Abismo digital
Decolonizando a internet

Dia a dia no Zimbábue: aglomeração em um dos poucos lugares públicos com wi-fi  gratuita. Pessoas em Mutare, aproximadamente 270 quilômetros ao leste da capital Harare, dia 23 de novembro de 2019. Segundo um recente relatório independente, o Zimbábue tem um dos fornecimentos de dados móveis mais caros do mundo. O alto custo dos dados é atribuído principalmente ao fato de o país contar com relativamente poucos provedores de internet móvel e por se tratar de um país localizado no interior do continente.
Dia a dia no Zimbábue: aglomeração em um dos poucos lugares públicos com wi-fi gratuita. Pessoas em Mutare, aproximadamente 270 quilômetros ao leste da capital Harare, dia 23 de novembro de 2019. Segundo um recente relatório independente, o Zimbábue tem um dos fornecimentos de dados móveis mais caros do mundo. O alto custo dos dados é atribuído principalmente ao fato de o país contar com relativamente poucos provedores de internet móvel e por se tratar de um país localizado no interior do continente. | Foto (detalhe): Tsvangirayi Mukwazhi © picture alliance / AP Photo

A internet é marcada por estruturas de poder. O colonialismo digital demonstra como as hierarquias estabelecidas se consolidam na rede global. Enquanto isso, a resistência aumenta entre artistas e ativistas.

No início do milênio, muita gente ainda pensava esperançosamente que, na internet, todas as pessoas seriam iguais. No fim dos anos 1950, quando a internet foi passando pouco a pouco de um banco de ideias militar para a comunidade científica e chegando de início a um pequeno público, ela parecia uma utopia. Por trás da máscara do anonimato, todas as pessoas que a utilizassem deveriam ser iguais e, portanto, ter os mesmos direitos. Sem hierarquias, nem mesmo entre quem a utilizasse em países diferentes.
 
Mas a esperança da internet enquanto espaço livre de discriminação permanece até hoje uma ilusão. Muito pelo contrário: as estruturas de poder já estão firmemente ancoradas na infraestrutura tecnológica. Também na esfera virtual elas dão continuidade à história do colonialismo sob a forma de um “colonialismo digital” ou “eletrônico”.
 
Muitos algoritmos de inteligência artificial são racistas. Muitos programas de reconhecimento facial utilizados para vigilância não conseguem reconhecer “pessoas não brancas”. Especialmente as mulheres negras são muitas vezes classificadas erroneamente por essas tecnologias. Isso deve-se sobretudo às pessoas que programam esses aplicativos: trata-se, na maioria das vezes, de homens brancos provenientes de um contexto ocidental. Para eles próprios, é muito mais difícil reconhecer “pessoas não brancas” do que pessoas brancas. Isso marca de maneira mais ou menos inconsciente sua visão de mundo e, assim, também as tecnologias que desenvolvem.
 
Tudo continua como sempre foi. Mesmo quando se trata de conexões globais, há uma divisão entre o “Norte” e o “Sul”. As estruturas coloniais que surgiram a partir do século 16 podem ser encontradas hoje sob nova forma. A indústria de alta tecnologia não se sustenta sem as matérias-primas do Sul. Ao longo das antigas rotas dos navios que transportavam pessoas escravizadas, hoje são levados minerais raros para o Norte. Eles são extraídos, sob condições muuitas vezes péssimas de trabalho nos países do Sul. O cobalto, por exemplo, é extraído em minas centro-africanas.
 
Telefones celulares, computadores e outros aparelhos eletrônicos das corporações globais são montados nas fábricas de países com salários baixos, onde as condições de trabalho são frequentemente ruins.
  
Não se trata, aliás, apenas da produção de bens: nas Filipinas, pessoas responsáveis por mediar conteúdos vasculham todos os dias as mídias sociais à procura de vídeos violentos – a serviço das grandes empresas de mídia social e sem qualquer tipo de apoio psicológico.

Os cartéis da Amazon, Facebook, Google…

Mas o colonialismo digital ainda vai além. Ele permeia a rede de forma quase total e descreve “a nova implantação de um poder quase imperialista sobre um grande número de pessoas, sem o seu consentimento explícito”, conforme aponta a advogada Renata Avila, defensora dos direitos humanos, ao analisar a continuidade do colonialismo.

 

Mesmo quando se trata de conexões globais, existe a divisão entre o “Norte” e o “Sul”

Avila é uma ativista da Guatemala e consta entre as pessoas mais conhecidas entre as que criticam o colonialismo digital. No “Internet Health Report” da Fundação Mozilla, oficialmente reconhecida como de utilidade pública, a ativista critica sobretudo a interligação entre política e tecnologia. O governo dos Estados Unidos, por exemplo, mandou bloquear os serviços de armazenamento em nuvem da empresa estadunidense Adobe na Venezuela, em meados de 2019, em reação às turbulências no país sul-americano. Por isso, Avila defende sobretudo uma regulamentação mais forte de cartéis e uma tecnologia que sirva ao bem comum. Ela demanda alternativas às corporações que dominam internacionalmente a internet, como Amazon, Facebook, Google, e acha que iniciativas locais devem ser fortalecidas. Sua solicitação é: “decolonize a internet!”.
 
