Espanha colonial
Uma memória em suspenso
Os projetos de criação e investigação que lutam contra a amnésia colonial na Espanha se multiplicam, mas têm pouca visibilidade e encontram na falta de vontade política um muro muito difícil de ultrapassar.
A memória é ingrata na Espanha. Os vencedores da Guerra Civil (1936-1939) impuseram sua hegemonia cultural sobre a leitura do passado, difundindo os mitos de uma colonização altruísta da América ou o Testamento de Isabel, a Católica, que encorajava as tropas cristãs a dar prosseguimento, no norte da África, à missão redentora iniciada em plena Idade Média com a Reconquista de Al-Andalus. A transição democrática, temerosa de acirrar em excesso os ânimos do chamado “franquismo sociológico”, apenas tentou elaborar outra memória oficial que não fosse a da superação moral e política do regime anterior. Para complicar as coisas, a Lei de Anistia, aprovada em 1977 em meio a grandes tensões políticas, promoveu o esquecimento como única estratégia eficaz para a reconciliação dos espanhóis. Como se surpreender, então, com o olhar acrítico e indiferente com que se aborda, na Espanha contemporânea, o extermínio e saque de povos indígenas do Novo Mundo, ou a modesta experiência colonial africana, ainda hoje inconclusa, segundo arquivos como o do Saara Ocidental? Se boa parte dos Estados europeus submetem a uma revisão, com mais ou menos convicção, seu passado colonial e as múltiplas heranças que ele deixou, o Estado espanhol continua submerso em uma amnésia da qual não parece querer sair.
A ARTE COMO PROMOTORA DA MEMóRIA
Ainda assim, são numerosas as iniciativas que, ao longo das últimas décadas, tentaram lutar contra o esquecimento. Não é tanto um problema de projetos e esforços, individuais e coletivos, mas sim de visibilidade. O campo acadêmico foi o cenário das primeiras ações de sensibilização sobre o pesado legado colonial, pelo menos desde a década de 1980. E, já no início do século 21, alguns projetos surgidos no âmbito de pesquisa em artes deram um novo impulso a um debate que, de certo, ganhava visibilidade em outras metrópoles europeias. O primeiro desses projetos relacionava-se aos arquivos do OVNI (Observatorio del Vídeo No Identificado ), uma ideia dirigida no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona pelo malogrado Toni Serra (aliás, Abu Ali), que em 2006 organizou um festival audiovisual pioneiro sob o título El sueño colonial, seguido por outras iniciativas afins em anos posteriores.INICIATIVAS FORMAM REDES
A mostra do OVNI foi a ponta de lança de um conjunto de projetos que se tornaram mais frequentes desde então. Em 2010, o Centro de Arte Rainha Sofia, de Madri, organizou Principio Potosí, uma exposição coletiva que reunia a multiplicidade de artistas nacionais e internacionais unidos pela preocupação comum em reformular, em linha com a corrente decolonial, os lugares-comuns que associam o surgimento do capitalismo à Revolução Industrial da Grã Bretanha - remontando o momento de sua fundação ao século 16, quando se manifestou a vontade extrativa da colonização espanhola em jazidas como a das célebres minas de prata de Potosí (Bolívia). Talvez tenha sido a rica experiência acumulada com o Principio Potosí, assim como a visibilidade global alcançada pelos debates em torno do colonialismo, que levou o MNCARS a organizar, em 2012, o Grupo Península, e a associar-se com a Rede Conceitualismos do Sul. Ambas as equipes participariam de numerosas atividades do museu nos anos seguintes, convertendo o Centro de Arte Rainha Sofia na instituição espanhola de referência na organização de debates sobre o colonialismo – focado, é verdade, na experiência da América Latina, o que contrasta com Barcelona, onde a moderna experiência colonial na África parece receber um maior interesse.Peru, Ikunde, Ifni
Na capital catalã que, de fato, dispôs de importantes vínculos comerciais com a Guiné Equatorial durante o período colonial, as controvérsias sobre o papel da burguesia catalã no império colonial espanhol e sua marca no urbanismo da cidade proliferaram a partir de 2015. Prova disso são as diversas intervenções da artista Daniela Ortiz - a última delas no Virreina Centre de la Imatge, organizada em 2019 sob o provocador título Esta tierra jamás será fértil por haber parido colonos, ou as exposições organizadas no transcurso do projeto “Barcelona, metròpoli colonial” pela equipe do Observatori de la Vida Quotidiana (OVQ), do Museu Etnològic i de Cultures del Món, dedicadas respectivamente ao centro de aclimatação zoológica aberto pela Municipalidade de Barcelona na Guiné continental (Ikunde, 2016), ou à experiência dos soldados catalães substitutos, que foram enviados ao enclave colonial da Ifni para cumprir seu serviço militar (Ifni: la mili africana de los catalanes, 2018).A essas atividades juntaram-se outras nos últimos anos, caracterizados pela multiplicação de iniciativas e por uma certa descentralização: as intervenções de Inés Plasencia na Tabakalera de Donostia (The day after. Imagen y memoria de la España colonial, 2016), ou de Juan Valbuena (Ojos que no ven, corazón que no siente, 2016) ou, mais recentemente, a retrospectiva dedicada a Ariella Azoulay na Fundació Tàpies de Barcelona (Errata, 2019), são uma boa mostra dessa crescente pluralidade de vozes.
Não faltam projetos e experiências, e sim vontade política para dar a eles um protagonismo que contribua para revisar uma memória excessivamente autocomplacente e que, a partir de um enfoque crítico, crie debates fundamentais ainda inexistentes na Espanha, como o da devolução de objetos acumulados durante o espólio colonial.