Future Perfect
Mirante do Solar: “A colonização hoje é digital”
Casa de Cultura e Ética dialoga com as singularidades naturais da Ilha de Itaparica e oferece atividades em teatro, cinema, literatura, dança e artes visuais. Todas gratuitas.
Balneário de repouso da classe privilegiada baiana em função das belas praias e da água mineral da Fonte da Bica: estas eram as características de Itaparica, a maior ilha da Baía de Todos os Santos, quando Pasqualino Magnavita começou a frequentar a região, aos 10 anos de idade. “Em 1968, comprei uma ruína aqui. Era a sede de uma fazenda. Pela arquitetura é possível observar que, na época, a preocupação era com a fachada das casas, não se tinha amor pela praia”, conta ele.
Quando a balsa foi implantada para fazer a travessia Salvador – Itaparica, o arquiteto Magnavita passou a frequentar a Ilha todos os finais de semana. “Sempre tive essa relação forte com o mar, com o sol. Ainda hoje, paro de trabalhar para ver o pôr-do-sol.” Nos anos 1990, ele ampliou a casa para acolher os sobrinhos que frequentavam Itaparica para veranear. Logo que se aposentou, passou a residir no espaço, onde fazia desenhos e desenvolvia projetos. Entre eles, o Mirante do Solar, que começou a ser gestado em 2007.
Diálogo com o lugar
Resistência criativa
Seu projeto exercita os princípios do novo paradigma ético-estético contemporâneo, que incorpora a dimensão da resistência criativa. “Não temos mais o paradigma da arte pela arte. Mas vivemos o princípio ético, no sentido de criar resistindo ao controle social”, reflete. O espaço aberto e acolhedor foi idealizado, projetado, construído e financiado por Magnavita. Para ele, o importante é criar “coisas que possam ajudar a população a superar o controle existente, pois estamos todos com a invisível coleira eletrônica no pescoço”.
Atitude política
“Ontem teve sessão de cinema com o filme Amazônia. Depois conversamos que não se trata somente de ver os animais, as plantas, mas na Amazônia vivem também seres humanos. A devastação das terras agride os índios que moram nesses locais. E estão cortando a mata para favorecer a agricultura intensiva. É a soja que tem que dar dinheiro. É uma desigualdade social enorme. Promover esta reflexão é construir uma atitude ética de mostrar que não é somente a Amazônia no seu aspecto estético.”
Ou seja, Magnavita faz microrrevoluções, ciente de que a mudança é lenta pelo seu alcance e tem poder limitado de multiplicação. “É preciso lutar com muita força. As pessoas estão de costas para o sol. A colonização hoje não é só da terra, ela é digital.”