Mas as alternativas locais muitas vezes já fracassam apenas pelo fato de que, em muitas regiões do mundo, não há nenhum acesso à internet, ou as conexões são lentas demais. Este é um dilema, pois as ofertas dos global players também são naturalmente utilizadas em muitas regiões do Sul Global. E os gigantes da internet oferecem seus serviços de bom grado também nessas regiões – só que obviamente não de graça. Como o dinheiro é geralmente escasso ali, clientes pagam sobretudo com seus dados pessoais.

Das 70 mil pessoas ativas na autoria da Wikipedia em todo o mundo, nem mil são provenientes da África.

Assim, o Facebook inaugurou em 2014 em alguns países da África e do Sul da Ásia seu serviço de internet “Free Basics”. Trata-se de um aplicativo que coloca à disposição uma versão reduzida da internet. Ela foi concebida em especial para regiões com infraestrutura ruim e mostra gratuitamente páginas selecionadas, enquanto muitas outras não podem sequer ser acessadas. A condição exigida para utilizar o “Free Basics” é o registro através de uma conta do Facebook – ou seja, a disponibilização de dados pessoais.
 
A Índia, que é ao lado de outros países uma grande crítica dessa forma de colonialismo digital, proibiu esse serviço em 2016. Trata-se na maioria dos casos de países com um histórico colonial e que hoje possuem comparativamente uma infraestrutura bem desenvolvida. Eles estão em condições de fortalecer os próprios serviços nacionais – e, assim, também as economias locais. Grande quantidade de ativistas locais criticam também esta tendência, pois não enxergam nela uma melhora do quesito proteção de dados. Argumentam que, em vez das empresas (em sua maioria) estadunidenses, os governos e empresas locais teriam acesso aos dados de quem utiliza o serviço. Neste caso a narrativa do colonialismo digital seria mal utilizada para a própria agenda política.
 
Diante dessas condições estruturais, não é surpreendente que todo o saber disponível na internet esteja longe de ser livre e objetivo. Tomando a Wikipedia como exemplo: a maioria das pessoas responsáveis pela autoria do que é publicado ali (e também na rede aberta correspondente Wikimedia) é de homens – muitos deles, diga-se de passagem, brancos –  que escrevem frequentemente a partir de uma perspectiva privilegiada e unilateral. “Apenas 20% das pessoas que contribuem para a Wikimedia são provenientes do Sul Global”, constata a ativista da internet e escritora indiana Anasuya Sengupta em uma entrevista para a emissora alemã Deutsche Welle. Ela fundou o grupo “Whose Knowledge?” (Conhecimento de quem?), com o objetivo de tornar a Wikipedia mais multifacetada e objetiva.
 
“Wikimania”, o encontro anual de pessoas que se dedicam à Wikipedia, aconteceu em 2018 na Cidade do Cabo e, com isso, pela primeira vez ao sul do continente africano. O conhecimento proveniente da África está particularmente subrepresentado: das 70 mil pessoas ativas na autoria da Wikipedia, apenas 14 mil são provenientes de países do Sul Global. Na África, segundo Dumisani Ndubane, da Wikimedia da África do Sul, não chegam a ser nem 1 mil. Isso deve mudar.

Tradições narrativas não podem ser digitalizadas 

Mas será que é só o conhecimento arquivado na internet que tem valor? O ativista neozelandês Karaitiana Taiuru responde a essa pergunta a partir da perspectiva Maori e remete ao fato de que nem toda espécie de conhecimentos está registrada sob a forma escrita e, portanto, não pode ser arquivada sob o formato digital. Taiuru destaca especialmente as tradições orais de muitas culturas indígenas.
 
O resultado da digitalização é muitas vezes apenas um registro escrito do conhecimento de acordo com os padrões narrativos ocidentais e estabelecidos. Para Taiuru, todo conhecimento na internet integra-se permanentemente à estrutura hierárquica, na forma de “perspectivas coloniais entrelaçadas com a tecnologia”.
 
No contexto da discussão sobre o colonialismo digital, há cada vez mais impulsos vindos das artes plásticas – especialmente da artemídia. Na qualidade de “cyberfeministas”, grande quantidade de artistas critica as estruturas coloniais de poder na internet, utilizando para isso exatamente as mesmas mídias digitais. A videoartista franco-guianense Tabita Rezaire, por exemplo, apresenta suas obras na crua estética da internet do início dos anos 2000, retornando, assim, às raízes utópicas da rede. Em sua obra “Deep Down Tidal” (No fundo da maré), Rezaire trabalha com imagens que reluzem, vozes distorcidas e animações confusas. As personagens de seus vídeos mergulham em mundos marinhos, em cujo fundo estão aqueles cabos de internet que interconectam sobretudo o Norte Global, e fazem acusações relativas a preconceitos no espaço digital.
 
A advogada e defensora dos direitos humanos Renata Avila, da Guatemala, deseja que as pessoas críticas ao colonialismo digital se unam. Trata-se de mudar a internet pouco a pouco em muitos lugares. Mas ela bem sabe que a promessa de um dia existir uma internet decolonizada, justa e livre de discriminações permanece uma utopia. Neste ponto, o mundo digital não é diferente do analógico.

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