, artistas e jornalistas. Para garantir o financiamento, eles começaram a mostrar o projeto para outras organizações que também estão tentando proteger a Amazônia, tanto nacional quanto internacionalmente. A sociedade civil também doou. Havia uma mistura de pessoas interessadas em amplificar a voz da floresta.

O espírito de equipe também inspirou as organizações que apoiaram a realização do projeto multimídia. A imensa pintura no meio da cidade foi realizada em cooperação com a Secretaria de Cultura de São Paulo, que autorizou o uso do espaço público e cedeu parte do financiamento, além do apoio de ONGs como Greenpeace, WWF e Be The Earth.
 

Os resultados falam por si. O projeto alcançou mais de quatrocentas grandes reportagens com entrevistas em todo o mundo sobre desmatamento, incêndios florestais e crise climática. E os resultados não param de crescer. "Acho que a missão foi cumprida", conta Mundano. No entanto, os incêndios ainda não pararam. Há muito a fazer. O objetivo real é mudar o comportamento da humanidade. Se queremos salvar a floresta e sobreviver, devemos trabalhar em equipe e rapidamente.
 

ESTA SÉRIE É SOBRE O QUÊ?

O projeto Inspirador para Cidades Possíveis é uma criação colaborativa de Laura Sobral e Jonaya de Castro com o objetivo de identificar experiências entre iniciativas, conteúdos acadêmicos e políticas públicas que visam cidades mais sustentáveis e cooperativas. Se assumirmos que nosso estilo de vida dá origem aos fatores que estão por trás da crise climática, temos que admitir nossa corresponsabilidade. Cidades verdes planejadas com autonomia alimentar e saneamento baseado em infraestruturas naturais podem ser um ponto de partida para a construção do novo imaginário necessário para uma transição. O projeto apresenta políticas públicas e iniciativas coletivas de diversas partes do mundo que apontam para outros modos de vida possíveis.

O projeto sistematiza casos e ideias inspiradores nas seguintes categorias, representadas pelas hashtags:

#redefinir_desenvolvimento, #democratizar_espaço, #(re)generar_recursos, #intensificar_resistência_e_colaboração, #imaginação_política
 

 

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